Publicado em: 13/03/2015 às 13h39

P-I Brånemark - Parte o mestre, ficam as lições

Depoimentos e memórias de quem esteve lado a lado com o homem que mudou a Odontologia.

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No dia 20 de dezembro de 2014, aos 85 anos, perdemos Per-Ingvar Brånemark, tantas vezes celebrado internacionalmente como o “pai da Osseointegração”, “o pai dos implantes dentais”, ou “o pai da Implantodontia moderna”. Não por acaso, muitos se sentiram órfãos ao saber da notícia.

Por ser o responsável pela descoberta que revolucionou a Odontologia e os tratamentos bucomaxilofaciais, Brånemark já seria merecedor de todas as homenagens que recebeu nas últimas cinco décadas. Mas, além de ser um cientista brilhante, P-I também tinha um espírito humanitário verdadeiramente comprometido com o bem-estar das pessoas. A partir de 1988 e, principalmente, nas décadas de 1990 e 2000, os brasileiros tiveram o privilégio de conhecer de perto cada uma dessas facetas.

Inicialmente, o objetivo de visitar o Brasil era reunir casuística nos tratamentos complexos de deformidades craniofaciais. Com o tempo, P-I e sua esposa Barbro Brånemark foram cativados pelo clima ensolarado e hospitalidade da cidade de Bauru, em São Paulo. O casal estabeleceu importantes laços de amizades com alguns dentistas brasileiros e suas famílias. À sua maneira, Brånemark viveu como um cidadão bauruense ilustre, circulando pelas ruas da cidade, participando de churrascos com os amigos e tomando caipirinha. As visitas ao País se tornavam cada vez mais frequentes e longas, se estendendo por períodos de até três meses.

Mais do que disseminar a prática da Implantodontia osseointegrada, sua passagem pelo Brasil inspirou muitos profissionais a abraçar sua visão filosófica de tratamento, além de arregimentar milhares de admiradores. Para garantir que o seu legado no País pudesse ser desfrutado também pela população carente, construiu o “P-I Brånemark Institute Bauru”.

Lamentavelmente, seus últimos anos de vida foram bastante dolorosos, devido aos graves problemas ortopédicos e à deterioração de sua saúde. Nas aparições públicas e nos encontros com os amigos, seu desconforto físico era evidente, mesmo com a ajuda da cadeira de rodas. A idade avançada, no entanto, parecia não lhe afetar a clareza de pensamento. Quando tomava a palavra, P-I sempre encantava a todos, com seu habitual magnetismo.

Seja em uma conversa íntima, em uma palestra para centenas de pessoas ou em uma cirurgia, P-I distribuía gentilezas, conhecimento e inspiração por onde passava. Carismático, tinha uma vocação natural para fazer com que as pessoas ao seu redor se sentissem especiais. Mesmo quando ainda não era um pesquisador de prestígio, e era confrontado seguidamente por dentistas incrédulos, Brånemark enfrentava seus opositores sem perder a compostura.

Diante de uma situação informal e inusitada, gostava de repetir, em português, um de seus bordões prediletos: “Poderia ser pior!”, que era seguido sempre por um sorriso brincalhão. Esta frase se tornou uma de suas marcas registradas, assim como a gravata borboleta, e o paletó caído sobre o ombro.

Outra expressão memorável era “Less is more” (Menos é mais), usada para defender a ideia de simplificação dos procedimentos cirúrgicos e agressão mínima aos tecidos. Sua vida, de certa forma, foi cercada de frases de efeito, como “Ninguém deve morrer com seus dentes em um copo de água”. Ele também era conhecido como “o homem que fez as pessoas sorrirem”.

Participou do debate de lançamento da ImplantNews, em 2004 e, no ano seguinte, escolheu o Brasil para a celebração mundial pelos 40 anos da Osseointegração. Com o grande sucesso, tornou-se um parceiro dos eventos IN nas edições seguintes, por meio de seu instituto. Infelizmente, não foi possível comemorar com ele os 50 anos da Osseointegração.

P-I Brånemark tinha consciência de que sua figura era tão importante quanto sua obra, e concedia seu tempo para todos aqueles que o admiravam. Em sua passagem por este mundo, deu muito mais do que recebeu.

