Publicado em: 10/05/2019 às 12h11

Os super-heróis da Odontologia e a busca pela estética

Marco Bianchini demonstra preocupação com a saúde periodontal ou peri-implantar, muitas vezes deixada de lado até por especialistas.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo

Atualmente, o apelo estético na Odontologia tem tomado proporções monstruosas. Seja qual for a área que o dentista atue, de alguma forma, haverá cobrança por parte dos pacientes sobre o resultado estético final do seu trabalho. Isto tem levado alguns profissionais e professores a ingressar em um caminho perigoso, onde tudo é feito para se alcançar uma estética “perfeita”. Desta forma, não interessa o grau de morbidade que um tratamento poderá gerar, assim como não importa muito qual o preço que as estruturas de suporte, tanto do implante como de um dente natural, irão “pagar”, para que esta estética seja alcançada.

Explicando melhor o parágrafo acima: na verdade, o que se está ensinando em muitas escolas e cursos pelo Brasil – e também no exterior – é que vale a pena sacrificar estruturas dentais e ósseas sadias para se melhorar a estética. Estamos, pouco a pouco, deixando de lado a valorização da saúde periodontal e peri-implantar, mesmo que esta saúde não seja tão bonita e perfeita aos olhos da estética atual. Dentes hígidos são facetados ou extraídos, implantes saudáveis são removidos, enxertos de tecidos moles são feitos para se corrigir milímetros, que só aparecem em projeções de telas gigantescas de congressos. Cada vez mais o dentista vira um super-herói da estética branca e da gengiva rosa, transformando o ser humano em um padrão 100% simétrico que não existe na dentição natural.

É cada vez maior o número de casos que recebemos em nossos consultórios de pacientes com dentes ou implantes extremamente estéticos, mas sem saúde periodontal ou peri-implantar. Dentes abalados periodontalmente são frequentemente facetados ou laminados. Às vezes, esses dentes passam até a enxergar, pois recebem lentes de contato. Mas logo são extraídos, pois o seu periodonto estava doente e não foi tratado. É a estética branca que supura sem parar.

Da mesma forma, os nossos implantes estão cada vez mais doentes. A incidência de mucosite e peri-implantite aumenta de uma maneira assustadora, pois próteses com dentes muito brancos e gengivas artificiais lindas dificultam a higiene dos pacientes, levando a perdas ósseas progressivas. Mas os dentes continuam brancos, escondendo as espiras dos implantes que começam a aparecer abaixo dos protocolos em forma de sela.

Como se não bastasse tudo isso, recentemente apareceu a harmonização facial, que nos deu um olhar extraoral para os nossos casos. Então, agora, além de termos que ter dentes extremamente brancos e gengivas totalmente rosas, temos também que ter rostos esticados, lábios empinados e faces sem rugas. E, se tudo isso não for suficiente para se apresentar um caso em um congresso, basta passar as fotos em um programa corretivo, que chamávamos de “Photoshop”, que todas as assimetrias serão corrigidas e o caso ficará perfeito.

Fui graduado em uma escola que valorizava a função acima de todos os aspectos. Fui treinado a fazer amalgapin, que durava 30 a 40 anos na boca. Você, leitor, não sabe o que é um amalgapin? Pesquise! Você vai se surpreender, mas certamente vai achá-los horrorosos. Fui doutrinado a aceitar restaurações metálicas fundidas e próteses com términos cervicais em metal, pois as respostas biológicas destes trabalhos eram espetaculares. Obviamente que o mundo mudou e os materiais hoje são tanto estéticos quanto biocompatíveis. Porém, isto não justifica a mutilação de pacientes na busca de uma estética perfeita que não é natural!

Acredito que precisamos urgentemente fazer uma reflexão sobre o caminho que a nossa profissão está seguindo. Aqui não vai nenhum desabafo de quem está ficando mais velho. Tampouco sou daqueles que acha que no meu tempo de juventude o mundo era melhor. Porém, tenho certeza que estamos exagerando. Os novos produtos e as novas técnicas estão aparecendo cada vez com mais frequência, e isso é extremamente positivo para Odontologia. Entretanto, eles devem ser usados conscientemente e com uma grande dose de bom senso, para que não se voltem contra nós e, em um futuro bem próximo, não sejam estas modernidades os nossos próprios carrascos, nos tornando vilões da boca ao invés de super-heróis.
 

 

“E o Rei Davi caiu em profunda amargura, porque o seu povo falava de apedrejá-lo, pois todos estavam com a alma amargurada, por causa da perda dos seus filhos e das suas filhas; todavia Davi se fortaleceu no Senhor e reconfortou-se no seu Deus.” (1 Samuel 30:6)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 

 

 

           

  • Imprimir
  • Indique a um amigo