Publicado em: 09/11/2018 às 10h56

Parafusos de osso bovino no estímulo da formação óssea

Marco Bianchini relembra trabalho de pesquisa realizado ao lado do colega Marco Pontual.

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Nesta semana, a Odontologia brasileira perdeu um grande nome. Faleceu o professor Marco Antônio Brandão Pontual, que lecionava na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória (ES). Tive a oportunidade de conviver de uma maneira bem próxima com o Dr. Pontual, pois fizemos doutorado juntos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Lá pude conhecer bem o Pontual, nas salas de aula e também na pesquisa que realizamos juntos, sob a orientação do Dr. Ricardo de Souza Magini. Esta pesquisa, concluída em meados de 2006, gerou uma publicação internacional altamente relevante, publicada em 2013, que trago hoje pra vocês aqui na coluna, como forma de homenagear o amigo Pontual. (clique aqui para acessar o artigo completo).

O objetivo desse estudo foi avaliar o uso de um inédito parafuso ósseo bovino reabsorvível, desenvolvido por nós, da Odontologia e da Engenharia da UFSC, para estimular a formação óssea. Esses parafusos de osso bovino foram inseridos na tíbia de cães beagle. Cada animal recebeu oito parafusos, divididos em grupos: grupo A (parafusos sem membranas), B (parafusos recobertos por membranas reforçadas com titânio) e C (defeitos ósseos tratados com enxerto ósseo autógeno em bloco). Os animais foram reoperados aos dois, quatro e seis meses, para verificação da formação óssea e coleta de amostras para a avaliação histológica. O novo osso formado foi medido com uma sonda periodontal obtendo média de 7,4 mm de ganho ósseo vertical para o grupo B, 3,6 mm para o grupo A e 1,7 mm para o grupo C. Estes resultados foram submetidos ao teste estatístico de Kruskal-Wallis, que mostrou diferenças estatísticas importantes entre os grupos, em favor dos parafusos de osso bovino testados. As figuras 1 e 2 ilustram os dados clínicos dessa pesquisa.
 

Figura 1 – Parafusos de osso bovino isolados e colocados na tíbia dos animais. Observar os grupos A (parafusos sem cobertura de membrana), B (parafusos recobertos com membrana reforçada com titânio) e C (enxerto de osso autógeno em bloco).

 

Figura 2 – Reabertura das tíbias após quatro meses. Observar a neoformação óssea considerável nos grupos A e B, onde os parafusos estão em processo de reabsorção, em detrimento da pouca quantidade óssea formada no grupo C (enxerto ósseo autógeno).

 

O exame histológico revelou um contato íntimo entre o osso neoformado e os parafusos ósseos que estavam em processo de reabsorção. Conclui-se que os parafusos de osso bovino testados proporcionaram um ambiente favorável para a formação de novo osso. Com isso, entendemos, naquela oportunidade, que estes inéditos parafusos de osso bovino, desenvolvidos na UFSC, poderiam perfeitamente se tornar uma terapia alternativa para melhorar a formação óssea vertical, inclusive para procedimentos regenerativos, bem como antes da terapia com implantes, para criar osso em regiões com pouca disponibilidade óssea. A figura 3 ilustra as avaliações histológicas.
 

 

Figura 3 – Avaliação histológica após quatro meses da instalação dos parafusos de osso bovino. BS= bone screws (parafusos de osso); NB= new bone (novo osso); Tíbia (osso original do cão). Observar que houve completa interação dos parafusos de osso bovino com o osso neoformado.


Os resultados clínicos e histológicos dessa pesquisa foram bastante animadores. Tínhamos a certeza – como eu tenho até hoje – que esses parafusos de osso bovino, “inventados” por nós, poderiam ter sido uma alternativa aos enxertos em bloco. Foi uma pena que esta linha de pesquisa não seguiu adiante. Mas, de qualquer forma, serviu como base para o desenvolvimento de outros produtos que hoje se encontram disponíveis no mercado. É um legado que toda esta equipe, com a importante participação do professor Marco Antônio Brandão Pontual, deixou para a Odontologia.

Realizar este trabalho com o Pontual e com as demais pessoas envolvidas naquela pesquisa, que estão citadas no artigo original, foi uma grande oportunidade para estreitarmos os relacionamentos e ver que a Odontologia vai bem mais longe do que a gente pensa. Recordo com nostalgia todos aqueles dias que passamos trancados no laboratório de Endodontia da UFSC, onde operamos os cachorros. O Pontual tinha um bom humor constante e uma alegria permanente, que tornava o trabalho mais divertido. Sempre tinha mais uma piada pra contar e uma gargalhada inconfundível. O céu deve estar mais alegre. Vá em paz, meu amigo, que Jesus te receba com um grande abraço carinhoso, o mesmo abraço que você tantas vezes nos deu.

 

“Jesus disse: não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai que é vosso Pai, meu Deus e que é o vosso Deus.” (João 20; 17)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

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