Os brasileiros, afetivamente tão ligados a P-I, devem sentir profundamente a sua ausência. No entanto, é preciso lembrar que o mestre partiu, mas sua obra e seus ensinamentos ficaram. Brånemark deixou um presente de valor inestimável para o povo brasileiro. O que resta aos que o admiravam verdadeiramente é trabalhar para honrar o seu legado.

 

Boas histórias e momentos com P-I

Brånemark esteve no Brasil inúmeras vezes e, ao longo de suas visitas, conviveu com centenas de profissionais. Para homenagear o homem que mudou as nossas vidas, registramos a seguir alguns depoimentos e memórias dos colegas que nos enviaram suas contribuições.

 

Brånemark influenciava qualquer pessoa que estivesse ao seu lado. Tinha um carisma fora do normal, e sempre estava fazendo planos para o futuro. Não aceitava limites no tratamento dos pacientes, mesmo nos casos mais dramáticos. A convivência com ele me deixou muito mais confiante para tratar casos complexos. Aprendi com ele a ser crítico ao me deparar com novas ideias que não sejam comprovadas a longo prazo. Os modismos são muitos, e ele sempre os via com ressalva. A convivência com ele me ensinou que mesmo os grandes homens devem ser humildes, aprender com os erros e comunicá-los à comunidade para que não seja repetido por outros.Conheci P-I em um congresso na Espanha. Ele tinha interesse no trabalho que estávamos fazendo no Centrinho de Bauru, com pacientes portadores de lábio leporino. Ele me encontrou no próprio hall do hotel, se apresentou, e me disse de uma forma direta: “Sei que você trabalha neste grande centro de pacientes com deformidades.

Eu gostaria de ir até lá, operar com vocês para ajudar na resolução dos casos que vocês não conseguem”. Começou ali uma grande parceria que durou mais de 20 anos, e que mudou totalmente minha vida e a de muitas pessoas que participaram deste convívio com ele no Brasil, durante anos maravilhosos. Ele sempre foi uma pessoa objetiva, do tipo que não tem tempo a perder, e não tinha mesmo. Sempre tratava as pessoas com muito apreço, acreditava sempre no potencial dos mais jovens e tinha um respeito enorme pelos mais velhos.

Sabia de memória o nome da maioria dos pacientes e procurava saber detalhes da vida deles, o que faziam, profissão, parentes, onde moravam e o histórico do defeito. Considerava os pacientes como uma família e tinha uma vontade imensa de resolver os problemas que eles tinham. P-I gostava muito de operar. Tinha uma energia fora do normal, operava em pé, sem pressa para terminar. Nós ficávamos, às vezes, oito horas no centro cirúrgico, comíamos lanche no intervalo e acabávamos o dia muito cansados (eu diria que nós ficávamos muito mais cansados do que ele). Para ele, aquilo era a grande motivação de sua vida: fazer o bem para os pacientes.

Quando operávamos juntos, aprendíamos a parte cirúrgica associada a um conhecimento biológico dos tecidos e como manipulá-los. Tínhamos a sensação de que, por mais complicado que fosse o caso, ele sempre daria um solução. Nas cirurgias de enxerto de ilíaco, ele removia o próprio enxerto e, quando colocava os implantes, usava o sangue medular para colocar ao redor do implante. Quando terminava a cirurgia, antes de fechar o retalho ele irrigava tudo com o mesmo sangue medular. Deixava para os assistentes suturarem, mas sempre ficava por perto até o final. Sempre acompanhava os pós-operatórios, íamos de leito a leito, e ele com uma pequena lanterna examinando todo mundo.

Seguindo o badalar
P-I tinha muita fé em Deus. Certa vez, uma de suas passagens pelo Brasil coincidiu com a Páscoa. Operamos a semana inteira, e no sábado ele me disse: “Vá para sua casa passar a Páscoa com sua família”. Eu fiquei com receio de deixá-lo só em Bauru, pois no hotel ninguém falava inglês e eu estava acostumado a resolver tudo para ele. Mas, ele insistiu tanto que eu finalmente concordei e fui para casa. Na segunda-feira, quando voltei, um amigo disse que o viu em uma igreja perto do hotel durante a missa de Páscoa. Ele foi seguindo o badalar dos sinos, achou a igreja e, mesmo sem entender nada, foi rezar com a Barbro. P-I pensava nos outros antes de si mesmo. Esta fé em Deus provavelmente lhe dava forças pra cumprir a missão de melhorar a condição de tantos pacientes, tratados por ele no mundo todo, com dedicação especial aos pacientes brasileiros.

