Publicado em: 15/08/2018 às 13h20

Fazendo nada, pensando em nada...

Em mais um de seus "causos", Celestino Nóbrega conta qual é a correlação científica entre as altas taxas de glicemia e o poder de persuasão.

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(Imagens: Shutterstock)


Se você já teve a curiosidade de ler alguma das colunas anteriores que escrevi, poderá constatar que relatei vários “causos” ocorridos com amigos ou, algumas vezes, comigo mesmo. De fato, sou um grande colecionador de histórias que, geralmente, são abstratas. Mas, quem nunca teve um amigo que gostasse de colecionar objetos específicos, como figurinhas da Copa do Mundo, por exemplo?

Aqui nos Estados Unidos o futebol é tão desconhecido quanto Santos Dumont, a ponto de os norte-americanos chegarem ao absurdo de não interromper o trabalho para assistir à cerimônia de abertura da Copa do Mundo. Estou escrevendo esta coluna exatamente no momento em que a Rússia joga contra a Arábia Saudita, no dia 14 de junho de 2018. Por enquanto, 3 x 0 para os vodkófilos.

Na coluna “O vendedor de enciclopédia”, eu tive a oportunidade de divulgar a Classificação Internacional dos Chatos, que para o seu crescimento espiritual pode ser lida novamente.

Pois bem, agora eu gostaria de descrever algumas das teorias sobre “o nada”, ricamente elaboradas e decorridas de conversas que mantive ao longo dos meus 55 anos de idade com alguns amigos chatos, aos quais devo muita admiração e respeito. Afinal de contas, os chatos devem ser tratados como um bom vinho ou ainda como um puro charuto cubano, vagarosamente degustado e apreciado.

Monges do Tibete, por exemplo, de forma geral, são chatos. Lembro-me de ter lido um livro marcante na minha adolescência, a fase mais esplendorosa e prolífica de um ser humano do ponto de vista “chatístico”. O livro foi escrito por Lobsang Rampa (pseudônimo de um 171 chamado Cyril Hoskins) e tinha o emblemático título “A Terceira Visão”. Um livro incrível, pois foi escrito por um autêntico chato e que tratava de monges extremamente chatos. Ou seja, uma perfeita triangulação: adolescente chato lendo um livro de um autor chato que descreve monges chatos.

Os monges chatos, segundo Lobsang Rampa, são capazes de alcançar um estágio elevadíssimo de concentração capaz de fazer com que apresentem a habilidade de pensar em nada. Sinceramente, não consigo entender qual o resultado prático decorrente de “pensar em nada”. Mas, meus amigos não monges de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, também conseguiam essa façanha através do uso de uma poção druida composta por vinho Chapinha com cogumelos que brotavam na bosta de boi zebu. Tinha que ser zebu, senão não atingia o estado de “pensar em nada”. Eles que me contaram.

Seguem, portanto, algumas teorias decorrentes de papos-cabeça que podem definitivamente alterar a sua vida em absolutamente nada.
 


A correlação entre o relaxamento mental e o resultado de um trabalho

Essa teoria veio à tona quando eu e um amigo chato norte-americano estávamos no supermercado. Aqui nas terras do tio Sam há uma fauna muito diversificada de chatos. Este país é um verdadeiro celeiro chatogênico. Conforme você poderá perceber, esse meu amigo foi provavelmente criado à base de suco de pera e Nesquik sabor morango. O cara é totalmente dodói.

Eu o seguia pelos corredores do supermercado enquanto ele avidamente procurava por ovos do tipo cage free, ou seja, ovos postos por cloacas de galináceas criadas livres de uma gaiola. Ele se recusa terminantemente a consumir ovos convencionais, postos por bípedes emplumados engaiolados, que representam de forma tácita a escravização pelo capitalismo selvagem, que de maneira impiedosa força as criaturas a botarem ovos por toda a vida, enclausuradas ad eternum pelo sistema cruel.

Basicamente, seria como se estes ovos botados por cloacas livres da gaiola fossem trazer algum benefício à sua saúde. Após uma rápida reflexão, cheguei à conclusão de que a única e significativa diferença não estaria na composição química dos nutrientes contidos nestes ovos, mas apenas na conformação física dos ovos postos por uma galinha cuja cloaca apresenta um esfíncter anal talvez mais relaxado. Portanto, seus ovos tenderiam a ter um equador mais avantajado. E nada mais.

