Publicado em: 06/07/2018 às 09h57

Gengivite na gravidez e os contraceptivos orais

Marco Bianchini reforça que as terapias não cirúrgicas conservadoras podem controlar as manifestações periodontais.

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A gengivite na gravidez, mais comum no segundo trimestre da gestação, é a manifestação bucal mais predominante nesse período da vida da mulher. Geralmente, ela resulta de uma má higiene bucal, irritantes locais e mudanças dos tipos predominantes da flora bacteriana. Contudo, em uma situação de não gravidez, estes sintomas não seriam observados, pois estas manifestações são exacerbadas por mudanças vasculares e hormonais, e pelo aumento da porcentagem de bactérias anaeróbicas, causado pelo acúmulo de progesterona ativa, cujo metabolismo é reduzido durante a gravidez.

As características clínicas da gengivite na gravidez incluem eritema, edema, hiperplasia e aumento do sangramento gengival. Uma cor vermelha intensa tende a estar presente na gengiva marginal e nas papilas interdentais. Ocorre perda de elasticidade e pode haver uma ligeira perda do sistema de inserção. Além disso, as alterações da imunocompetência durante a gravidez podem criar uma resposta exagerada de tecidos do periodonto de suporte, aumentando a mobilidade dental. Assim, muitas vezes, quando nos deparamos com sintomas que parecem não estar de acordo com a quantidade de biofilme presente, podemos suspeitar de uma modificação hormonal importante. Isso pode ser resultado de uma gravidez ainda não revelada ou do uso de contraceptivos orais.

Os contraceptivos orais agem interrompendo o ciclo menstrual, e as mulheres apresentam manifestações clínicas semelhantes às observadas na gengivite na gravidez. Eles exacerbam os problemas gengivais, apresentando uma resposta exagerada aos irritantes locais e manifestações clínicas muito parecidas com as que ocorrem na gravidez, tais como: maior presença do exudato inflamatório, edema e eritema gengival, hemorragias e hiperplasia gengival. Como falamos, é bastante comum observarmos uma resposta exagerada de inflamação gengival aos irritantes locais, caracterizada por tecidos gengivais muito avermelhados, volumosos e hemorrágicos em pacientes que fazem uso de contraceptivos orais.

Os contraceptivos hormonais agravam a resposta gengival aos irritantes locais similarmente aos hormônios prevalentes na gravidez e, quando ingeridos por um período superior a 18 meses, aumentam a destruição periodontal. Toda mulher em idade fértil deve ser informada da importância crítica de um diagnóstico precoce e dos cuidados preventivos relacionados à gengivite na gravidez, e sobre as manifestações periodontais que podem ocorrer com o uso de contraceptivos orais. Também é muito importante que o periodontista atente para estes quadros da mulher, para que não haja erros de diagnóstico ou até mesmo no auxílio do diagnóstico de uma gravidez ainda não descoberta pela paciente.

É muito comum que periodontistas recebam muitas pacientes nestas situações no dia a dia clínico. O tratamento sempre deve ser corretamente prescrito, de modo que estas pacientes se sintam motivadas a procurar um profissional de saúde bucal durante o período de gravidez ou quando optarem pela ingestão de contraceptivos orais. Um programa de prevenção bucal pré-natal ou de pacientes que utilizam contraceptivos orais pode incluir o aumento na frequência da raspagem periodontal, na frequência e/ou duração da escovação e do uso de fio dental, prescrição de colutórios ou géis com fluoreto, uso de colutórios antimicrobianos, bem como aconselhamento alimentar.

Não é difícil controlar uma gengivite na gravidez ou provocada pelo uso de contraceptivos orais, haja vista que os sintomas estão sempre exacerbados quando relacionados com a quantidade de biofilme presente. Assim, terapias periodontais não cirúrgicas conservadoras, de controle do biofilme, podem controlar estas manifestações periodontais. Contudo, o mais importante é o aconselhamento e esclarecimento à paciente e aos familiares sobre o que está ocorrendo, principalmente se estamos frente a pacientes jovens, que não sabem ou não querem revelar a possível gravidez ou o uso de contraceptivos orais.

 

Referência

Fernandes CB. A periodontia e a paciente feminina: associações com as diferentes fases da vida da mulher [tese]. Piracicaba: FOP/Unicamp, 2004.

 

“Ela dará à luz um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz: eis que a virgem ficará grávida, e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco.” (Mateus: 1, 21-23)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

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