Laércio W. Vasconcelos​

 

No princípio, achei que P-I era uma pessoa extremamente séria e fechada. Com o tempo, vimos seu espírito brincalhão e descontraído. Quando conversávamos, ele dizia sempre bem-humorado, em português: “podia ser pior”. Exemplo de seriedade científica e muito respeito aos pacientes, Brånemark sempre valorizou esses aspectos em nossas conversas, fazendo referências ao juramento de Hipócrates. Profissionalmente, ele mostrou que nós deveríamos usar a Osseointegração além das indicações comuns, na reabilitação de pacientes mutilados por ressecção de tumores e más-formações. Era um cirurgião muito habilidoso. Durante o período de trabalho, permanecia muito concentrado. Porém, de vez em quando, fazia algumas brincadeiras com o staff para quebrar um pouco a tensão do procedimento cirúrgico. Nas palestras, era muito comunicativo. Cumpria com precisão os horários de início e fim das atividades, típico do povo escandinavo. Após um dia pesado de cirurgia hospitalar, ele gostava de ir à nossa casa junto com os alunos de pós-graduação para descontrair com um bom vinho, caipirinha de pinga, churrasco, paella, vatapá etc.

Conversando por gestos
Extremamente educado, Brånemark atendia com elegância e formalidade as pessoas. Nossa empregada doméstica, Cida, que ajudava também na limpeza da casa do professor Brånemark, em Bauru, sentia-se totalmente à vontade ao lado dele, mesmo sem que conseguissem conversar entre si. Ela contava que o professor colocava o CD da minha banda musical “Os gatos” e gesticulava, batendo com o punho cerrado no peito, tentando se comunicar com a Cida e mostrar o carinho que ele tinha comigo e com minha família. É claro que esse carinho sempre foi recíproco. Com muita satisfação, fizemos o possível para que tivesse uma vida tranquila, segura e adaptada em Bauru.

O encontro com a rainha
Em certa ocasião, surgiu a oportunidade de eu ter uma audiência com a rainha Sílvia, da Suécia, no palácio real em Estocolmo. Convidei o professor Brånemark para participar dessa reunião, mas ele só acreditou depois de confirmar com o gabinete da própria rainha.
Carlos Eduardo Francischone

 

 

Apesar de ele ser muito sério profissionalmente, com as pessoas, pacientes e funcionários ele era sempre muito humano, fazia questão de conhecer todos pelo nome e pedia que todos o chamassem de P-I. Todos gostavam muito dele e, com essa humildade, todos se sentiam à vontade com sua presença.
Quando estava operando, P-I ficava muito concentrado no procedimento em si; sua esposa – Barbro – sempre instrumentava as suas cirurgias e, após tantos anos trabalhando juntos, ela já sabia exatamente o que ele queria, e isso fazia com que as cirurgias fluíssem de uma forma tranquila. Ele era uma pessoa extremamente humana, humilde e sensível. Seu propósito sempre foi melhorar a vida das pessoas que necessitavam de tratamento. P-I era um ser humano iluminado, que realmente se preocupava em ajudar as pessoas, em tratá-las com igualdade, independentemente de quem fossem, e sempre com muito carinho, com um sorriso no rosto e dando uma nova chance de viver aos pacientes reabilitados. Para nós, tanto pessoal quanto profissionalmente, foi uma honra conviver com ele.

A criação do Instituto P-I Brånemark – Bauru
O Instituto foi a realização de um sonho, de que existisse um espaço para atender um volume grande de pacientes, na área intraoral, extraoral e até ortopédica. Porém, com a burocracia e a dificuldade na obtenção de recursos, ele viu que teríamos de reduzir as opções de tratamento. Hoje, estamos mais focados nos casos intraorais em que, com protocolo de atendimento desenvolvido e com a ajuda de voluntários, conseguimos atender os pacientes desdentados totais. Na área extraoral, hoje realizamos somente atendimentos a pacientes que perderam nariz, órbita e orelha. Em nossa rotina, fazíamos contato regulamente por telefone, via Skype, e sua esposa o atualizava do que acontecia aqui. Após nove anos de Instituto e com todo o trabalho realizado, acreditamos que ele estava feliz, mesmo não podendo estar presente fisicamente.
Ingrida Gingers e Raquel de Aquino Garcia 