Conclusão: uma teoria que você deve passar de geração para geração, para que nenhuma mudança aconteça em sua vida alimentar-sexual-transcendental. A não ser que os ovos sejam de codorna.


A taxa de glicemia e o poder de persuasão

Essa é mais uma teoria “ricamente vazia”. As bases filosóficas encontram suas origens em um ser humano muito especial, que passou rapidamente por esta vida. Assim como um cometa, deixou um rastro cintilante de pérolas por todos os caminhos por onde passou: o gordo Neucyr. Uma pena que Castro Alves, o ícone da poesia condoreira, não o tenha conhecido antes de escrever “Espumas Flutuantes”, que trata da transitoriedade da vida. O gordo foi embora muito rápido.

O gordo Neucyr foi uma destas almas elevadas que naturalmente possui a leveza de um beija-flor no corpo de um mamute. Alguém deveria escrever a biografia do gordo Neucyr. Nos anos 1970, ele era motorista do Dops em Taubaté e foi incumbido pelo delegado de se misturar aos estudantes de Medicina para, eventualmente, desbaratar a célula que talvez estivesse sendo formada na pacata cidade. Assim sendo, permeou por entre as festas das repúblicas e conheceu a galera toda. Não foi difícil perceber que a moçada estava mais a fim de fazer festa do que qualquer outra coisa. Largou o emprego de motorista para morar na república do Luis Fernando (aquele que eu descrevi na coluna sobre o cara que comeu o bonsai do restaurante japonês).

Os caras se formaram em Medicina e o gordo continuou tocando a vida como motorista de ônibus. O problema é que, diferente dos ônibus, o gordo não tinha freios. Comia e bebia tudo o que tinha direito, sem restrições. Se o gordo estivesse vivo, jamais poderia compreender o que são ovos cage free e para que servem. Assim sendo, desenvolveu diabetes.

O gordo ganhou de um sobrinho que morava em Curitiba um lindo par de botas pretas com salto carrapeta e bico fino, igual àquelas usadas pelos Beatles e pelo Sílvio Brito. Após voltar a pé da rodoviária numa tarde escaldante de janeiro em Taubaté, chegou em casa com os pés encalacrados naquelas botas (que eram número 39, mas ele calçava 42). Ele costumava fazer piada dizendo que, naquela altura da vida, o único prazer que sentia era quando chegava em casa e tirava as botas apertadas. Por isso, achava que o tamanho reduzido das mesmas apresentava um efeito positivo em sua vida.

Ao retirar a bota do pé direito, notou algo diferente. Após tirar a meia de nylon (preta) que aumentava mais ainda o desconforto, notou que faltava um dedão – que ficou retido dentro da bota. O diabetes havia feito de seu dedão uma vítima, decepando-o totalmente.

Com a calma e sabedoria de um monge (olha eles aí de novo), o gordo guardou dentro de uma garrafa de pinga o dedão inerte, que agora havia se desprendido do corpo de um reles mortal. Era mais ou menos 15h, o gordo morto de fome. Após aliviar os pés do marido com uma relaxante massagem (agora menos trabalhosa pela falta de um dedão), a esposa anuncia que o almoço está na mesa, e que tinha um pudim de leite condensado de sobremesa. Eis que naquele momento chegam as visitas inesperadas, que vieram ver o querido tio.

O gordo, pensando mais rápido que um raio, numa tentativa instintiva de proteger o pudim, imediatamente começou a alertar os sobrinhos do risco que eles corriam de também se tornarem diabéticos. Sem pudor, mostrou a todos os presentes a garrafa de pinga com o dedão, argumento visual forte o suficiente para persuadir as visitas para que antecipassem o final da visita. O gordo comeu o pudim inteiro e viveu feliz para sempre. No seu enterro, a garrafa de pinga com o dedão o acompanhou para a glória eterna.

Sendo assim, o gordo estabeleceu a correlação científica entre as altas taxas de glicemia e o poder de persuasão. Acreditem ou não, o fato é verídico.
 

 

 


Celestino Nóbrega

Program leader do Programa Internacional de Ortodontia da New York University (Nova York, Estados Unidos); Professor associado clínico na Case Western Reserve University (Cleveland/OH, Estados Unidos); Coordenador dos cursos de especialização em Ortodontia da Facsete, São José dos Campos/SP.

 

 

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