Publicado em: 17/11/2017 às 13h40

Instituto norte-americano usa cadáveres humanos no estudo da Odontologia

Após visitar o Marc Institute, em Miami, Marco Bianchini reflete sobre as técnicas de ensino utilizadas no Brasil.

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Na semana passada, eu e o Professor Cesar Augusto Magalhães Benfatti, meu colega da Periodontia e Implantodontia aqui da UFSC, estivemos em Miami, nos Estados Unidos. Lá, visitamos o Marc Institute – Miami Anatomical Research Center, que vem se destacando como um centro avançado para treinamento profissional e pesquisas de médicos e dentistas em cadáveres humanos frescos. Foi uma visita bastante interessante, que nos fez refletir muito sobre as técnicas de ensino que ainda utilizamos no Brasil.

O Marc Institute trabalha com cadáveres humanos que são captados de doadores, devidamente cadastrados nos setores responsáveis por este tipo de atividade nos Estados Unidos. Cumpridos todos os trâmites legais, os cadáveres são disponibilizados ao Marc Institute, que faz a devida destinação das peças anatômicas para os cursos de formação que necessitam. Tudo sob uma intensa e rigorosa fiscalização dos órgãos federais responsáveis.

Uma vez cumprida toda esta etapa legal, os cursos de formação têm à sua disposição uma forma bastante real de executar treinamentos práticos, muito próximos da realidade que os profissionais médicos e dentistas encontrarão em suas vidas profissionais. Esta é uma prática que define muito melhor o aprendizado, e é incomparavelmente superior aos treinamentos executados em modelos pré-fabricados. Desta forma, as mais variadas especialidades médicas e odontológicas podem usufruir desta didática, treinando de uma maneira bastante eficiente os seus profissionais.

O Marc Institute recebe profissionais do mundo inteiro, pois o mercado já identifica este modelo como um sucesso na formação profissional. Durante a nossa visita, tivemos a oportunidade de entrar em contato com duas turmas que estavam se aperfeiçoando. Uma de médicos ortopedistas de joelho, tendo, na sua maioria, estudantes da América Latina, e outra de harmonização facial, exclusivamente de brasileiros. Durante a visita, pudemos observar os alunos destes dois cursos treinando intensamente em joelhos e na face, reproduzindo as técnicas em uma realidade palpável e verdadeira, que praticamente se iguala ao que estes profissionais irão encontrar na vida real.

Turma de alunos brasileiros no curso de harmonização facial, coordenado pelo Professor Altamiro Flavio Ribeiro Pacheco, no Marc Institute.

 

Existem outros institutos norte-americanos com este mesmo perfil, e outros colegas brasileiros trabalhando com estes modelos de ensino. O Dr. Rodrigo Neiva, da University of Florida, em Gainesville, é um destes profissionais que já vem trabalhando com cadáveres frescos há bastante tempo. A quantidade de brasileiros que buscam este tipo de formação é imensa. Para termos uma ideia, no Marc Institute, o Medical Director é o paulista Dr. Eduardo Sadao Yonamine, que gentilmente nos atendeu e nos explicou pacientemente toda a estrutura e rotina do Instituto. É ele quem assina todos os certificados de conclusão dos cursos. A COO (Chief Operations Officer) é a também brasileira Heloise Peixoto, que, de uma forma muito carismática, cuida da parte comercial.

Assim, todas as áreas médicas podem ser contempladas, tornando este universo de aprendizado quase que ilimitado. Tudo isso graças a um sistema legal que funciona e a um País que valoriza a a abnegação destas pessoas doadoras de seus corpos inteiros para pesquisas e estudos. Estes seres humanos pensaram nas gerações futuras e, em vez de deixarem seus corpos se desintegrarem em uma sepultura, os doaram para melhorar a qualidade de vida daqueles que ainda estão por vir. Para muitos, isto pode parecer até macabro, mas este tipo de treinamento remonta à época de Leonardo Da Vinci, que desenterrava corpos para estudar Anatomia.

Após a nossa visita, eu me fiz várias perguntas: por que as coisas demoram tanto para acontecer no Brasil? Por que aqui ainda não existem institutos desta natureza? Por que aqui no Brasil o nosso treinamento ocorre em pacientes “vivos”, que se submetem a virar cobaias na busca de preços mais acessíveis a tratamentos de saúde? Por que nossas grandes cabeças pensantes estão cada vez mais migrando para países mais desenvolvidos? Lamentavelmente, observando as mentes bloqueadas que ainda infestam as nossas instituições de ensino e órgãos reguladores, vamos continuar sendo apenas meros produtores de alimento, onde as JBS’s da vida serão os nossos parâmetros de produção de sucesso.

 

 “E não tenhais medo daqueles que  matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” (Mateus 10, 28)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 

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