Publicado em: 03/08/2018 às 09h17

Tabagismo: um grande desafio para Periodontia e Implantodontia

Marco Bianchini lembra que qualquer terapia periodontal ou com implantes pode ter seus resultados alterados em pacientes fumantes.

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Embora o tabagismo não seja considerado uma doença propriamente dita, a correlação entre o fumo e as mais diversas doenças bucais tem sido exaustivamente documentada na literatura. Sabe-se que o tabagismo vem sendo considerado, ao longo das últimas décadas, um fator de risco para as doenças periodontais e o câncer bucal. Além dessas duas doenças, fumantes também apresentam menor taxa de sucesso em implantes dentários, maiores dificuldades no reparo de enxertos ósseos e maior incidência de lesões de cárie radicular.

A classificação das doenças periodontais de 1999 considerava o fumo um dos principais fatores de risco para a periodontite. Muitos estudos epidemiológicos relatavam que fumantes apresentavam um risco de duas a sete vezes maior de desenvolver uma doença periodontal e perda de inserção, quando comparados a não fumantes. Entretanto, uma das constatações mais importantes destes estudos é que o risco é diretamente proporcional ao número de cigarros fumados por dia. Tabagistas que consomem 31 cigarros ou mais por dia apresentam os maiores riscos da doença (taxa de risco em cerca de 5,6).

Outra constatação importante é que os fumantes apresentam menor sangramento gengival a sondagem, quando comparados a não fumantes. Isto pode gerar um dado falso, pois um clínico desavisado poderá achar que a doença periodontal não está ativa quando, por exemplo, sonda uma bolsa de 7 mm e ela não sangra. Isto ocorre porque a nicotina exerce um efeito vasoconstritor, o que reduz o fluxo sanguíneo, o edema e sinais clínicos da inflamação, mascarando doenças periodontais e peri-implantares nesses pacientes.

Embora haja uma forte discussão na literatura para se eleger o que seria um fumante pesado ou um fumante leve, existe um consenso de que consumidores de dez cigarros por dia seriam considerados fumantes leves. Com isso, os efeitos nocivos do tabaco nestes indivíduos não seriam tão deletérios aos tecidos periodontais e peri-implantares. Desta forma, embora haja algumas divergências, qualquer terapia periodontal ou com implantes – seja ela preventiva, curativa ou de manutenção – pode ter seus resultados alterados em pacientes fumantes.
 

Pacientes fumantes continuam sendo um grande desafio, tanto para a Periodontia como para a Implantodontia. (Imagem: Shutterstock)

 

Se observarmos algumas conclusões da nova classificação das doenças periodontais publicada em 2018, vamos observar que existe uma leve modificação conceitual no papel do fumo. Os autores consideraram que o tabagismo é um comportamento prevalente com graves consequências para a saúde. Embora o uso do tabaco já tenha sido classificado como um hábito, agora ele é considerado uma dependência à nicotina e um distúrbio médico recidivante crônico.

Está bem estabelecido que o tabagismo tem um efeito adverso importante sobre os tecidos de suporte periodontais, aumentando o risco de periodontite entre duas e cinco vezes. Entretanto, não há características fenotípicas periodontais únicas da periodontite em fumantes. Nesta base, a periodontite associada ao tabagismo não é uma doença distinta. O hábito de fumar, no entanto, continua como um importante fator modificador da periodontite e deve ser incluída no diagnóstico clínico de periodontite como descritor.

No que diz respeito aos implantes dentários, apesar de termos uma série de trabalhos identificando o fumo como um potencial indicador de risco para a peri-implantite, o último consenso de 2018, que apresentou também uma nova classificação para as alterações peri-implantares, considerou que os dados sobre pacientes fumantes que desenvolveram peri-implantite são inconclusivos. Desta forma, não podemos afirmar que o fumo é tão prejudicial aos implantes como imaginamos, pelo menos em alguns pacientes.

Isto explica, de certa forma, por que em alguns casos os implantes dão certo em pacientes fumantes, e em outros não. Estes resultados modificam um pouco as nossas abordagens. Porém, vale lembrar que a ciência muda de opinião muito rapidamente. Assim, acredito que os pacientes fumantes continuarão sendo um grande desafio, tanto para a Periodontia como para a Implantodontia.
 

Referências

1.         Schwarz F, Derks J, Monje A, Wang H-L. Peri-implantitis. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S246-66.

2.         Panos N, Papapanou et al. Periodontitis: consensus report of workgroup 2 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri‐Implant Diseases and Conditions. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S162-70.

 

“Não multipliqueis palavras de altivez, nem saiam coisas arrogantes da vossa boca; porque o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança.” (1 Samuel:2,3)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 

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