 

P-I era um homem de conceitos firmes, mas simples. Ele era muito bem-humorado e, acima de tudo, um cavalheiro. Era um filósofo da vida para a vida, usava frases de efeito, às quais ele realmente acreditava. Influenciou toda uma geração de profissionais que tiveram acesso a ele e às ideias dele. A excelência de sua filosofia era humanística, de que o homem se quiser pode sempre fazer algo melhor por seus semelhantes.
Depois de ter tido a oportunidade de conviver com ele em 1992, me tornei seu fã incondicional. Eu me motivei pela dedicação à obra realizada no Brasil, mais especificamente ao Instituto Brånemark, em Bauru, onde tive a oportunidade de montar um serviço de diagnóstico por imagem, desenvolver vários trabalhos científicos e ajudar a criar um protocolo técnico-científico que teve o aval do próprio P-I.
Ele era um gênio, gentil, cavalheiro, otimista e, acima de tudo, alguém que se importava com tudo e com todos. Ele se foi, mas com certeza ele já deve estar pensando em uma forma, em outro plano, para nos iluminar com sua bondade.

Borrifo divino
A ciência era a sua alavanca, mas era um homem de convicção religiosa. Uma vez, estávamos em um procedimento cirúrgico e, quase no fim, ele aspirou uma seringa de sangue de uma área doadora de osso e borrifou no leito ósseo receptor. Eu questionei o porquê do procedimento e ele simplesmente me respondeu, bem-humorado: “God´s will” (vontade de Deus).

Clube do Bolinha
Uma vez, na Bolívia, fomos com ele à prefeitura de Santa Cruz de La Sierra, local onde ele seria condecorado com uma Comenda da Cidade. Repentinamente, alguém disse a ele que só ele entraria no local da referida cerimônia, não permitindo que a Sra. Barbro Brånemark entrasse. Ele ficou furioso e disse que eles tinham preconceito contra as mulheres. Desistiu de receber a comenda. 
Israel Chilvarquer 

 

Meu primeiro contato com o professor Brånemark aconteceu no Centrinho de Bauru, em 1992. Nessa época, fiquei admirada pela seriedade do trabalho que ele apresentava. Depois, por volta de 1995, quando ele começou a executar trabalhos na USC, pude conhecer o ser humano ímpar que estava por trás daquela belíssima obra que executava. A partir de então, passei a ter uma admiração absoluta por ele.
Ele fazia questão de nos ensinar a ver as pessoas, e não o problema. Dizia todas as vezes que “em saúde, o menos é mais”. Mostrava um imenso carinho e atenção no atendimento, que eram imediatamente percebidos pelos pacientes, mesmo que eles não fossem capazes de entender seu idioma. Pude testemunhar o esforço dos pacientes para serem entendidos ao manifestarem toda sua gratidão. Foi uma experiência marcante e única. Humilde, cuidadoso nas colocações, preocupado em elogiar o trabalho dos companheiros, educado e muito simples. Ele elogiava as técnicas, os materiais e os resultados, e isso nos deixava (toda a equipe de professores e técnicos em prótese) muito felizes. Só fazia com que nos esmerássemos mais a cada dia, jamais se engrandecia ou mostrava soberba. Entregava-se ao trabalho com a alma e se mostrava muito feliz quando os pacientes o agradeciam, quando relatavam benefícios com o que tinham recebido.

Presença confirmada
Em uma das vezes que trouxemos o nosso grupo do curso de especialização em Implantodontia de São Paulo, coordenado pela Dra. Marta Riesco, para realizar o trabalho voluntário no Brånemark Center de Bauru, eu ofereci aos alunos um churrasco em minha casa e convidamos o professor Brånemark. Os alunos pensaram que ele jamais iria e ficaram bastante surpresos com a sua presença. Ele não apenas compareceu, como também fez questão de permanecer durante muito tempo e se relacionou super bem com todos, como se fizesse parte do grupo. Os alunos ficaram muito felizes e, até hoje, quando encontro algum deles, o fato é lembrado.
Ivete Sartori 

 

 

