Publicado em: 12/10/2018 às 21h40

Os aprendizados do Abross na prática clínica

Marco Bianchini conta que a experiência no congresso foi útil em um caso clínico em seu consultório odontológico.

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Na semana passada aconteceu mais uma edição do congresso bianual da Academia Brasileira de Osseointegração – Abross. Estive presente no encontro e ministrei uma palestra. Participei, também como palestrante, de um simpósio de peri-implantite. Como sempre, muito se aprende e muito se vê nestes eventos. A troca de conhecimentos ocorre espontaneamente, não só durante as palestras, mas também no coffee break. Sem falar no chopinho do happy hour dos estandes, onde as pessoas se soltam mais e revelam o que verdadeiramente está acontecendo em suas clínicas particulares ou em suas escolas, universidades e laboratórios de pesquisa. 

De tudo que pude observar nesse evento, o que mais me chamou a atenção é que estamos dedicando um maior e mais qualitativo olhar para o passado. Os implantodontistas estão olhando o que já realizaram nas décadas passadas e voltando a utilizar alguns conceitos que andavam, digamos, meio esquecidos. O principal deles é dar a devida importância para as manutenções periódicas em nossos consultórios, para que o paciente não tenha níveis exacerbados de biofilme e não desenvolva problemas peri-implantares importantes.

Dentro desta perspectiva, os implantes de corpo único e a parte coronária dos implantes, sendo lisa ou bem polida (pescoço e a cabeça), parecem estar também retornando a serem objetos de discussões sérias. E foi dentro deste contexto que, chegando de volta ao trabalho aqui em Florianópolis (SC), logo na segunda-feira após o congresso, eu me deparei com um caso extremamente interessante, que me fez lembrar não apenas destes assuntos técnicos, mas também de uma conversa superinteressante que eu tive com o Dr. Nilton De Bortoli, patriarca da empresa Implacil De Bortoli, que do alto dos seus 86 anos, sempre faz interessantes análises do passado da Implantodontia.

Compareceu na minha clínica particular uma paciente que desejava repor um dente perdido na região do 46. Ela já trouxe uma tomografia em mãos para a minha análise. Quando olhei a tomografia, o que mais me chamou a atenção foram os dois implantes tipo parafuso de Garbaccio, que ela havia feito há aproximadamente 30 anos e que estavam em perfeitas condições, clínicas e radiográficas. Figuras 1 a 5.

Figura 1 – corte panorâmico de tomografia volumétrica do cone-bean, demonstrando dois implantes tipo parafuso de Garbaccio na região do 34 e 44. Observar, também, a presença de implantes padrão Branemark na região do 36 e 46.

 

Figuras 2A e 2B – corte transversal do parafuso de Garbaccio na região do 44. Observar a intensa osseointegração do parafuso, inclusive nos seus níveis mais coronais.

 

Figura 3 – corte transversal do parafuso de Garbaccio na região do 34. Observar a mesma intensa osseointegração do parafuso, inclusive nos seus níveis mais coronais, que observamos também no elemento 44.

 

Figura 4 – aspecto clínico da coroa sobre o implante tipo parafuso de Garbaccio no elemento 44, que está ferulizado ao implante 46, servindo como uma prótese fixa provisória de três elementos devido à ausência do elemento 45. Observar o aspecto de normalidade dos tecidos peri-implantares ao redor do parafuso de Garbaccio na região do 44. Vale lembrar que esta prótese fixa foi feita agora, em 2018. Assim, este parafuso de Garbaccio vinha funcionando como elemento unitário há 30 anos.

 

Figura 5 – aspecto clínico da coroa sobre o implante tipo parafuso de Garbaccio no elemento 34, unitário há mais de 30 anos. Observar o aspecto de normalidade dos tecidos peri-implantares ao redor desse implante.


Dino Garbaccio foi o italiano “inventor” deste tipo de implante que fez muito sucesso nas décadas de 1970 e 1980. Dr. Niton De Bortoli me contou que o próprio Dino Garbaccio veio da Itália para São Paulo em 1972 e ministrou um curso sobre estes parafusos que levavam o seu próprio nome na APCD (Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas). Ele ensinou a sua técnica de parafusos bicorticais como implantes dentários. O Dr. Nilton De Bortoli também participou desse curso como aluno. Ele conta que esses parafusos tinham uma técnica mais simples: “porque era um só, colocava reto e era um sucesso maravilhoso”, disse. 

Figura 6 – eu e o Dr. Nilton De Bortoli assistindo a uma das palestras do último Abross 2018.

 

Olhar para o passado e aprender com ele faz parte das nossas vidas. Criticar e ridicularizar técnicas passadas é um risco bastante grande, uma vez que a ciência vai e vem e os conhecimentos esquecidos acabam voltando a serem utilizados.  Tenho convicção absoluta que os parafusos idealizados por Dino Garbaccio foram um importante passo para a chegada ao modelo preconizado por Branemark, em 1982. Atualmente, este modelo de Garbaccio tem voltado à moda na forma dos implantes de corpo único.

Este caso, que eu apresentei hoje aqui na coluna, nos faz refletir bastante sobre o papel das superfícies lisas e polidas na parte mais coronária dos nossos implantes. Elas demonstram uma excelente adaptação dos tecidos moles, com ausência de acúmulo de biofilme, facilitando o controle, tanto dos pacientes como dos profissionais. É um assunto para pensar bastante e, talvez, muito em breve, novas descobertas nos façam voltar a utilizar uma versão mais moderna dos antigos parafusos de Garbaccio.
 

“Vendei vossos bens e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; um tesouro no céu que nunca acabe. Ali o ladrão nunca chega e a traça não corrói. Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.” (Lucas 12,33-34)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

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