Publicado em: 30/11/2018 às 10h42

Quando devo ativar os meus implantes?

Marco Bianchini faz uma reflexão sobre esta pergunta, que tem afetado o dia a dia dos profissionais da Implantodontia.

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Esta aí uma pergunta que me irrita profundamente. Geralmente ela é feita por alunos, em nossos cursos, por colegas ou por pacientes. Na verdade, essa questão pode vir de diferentes formas, dependendo de quem faz o questionamento. Se vier por parte do paciente, normalmente ela vem assim: “Doutor, quando o senhor vai colocar o dente? Não é no mesmo dia do implante?”. Por outro lado, quando é um aluno que faz a pergunta, ela tende a aparecer da seguinte forma: “Professor, vamos reabrir este implante daqui a quanto tempo?”. Por fim, quando é um colega quem questiona, ele olha com aquela cara de espanto para você e diz: “Não acredito! Você ainda espera de três a seis meses para fazer as próteses sobre os seus implantes?”.

Talvez seja a idade que vem chegando e a irritação aumenta quando você quer acalmar o passo da sua vida, mas o mundo insiste em caminhar na direção contrária. Cada vez mais a frase “tempo é dinheiro” toma conta das nossas vidas. Nunca ouvi algo tão estúpido na minha vida. Na verdade, a frase deveria ser: “quem tem tempo livre, tem mais do que dinheiro”. A correria que o mundo globalizado e digitalizado nos impõe nos dias atuais é doentia. Escravizamos a nós mesmos para fazermos e terminarmos tudo o mais rápido possível. E eu me pergunto: para que isso? Para começar outro caso e entrar na mesma roda viva?

A busca pela ativação precoce dos implantes dentários ocorre desde sempre. Nos primórdios da Implantodontia convencional, antes de Branemark, os implantodontistas daquela época faziam cargas imediatas com frequência. E era daí que vinham as falhas. Não dava tempo de o osso integrar nos implantes corretamente. Branemark criou esse conceito de espera para a ativação. É uma lei que um bom número de implantodontistas obedece até hoje: três meses para a mandíbula e seis meses para a maxila. É o tempo que permitiria ao osso se integrar corretamente ao implante metálico.

Com o avanço das superfícies utilizadas pelos fabricantes de implantes, bem como a evolução da macrogeometria dos implantes, este dogma de três a seis meses começou a cair de moda. Estudos recentes vêm demonstrando que podemos ativar nossos implantes em menos tempo. O implante que eu utilizo no meu dia a dia clínico, por exemplo, recomenda que, devido à sua macrogeometria, seu formato cônico e seu tratamento de superfície, ele pode ser ativado em aproximadamente 60 dias, desde que o paciente que recebeu esse implante seja sadio. Leia-se aqui: livre de doenças sistêmicas comprometedoras, não diabético, não fumante e que não tenha recebido enxerto ósseo.

Meu colega e amigo, Dr. Luiz Fernando Martins André, descreve muito bem esse conceito de ativação dos implantes. “Quando fazemos carga imediata, a estabilidade primária do implante é fundamental. Ela somente ocorre devido à macrogeometria do implante, pois o este só irá iniciar sua osseointegração com 45 dias em média. Já a carga precoce ocorre quando podemos ativar o implante antes de 90 dias e, para isso, a microgeometria (superfície do implante) é fundamental. Precisamos ter uma superfície que gere maior aderência celular para permitir que esse implante seja ativado precocemente”, diz.

Assim, para ativar prematuramente um implante, seja em carga imediata ou precoce, devemos obedecer aos preceitos que citamos acima. Nenhum deles se refere à vontade do paciente em ter logo o seu dente definitivo ou a pressa do profissional em receber o seu pagamento. Desta forma, a carga tardia ainda é uma modalidade utilizada desde o início dos implantes osseointegrados, é altamente previsível, embasada em trabalhos científicos de longo prazo e que atinge altos níveis de sucesso.

Embora as pesquisas venham demonstrando o contrário, tenho reduzido cada vez mais meus casos de carga imediata ou precoce em meu dia a dia de clínico em Implantodontia. Procuro dar preferência à carga tardia. Talvez eu esteja na contramão da ciência; talvez eu esteja ficando velho e medroso. Pode ser. Mas talvez eu também esteja ficando mais prudente; talvez eu queira colocar a cabeça no travesseiro e dormir; talvez eu queira arriscar menos e ser dono dos meus casos. O que eu tenho certeza é que eu não quero mais ser refém de imediatismos desnecessários, que colocam em risco todo um planejamento apenas por 60 dias a mais de espera.

 

“Senhor, tu és o meu refúgio; tu me preservas do perigo; tu me envolves no júbilo da salvação. O Senhor me diz: “Eu te farei sábio e te ensinarei o caminho que deves seguir; guiar-te-ei com os meus olhos. Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio para que não se aproximem de ti”. (Salmo 32, 7-9)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

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