P-I tinha uma personalidade magnética! Independentemente de suas qualidades de emérito cientista, ele era um líder nato, com todas as qualidades de um professor de tradição europeia, o que comumente chamamos de um scholar. No púlpito ou no palco era um entusiasta da Medicina e das possibilidades de reabilitação para aqueles que sofriam por edentulismo, tumores, amputações ou má formação congênita. Ele tinha um intelecto privilegiado aliado a uma personalidade eletrizante. Nos congressos e conferências, ele era assediado como uma estrela. Na realidade, ele era uma estrela! Todos queriam um autógrafo, uma fotografia ou simplesmente apertar sua mão. Todavia, sua grande paixão eram os pacientes. Na presença das pessoas que o procuravam como última esperança para mitigar seu sofrimento, ele se dedicava de corpo e alma. Brånemark sempre repetia que o paciente é o centro de tudo e a razão maior de nossa profissão. Quando um paciente entrava em sua sala de consulta, eu sentia que, para ele, todo o resto das coisas evaporava, pois a atenção de P-I era exclusivamente para o doente. P-I era uma pessoa muito otimista, um intelectual que acreditava na ciência e no homem. As crendices, os mitos e as superstições da Medicina o aborreciam. A política universitária e o superego de alguns cirurgiões também o incomodavam muito. Afinal, da mesma forma que ele propunha a integração entre o osso e o implante, ele também advogava a integração entre os vários profissionais da área da saúde. Também o aborrecia muito quando alguém tratava um paciente com soberba, pouco caso ou atrasava o atendimento. Enfim, situações que ele interpretava como imerecidas indignidades causadas ao paciente.
A frase “integration and cooperation”, que devia se aplicar às relações entre os profissionais de saúde, sempre foi repetida. Certamente, foi uma das pessoas que mais me influenciou pessoal e profissionalmente. Era uma pessoa sensível, erudita, apreciador de música clássica e de literatura, uma mistura simbiótica entre um cientista e um humanista.

Grande molar
Estas foram as maiores lições que aprendi em minha convivência com P-I: a) Seja um estudioso da Odontologia, mas não desdenhe a cultura e as artes. Afinal, a vida é mais do que um grande molar. b) Trate seu paciente como se ele fosse o único. Pois, no fundo, todo paciente é único.

Lição difícil
Estávamos um dia em Skövde, um hospital de atendimento a operados de melanoma, com grande quantidade de pacientes com sequela de amputação de nariz e orelhas, e especializado em maravilhosas e naturais próteses bucomaxilofaciais. No almoço, sentado de frente a P-I, com a sua indefectível gravata, perguntei a ele, que tanto já havia me ensinado, se o nó da gravata borboleta era muito difícil de dar, já que nós brasileiros só estávamos acostumados a gravatas borboletas de nó prontos, de amarrar atrás do colarinho (aquelas de padrinho de casamento). P-I, do alto de sua sapiência, no meio do almoço e cercado por pacientes deste hospital, desfez o nó e falou enquanto refazia o laço: “É mais fácil do que a cirurgia de implante. Dobre aqui, passe por ali e aperte acolá”. Foi a única coisa que ele não conseguiu me ensinar!
Wilson Sendyk

 

Quando conheci P-I Brånemark, percebi que o professor tinha uma verdadeira aura de otimismo, absolutamente contagiante. Como inicialmente eu estava muito cético a respeito da confiabilidade dos implantes, a primeira impressão que tive é de que havia algo mágico. Imagine que, em 1986, eu não tinha a menor convicção de que a metodologia se tornaria a resolução de tantos problemas e que poderia impactar tantos profissionais e pacientes, como vimos e temos visto.
Conforme tive oportunidades para conhecê-lo mais de perto, reconheci nele um ser humano que sempre foi muito simples no trato. Não me chamava pelo nome, mas sim por “Malmö”, a cidade na Suécia onde morei e estudei. Ele estava sempre curioso por aprender e escutar novas vivências e, obviamente, as pessoas ficavam maravilhadas com o seu carinho e deferência.
Em todos esses anos, não me lembro de tê-lo visto irritado. Obviamente, era temperamental e muito focado, mas como pessoa era altamente inteligente e completamente fora da curva. Era absolutamente fascinante quando estava operando ou palestrando e tinha uma enorme alegria de viver.
Tanto no plano profissional como pessoal, P-I representa uma influência em minha vida, com seu eterno otimismo. A sua dedicação, concentração, disciplina e amor ao próximo eram características que muito me marcaram.
Mario Groisman

