Publicado em: 07/12/2018 às 12h08

Área doadora para enxertos de tecidos moles: túber ou palato?

Os profissionais da Odontologia estão realizando um diagnóstico errado das áreas doadoras? Marco Bianchini analisa a situação atual.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo

Há algumas semanas, eu abordei, aqui neste espaço, o conteúdo do último congresso da Academia Americana de Periodontia, realizado em Vancouver, no Canadá, em outubro deste ano. Durante o encontro, um assunto muito comentado foi o enxerto de tecido mole, tanto para dentes quanto para implantes. O grande dilema ainda persiste na morbidade destas cirurgias que necessitam sempre de uma boa área doadora. Enquanto os enxertos “sintéticos” ainda não convencem 100% dos profissionais, vamos continuar usando o palato ou a túber como fontes. Mas qual é a melhor área?

Um artigo muito interessante publicado agora, em setembro de 2018, abordou este tema: Godat MS, Gruen TD, Miller PD, Craddock RD. Use of Tuberosity Connective Tissue for Root Coverage and Ridge Augmentation: Background and Technique. Issue Compend Contin Educ Dent 2018;39(8):533-39. E iremos resumi-lo na coluna de hoje.

Todos nós sabemos que o excesso de tecido gengival, que geralmente existe na distal do segundo molar superior – às vezes do terceiro molar –, criando uma pseudobolsa na tuberosidade maxilar, pode se tornar uma interessante fonte doadora para enxertos de tecido conjuntivo, para tratar as recessões marginais. Com o passar do tempo, esse excesso de tecido, se não for removido, pode criar uma área favorável ao acúmulo de biofilme. Isso permite a formação de cálculo e vem a se transformar em uma bolsa verdadeira, com perda real de inserção. Além disso, é sempre uma área de difícil higiene e de complexa remoção de placa pelos profissionais.

O problema é que parece que esta área nem sempre está disponível na forma que descrevemos acima. Assim, a maioria dos clínicos acaba optando pelo palato. Mas será mesmo que isso é uma verdade ou estamos realizando um diagnóstico errado das áreas doadoras da túber? Não seria obrigação do cirurgião-dentista examinar cuidadosamente a área da distal dos segundos e terceiros molares superiores e detectar áreas de pseudobolsas para tratamento?

Ao realizar a remoção do tecido da tuberosidade para tratamento da doença periodontal, ou até mesmo um aumento de coroa clínica, pode ser bastante prudente que o profissional considere também o uso deste tecido conjuntivo para tratar áreas de recessão periodontal que possam estar presentes no mesmo paciente. Afinal, um periodontista deve estar inclinado a reparar todas as áreas de defeitos periodontais. Assim, se estamos tratando uma recessão gengival, podemos perfeitamente averiguar se a distal dos molares superiores também necessita de tratamento periodontal. Esse tratamento vem a ser fonte de tecido conjuntivo para tratar outra área também com problema periodontal. No caso, recessões marginais.

O palato vem sendo, ao longo das últimas décadas, a área doadora mais comumente usada para procedimentos de enxertos de tecidos moles. Entretanto, existem alguns problemas com este tecido conjuntivo removido do palato, que  não podem ser deixados de lado. Excessos de vasos sanguíneos, nervos, tecido adiposo e glandular, bem como a variabilidade na densidade e o excesso de fibras, são alguns dos contratempos que a área doadora do palato nos oferece. Por essas razões, essa área doadora do palato pode não ser a melhor escolha como fonte de tecido conjuntivo.

Vantagens da área doadora de tuberosidade em relação ao palato:

  1. Melhor qualidade do tecido conjuntivo existente, com características mais densas;
  2. Camada epitelial mais fina, o que facilita a remoção;
  3. Maior quantidade (volume) de tecido conjuntivo disponível;
  4. Menor quantidade de tecido adiposo e glândulas;
  5. Poucas estruturas anatômicas adjacentes comprometedoras, como grandes vasos e nervos;
  6. Menor risco de hemorragias e lesões de nervos;
  7. Menor morbidade, permitindo ao paciente melhor recuperação, sem prejuízo das suas funções mastigatórias e fonéticas;
  8. Menor grau de contração tecidual pós-operatória;
  9. Facilidade no ajuste da espessura do tecido coletado.


Mesmo com todas essas vantagens, e com a tendência atual em dar preferência pela área da túber, ainda temos poucos relatos de pesquisas que documentam adequadamente o uso da tuberosidade como fonte de tecido conjuntivo. Torna-se necessário que futuros estudos analisem o desempenho dessa área. A densidade, quantidade e tipo de tecido no palato e na tuberosidade devem ser comparados histologicamente no mesmo paciente e em estudos de longo prazo, para que tenhamos mais segurança na escolha.

Embora a literatura ainda não seja totalmente conclusiva, é necessário que o clínico lance um olhar mais criterioso para a região da tuberosidade, a fim de aumentar o leque de escolhas de áreas doadoras de tecidos moles. As cirurgias plásticas periodontais e peri-implantares vêm sendo cada vez mais realizadas. A busca por melhores áreas doadoras, que diminuam a morbidade dos casos e ainda resultem na prevenção de doenças periodontais futuras, é uma excelente opção, que não deve ser descartada.

 

“Arrependei-vos, e convertei-vos de todas as vossas transgressões, e a maldade não vos servirá de tropeço. Libertai-vos de todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morrerá, ó casa de Israel? Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivereis.” (Ezequiel 18, 30-2)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

  • Imprimir
  • Indique a um amigo