Publicado em: 10/11/2017 às 16h34

Qual implante usar na região posterior da mandíbula?

Para Marco Bianchini, trata-se de uma região funcional, onde devolver a capacidade mastigatória ao paciente deve ser a maior prioridade.

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A região posterior de mandíbula é uma das áreas que mais possuem apelo dentro da Implantodontia. No nosso dia a dia de clínicos, frequentemente nos deparamos com ausências dentárias nestas áreas que precisam ser reabilitadas com implantes. Muitas vezes não temos osso suficiente e, então, temos que partir para enxertos ósseos, lateralização do nervo ou outras alternativas. Isso sem falar nos implantes curtos, que cada vez mais mostram ser uma excelente opção. Contudo, a questão que eu quero levantar hoje aqui é: qual implante usar na região posterior da maxila quando eu tenho uma boa quantidade óssea?

Esta parece ser uma questão simples de se responder. Ora, se temos uma boa quantidade óssea, praticamente todos os tipos de implantes darão certo. “Use qualquer um, professor. Com bom osso tudo funciona”, me responderiam os mais afoitos. Mas será mesmo que poderemos ser tão simplistas assim? Para melhorar a nossa discussão, a Figura 1 abaixo demonstra a radiografia panorâmica de uma paciente que já havia colocado dois implantes do tipo hexágono externo no segmento quatro (elementos 36 e 37) e, agora, se prepara para reabilitar o segmento seis (elementos 46 e 47). Poderemos, nós, seguir a mesma linha e utilizar também neste segmento seis os implantes do tipo hexágono externo?
 

Figura 1 – Radiografia panorâmica demonstrando ausências dentárias nos segmentos quatro e seis. Observar que já temos implantes do tipo hexágono externo nos elementos 36 e 37, sendo que o elemento 36 já possui a coroa sobre o implante. Observar, também, que temos uma boa altura óssea no segmento seis, resultante de enxertos ósseos prévios, feitos nos alvéolos pós-extrações. 

 

Inicialmente, vale reforçar que precisamos abordar outros detalhes que esta radiografia panorâmica nos mostra. A paciente esta se submetendo a tratamento ortodôntico visando, além da correção estética, a intrusão dos dentes posteriores superiores, que extruíram. Este tratamento ortodôntico é essencial para que possamos reabilitar as áreas edêntulas corretamente. Temos, também, uma cárie na mesial do dente 17, que precisa ser tratada, além da necessidade de exodontia do elemento 28. Contudo, iremos nos ater mais especificamente as áreas dos implantes já colocados e onde, futuramente, iremos colocar. Ou seja, a região posterior de mandíbula.

Certamente precisaríamos de mais elementos para estabelecer um correto planejamento. Fotos, tomografia, modelos articulados e perfil do paciente seriam essenciais. Ter em mãos apenas uma panorâmica nos deixa bastante limitados. Entretanto, para a discussão que eu quero levantar aqui, acredito que a panorâmica seja o suficiente. Podemos observar perfeitamente na panorâmica que os implantes do segmento quatro estão adequadamente colocados, respeitando as distâncias biológicas peri-implantares (distância mínima entre implantes e plataforma hexagonal supraóssea). A coroa protética do implante 36 está com dimensões adequadas. Porém, teremos que esperar mais um pouco para a confecção da coroa do 37, pois ainda não temos espaço interoclusal suficiente. Para isso, o tratamento ortodôntico segue em curso.

A região posterior da mandíbula possui pouco apelo estético, salvo raras exceções. Na grande maioria dos casos, os pacientes não mostram estes dentes, nem mesmo no sorriso. Assim, trata-se de uma região funcional, onde devolver a capacidade mastigatória ao paciente é a nossa maior prioridade. Isto deve ser feito preservando os demais elementos dentais que estão na boca. Desta forma, acredito que não é pecado nenhum utilizarmos implantes com plataforma hexagonal para estas áreas, desde que sejam seguidos corretamente todos os protocolos de utilização deste tipo de implantes. Implantes do tipo hexágono externo devem ter a sua parte coronal colocada para fora do osso. O hexágono deve estar totalmente fora do tecido ósseo, evitando-se saucerizações indesejadas. Além disso, a distância mínima entre implantes e dentes é maior para este tipo de plataforma. Ela também deve ser respeitada para evitarmos reabsorções ósseas peri-implantares.

A Implantodontia atual nos oferece uma variedade muito grande de soluções com implantes que apresentam os mais variados desenhos e superfícies. Sem falar, ainda, nos mais diversos tipos de componentes protéticos. Certamente não haveria problema algum em utilizarmos implantes cone-morse nestas áreas. Mas, eu me pergunto: isto é realmente necessário para uma região como a área posterior de mandíbula? Será que não temos evidências suficientes de que os hexágonos externos, quando bem aplicados, funcionam bem? Não cabe aqui negar a evolução da Implantodontia, mas sim manter o foco na reabilitação da função mastigatória e simplificar, não só as nossas vidas, mas também a dos pacientes. 

 

“(...) fui justificado pelo nome do Senhor Jesus Cristo e pelo espírito do nosso Deus, assim a mim tudo é perimitido, mas nem tudo me convém. A mim tudo é permitido, mas não me deixarei dominar por coisa alguma.” (1 Corintios 6, 11-12).

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 

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