 

 

Tive a oportunidade de conhecer P-I Brånemark em 1988, durante um congresso da APCD, em sua primeira visita ao Brasil. Foi uma apresentação emocionante. Imediatamente percebi que estávamos diante de um mito. Por dedicar-me à reabilitação oral e por ter usado diversos implantes antes dos osseointegrados, ficou nítido que estávamos testemunhando uma grande mudança na Odontologia restauradora. Foi simplesmente fantástico!
Apesar de não ser cirurgião, tive o privilégio de ingressar em um grupo de colegas que passou uma semana com ele em Gotemburgo, dentro do hospital onde ele atuava. Foi uma experiência inesquecível, não só pelos ensinamentos, mas também pela convivência diária com o professor P-I. Sempre gentil, ele preparou aulas para serem ministradas exclusivamente para o nosso grupo. Além das cirurgias demonstrativas, nossos colegas tinham a oportunidade de operar junto com ele, enquanto o resto do grupo assistia confortavelmente nos escritórios particulares do grande mestre, por meio de televisores. Fazendo cirurgias e ministrando aulas, ele era simplesmente inebriante. Andava pelos corredores da clínica de uniforme e só de meias. Era realmente despojado e excêntrico na sua forma de ser e vestir-se.
Os princípios da Osseointegração não influenciaram só a mim como profissional, mais sim a Odontologia como um todo. Nada havia sido criado na nossa profissão, de efeito mais significativo do que os implantes. O mundo odontológico curvou-se frente aos ensinamentos e técnicas do professor P-I. A Odontologia restauradora contemporânea assistiu a uma evolução que nunca antes havia passado. Não há, no mundo, um profissional que não tenha recebido os benefícios do uso dos implantes osseointegrados.
Marco Antonio Bottino

Conheci P-I Brånemark em agosto de 1992, quando eu ainda era residente no Centrinho (Hospital de Reabilitação de Bauru – USP). Desde o primeiro contato, ele me pareceu ser uma pessoa muito determinada e cativante.
Ao conversar com a equipe, P-I procurava sempre tratar a todos com muita educação, e conseguia sempre causar um bom entrosamento entre as partes. Quando estava no centro cirúrgico, permanecia sempre muito compenetrado e sério. Ao final do procedimento, ele sempre agradecia à mãe natureza, desejando uma boa recuperação para o paciente. Já durante as palestras, ele era mais charmoso e cativante como um bom orador deve ser, porém, sem deixar em momento algum de ser muito profissional. Tinha uma nítida preocupação especial com o paciente. Ficava aborrecido com a falta de profissionalismo e quando um paciente não recebia o tratamento adequado. Quando algo de errado acontecia, ele chamava a pessoa para conversar em particular. Posso dizer que P-I foi como um pai profissional para mim, pois hoje eu trabalho com reabilitação craniofacial graças a todo o apoio que recebi dele.

Brinde pelo sucesso
Durante três anos, morei na Suécia e trabalhei no Instituto Brånemark de Gotemburgo, fazendo pesquisas. Foi um período em que desfrutei de uma convivência mais próxima de P-I. Um momento especial foi a publicação do livro Craniofacial Prosthesis – Anaplastology & Osseointegration, do qual eu fui coautor juntamente com o professor Brånemark. Saímos para jantar e brindar o sucesso de mais um trabalho realizado e, durante o brinde, ele abriu um largo sorriso e disse, em português bem claro: “Poderia ser pior, Marcelo”. Todos caíram na risada.
Marcelo Ferraz 

 

