Publicado em: 11/05/2018 às 08h40

Enxerto gengival livre é coisa do passado?

Marco Bianchini alerta para algumas situações em que a técnica não é recomendada.

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Atualmente, ainda encontramos autores que defendem a realização prévia de enxerto gengival livre para um aumento substancial de mucosa ceratinizada antes da realização de um recobrimento radicular pela técnica tradicional do enxerto submerso de tecido conjuntivo ou técnicas regenerativas. Isso geralmente ocorre quando uma inadequada faixa de mucosa ceratinizada está presente apical e lateralmente ao defeito ou, ainda, há um vestíbulo muito raso ou freio proeminente com inserção próxima à margem gengival, que dificultam o recobrimento direto pelo enxerto de tecido conjuntivo.

Alguns pesquisadores conseguiram bons resultados utilizando a técnica do enxerto gengival livre para recobrir raízes expostas. Porém, o uso dela não é muito recomendado em áreas estéticas, devido ao fato de a previsibilidade de recobrimento ser baixa – nutrição inadequada da porção do enxerto em contato com a raiz – e por proporcionar uma alteração na cor e no volume, que se contrasta com as áreas adjacentes. As figuras 1 a 5 ilustram um caso de enxerto gengival livre.

 

Figura 1 – vista intraoral da região anterior inferior. Observar a recessão gengival importante do elemento 31, com praticamente toda a face vestibular da raiz exposta, além da total ausência de mucosa ceratinizada na região apical.

 

Figura 2 – corte tomográfico do elemento 31. Observar o comprometimento vestibular do periodonto de sustentação (ligamento periodontal, cemento e osso alveolar).

 

Figura 3 – enxerto gengival livre posicionado e suturado na região do 32 ao 42. Observar o aprofundamento do vestíbulo realizado pela divisão do retalho vestibular a partir da área de junção da mucosa alveolar com a mucosa ceratinizada. Observar, também, que o enxerto foi posicionado apicalmente e ligeiramente adjacente à recessão gengival do 31.

 

Figura 4 – controle pós-operatório de seis dias. Observar a boa cicatrização e adaptação do enxerto na área receptora.

 

Figura 5 – controle pós-operatório de 90 dias. Observar o ganho de mucosa ceratinizada em toda a região e o recobrimento parcial da recessão tecidual. Observar, também, a diferença de coloração da mucosa ceratinizada da área enxertada.

 

Embora alguns autores tenham obtido um tecido ceratinizado na região, além de relatarem o crescimento da margem gengival em direção coronal (creeping attachment) ao longo do tempo (como observamos na figura 5), sabe-se que essa técnica oferece uma baixa previsibilidade para o recobrimento de raízes e resulta em uma estética desfavorável, mesmo executando-se uma gengivoplastia posterior para mascarar a diferença na coloração final do tecido enxertado. Por isso, deve ser indicada para áreas que não comprometem a estética ou em situações mais extremas, como citamos acima, nas quais complexidades anatômicas como vestíbulos rasos, bridas e ausência importante de mucosa ceratinizada comprometem a realização de outras técnicas mais previsíveis.

Obviamente que devemos dar preferência à técnica do enxerto de conjuntivo subepitelial para o recobrimento de raízes. Entretanto, a recuperação e manutenção de uma boa faixa de tecido ceratinizado com essa técnica é bastante previsível, com resultados controlados ao longo dos anos e ratificados pela literatura. Dessa forma, mesmo não recobrindo as raízes, consegue-se estabilizar recessões gengivais com esses enxertos livres, ajudando na manutenção da saúde periodontal e evitando a progressão de recessões teciduais indesejáveis.

 

"O Senhor aperfeiçoará o que me toca; a tua benignidade, ó Senhor, dura para sempre; não desampares as obras das tuas mãos." (Salmos 138,8)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

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