Conheci P-I em 1995, no seu escritório no Hospital Carlanderska, em Gotemburgo. Ele me recebeu com muita gentileza, ouvindo a minha história, que era a tentativa de introduzir o conceito da Osseointegração no Hospital A. C. Camargo, em São Paulo.
O carisma do professor era enorme. Ele era sempre muito carinhoso com todos, procurava recordar fatos relacionados a cada experiência anterior. Ele dava atenção a cada um dos diversos membros da equipe, como anestesistas, cirurgiões plásticos e residentes. Aos pacientes, tinha um olhar especial: identificava todos de uma forma muito exclusiva, reconhecendo a dor e o sofrimento em cada um, sem nunca fazer distinção de acordo com o tipo de deformidade. Quando se discutiam os casos para decidir sobre cirurgias, ele sempre dizia que o paciente merecia o melhor em termos de qualidade de vida. Com uma energia e vitalidade incríveis, sempre estava pronto para examinar ou tratar mais um paciente.
Era uma verdadeira usina de ideias. Estar ao seu lado era uma constante excitação mental, pois ele sempre discutia projetos científicos, propostas de pesquisas, técnicas cirúrgicas e planos para ampliar a possibilidade de tratamento para um número maior de pacientes. Nas cirurgias, ao mesmo tempo em que era muito concentrado, sempre procurava ensinar suas técnicas e dava espaço para seus auxiliares apresentarem outras propostas, sempre muito atento com o bem-estar dos pacientes e procurando fazer as cirurgias mais simples e menos traumáticas. Pessoalmente, aprendi demais com ele, sendo que, além do aprendizado científico e formal que foram inestimáveis, o maior aprendizado foi o humano, a dedicação aos pacientes, a busca constante por aprimoramento de técnicas e os métodos de reabilitação, e a incansável luta por melhorar as condições de tratamento aos pacientes portadores de sequelas maxilofaciais. Tenho realmente o professor Brånemark como um mentor, um guru, um gênio que serve como fonte de inspiração constante.
A última vez que estive com ele foi em junho de 2013, em sua casa em Gotemburgo. Foi uma visita muito agradável, em que pudemos conversar sobre o futuro, novos projetos e a disseminação do conceito pela América Latina. Neste dia, ele foi muito carinhoso comigo e com o Dr. Rodolfo Candia, que me acompanhava, tendo feito questão de mostrar a benção que havia recebido do Papa João Paulo II, deixando muito claro que estendia essa benção a todos os pacientes e aos colaboradores que lutavam pela sua causa. Foi um momento muito emocionante. Quase pude perceber que era uma despedida. Vou guardar essa sensação por toda a minha vida.
Luciano Dib

 

Conheci Brånemark no Congresso da APCD, em janeiro de 1988, quando ele apresentou a técnica da Osseointegração pela primeira vez no Brasil. Desde o início, ele se mostrou uma pessoa muito humilde, sincera, delicada, sensível, preocupada com o bem-estar dos outros. Também era visivelmente um pesquisador perspicaz e de raciocínio rápido, sempre atento a todos os comentários. Percebi naquele momento que se tratava de uma pessoa diferenciada e intelectualmente privilegiada.
Ele era rápido de raciocínio, trabalhava com precisão. Também foi se aprimorando com as pessoas que convivia e se desenvolvendo como cirurgião e como palestrante. Utilizava dos casos de vários colegas e os citava sempre que possível. Envolveu e projetou alguns colegas na especialidade. Brånemark também foi um exemplo de cooperação e multidisciplinaridade. Conseguiu homogeneizar e “osseointegrar” vários profissionais de diferentes formações e egos. Sua influência é percebida ainda hoje nas publicações dos vários grupos de pesquisas formados.
Ficava aborrecido ou desanimado com a falta de visão de alguns, com a falta de colaboração entre as equipes, com a luta de egos, com as deficiências sociais para tratamentos de pacientes. Para ele, o paciente sempre vinha em primeiro lugar.
Navegando
P-I tinha, com seu filho, um veleiro de 45 pés para velejar entre as ilhas próximas à costa. Na primeira temporada que passamos juntos, em um curso de imersão que durou duas semanas, saímos para velejar e foi uma experiência inesquecível. Hoje, após 26 anos, ainda me lembro das paisagens maravilhosas e da sensação da brisa e do sol daquele entardecer. São momentos que o futuro não vai apagar. Que ele fique em paz, ciente de que continua vivo na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de desfrutar de sua amizade.
Claudio Sendyk

 

Meu primeiro contato com o professor Brånemark foi há quase 20 anos. Ele estava em um período extremamente ativo da carreira. Era muito focado nos tratamentos propostos e executados. Percebia que cada caso apresentava um desafio e ele não tinha uma fórmula pronta para todos. Sempre refletia muito, discutia e procurava alternativas, pois as situações eram muito complexas.
O carisma dele era impressionante, sempre procurando atingir o paciente pelo toque e pela esperança. Eram pessoas muito fragilizadas que saíam das avaliações com alguma luz. Mesmo quando o tratamento resultava em fracassos, ele procurava focar nas alternativas. Acho que ele acreditava que, mais importante que o resultado final, era o caminhar. Ele sabia que o prognóstico de muitos casos não seria bom, mas o mais importante era manter o paciente em tratamento, com esperança, com estímulo.
Durante as cirurgias era muito tenso, muito preocupado, muito exigente. Gostava de interagir com a equipe cirúrgica, embora na sua cabeça sempre houvesse um plano traçado que não seria mudado. Já nas atividades acadêmicas, era muito pragmático. Tinha paciência e repetia inúmeras vezes sua filosofia de vida. Queria que as pessoas entendessem a importância da Osseointegração, não apenas fazer implantes.

Técnica nova
Frequentemente, alguns colegas se aproximavam do professor para mostrar casos, técnicas novas e tentar impressioná-lo. Certa vez, um profissional se aproximou e tentou a todo custo convencê-lo de uma técnica que estava praticando. Eu percebi que P-I ouvia e pouco discutia. Ao final, disse apenas para ele sempre buscar cooperação com outros centros e universidades, para trocar experiências. Depois que o colega saiu, ele me explicou que depois que se pratica muito a Osseointegração, as perguntas são diferentes; não procuramos apresentar técnicas novas, mas sim discutir e encontrar respostas para os nossos fracassos. Isso me fez realmente pensar e entender que sempre temos ideias que julgamos novas e superiores, mas na realidade só saberemos a sua real significância quando soubermos tratar nossos fracassos.
Hugo Nary Filho 

 

Assisti a uma aula de P-I Brånemark pela primeira vez em fevereiro de 1987, no Chicago MidWinter Congress. Cerca de 400 pessoas estavam presentes, lotando o auditório local, enquanto ele falava sobre uma revolução em andamento na Implantologia. Eu fiquei imediatamente hipnotizado, assim como toda a comunidade odontológica americana e internacional ali presente. Ao final de sua exposição, surpreendentemente, foi aplaudido de pé durante um longo tempo por todos os presentes.
Naquele momento, não fomos capazes de perceber, mas já estávamos trilhando uma nova estrada, sem retorno, na Odontologia: a Osseointegração.

Quando a luz apaga, o que fazer?
Brånemark estava iniciando uma palestra no antigo auditório Rebouças, quando todas as luzes se apagaram. Em poucos segundos, a luz de emergência foi acesa apenas no palco e ele, sem interromper a aula, comentou: “Eu aprendi que temos que estar preparados para tudo”. Continuou a aula, aparentemente tranquilo, mesmo sem slides, até que as luzes chegaram algum tempo depois. 
Vicente de Souza Pinto 

O professor Per-Ingvar Brånemark esbanjava muitas qualidades: brilhantismo acadêmico, profissional e de pesquisador, aliadas a uma capacidade ímpar de transformá-las em benefício direto às pessoas. Mudou a vida de milhões delas, mundo afora, com suas descobertas no campo da ciência médica. Simplicidade e altruísmo também foram marcantes em sua personalidade, a começar pelo tratamento pessoal por ele requisitado: apenas P-I. Um simples P-I, nada de “professor doutor”, nada de cerimônias ou maiores deferências. Um colega que queria compartilhar, ensinar e dividir o que ele achava de mais importante: ajudar o próximo.
Lembro-me muito bem em uma de nossas estadias no Instituto P-I Brånemark de Bauru, com as turmas de especialização e mestrado da Ulbra (RS), dele sentado com os alunos em pleno ambulatório, radiografias na mão, discutindo casos, como um simples mortal, pedindo opiniões, ensinando, instigando os mais jovens a avançar no que ele chamava de tratamento total do paciente. A ligação do corpo e da mente com uma energia maior vinda lá de cima, e tendo a boca como parte fundamental desse mecanismo, pois através dela fazemos todo o resto do organismo funcionar.
São tantas coisas a lembrar desse homem. Mas, a preocupação com os mais desamparados e a vontade inabalável de passar à frente seu legado ficarão marcadas de maneira definitiva em minha mente e coração.
Nós, profissionais da área odontológica e teus pacientes, seremos eternamente gratos a você, P-I. 
Elken Gomes Rivaldo

 

 

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