Publicado em: 09/08/2019 às 11h59

Quanto vale um tratamento odontológico?

Marco Bianchini analisa tratamento realizado por uma personalidade que virou notícia por conta do alto custo.

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Quanto vale um tratamento odontológico? Para nós, cirurgiões-dentistas, essa é uma pergunta bastante abrangente, pois sabemos que um tratamento odontológico pode englobar várias áreas da Odontologia e, desta forma, fica muito difícil mesurarmos este valor, principalmente se não soubermos exatamente o que o paciente executou. Os valores podem variar de uma simples restauração classe I até uma reabilitação oral com implantes e próteses cerâmicas. Assim, não há como emitirmos uma opinião se um tratamento está fora dos padrões normais sem sabermos exatamente o que foi realizado na boca do paciente.

Dentro deste contexto, na semana passada eu li uma notícia publicada no site O Antagonista, no dia 4 de agosto, que dizia: “A Câmara pagou R$ 93 milhões com assistência médica e odontológica de deputados e servidores de janeiro a junho deste ano, informa o Estadão. Para se ter uma ideia, o valor desembolsado pela Casa durante todo o ano de 2018 foi de R$ 100 milhões. O jornal lembra que todos os deputados têm direito a um plano de saúde e que os R$ 93 milhões foram usados apenas para custos adicionais não cobertos pelo seguro”. Ou seja, suas excelências, além de terem um belo plano de saúde, ainda podem ser reembolsados quando os valores extrapolam o plano.

Achei a notícia um tanto intrigante e os valores bastante exagerados. Resolvi, então, pesquisar mais um pouco sobre esse assunto. Encontrei no mesmo site (O Antagonista, do dia 3 de agosto) mais uma notícia a respeito de tratamentos odontológicos: “A Câmara dos Deputados reembolsou o deputado Marco Feliciano (Podemos – SP) em R$ 157 mil em razão de um tratamento odontológico, relata o Estadão. Ao jornal, Feliciano confirmou o valor e disse que fez o tratamento porque sofria de dores relacionadas ao bruxismo”. O deputado ainda acrescentou: “É um tratamento caro, mas foi para saúde, e não para estética. Foi para poder trabalhar. Como sou empregado, e onde trabalho há esta alternativa, eu precisava do tratamento”, disse. “Não há crime”, completou.

Fazendo uma primeira leitura desses valores, não tive como não os achar estapafúrdios. Comecei a me perguntar que tipo de tratamento para bruxismo poderia custar R$ 157 mil. Veio-me em mente o botox terapêutico, placas miorrelaxantes, ajustes oclusais, etc. Entretanto, tudo ainda estava longe desse valor. Obviamente, pensei comigo, o deputado deve ter feito algum tipo de levantamento da dimensão vertical perdida e acabou necessitando de coroas protéticas, nos dentes posteriores ou até mesmo nos anteriores, que poderiam estar extremamente desgastados (efeito típico de quem tem bruxismo), necessitando corrigir as suas guias de desoclusão. Como gosto bastante do trabalho do deputado Feliciano, fui a fundo na pesquisa e encontrei mais material sobre esta polêmica.

O Jornal O Globo do dia 5 de agosto exibiu uma reportagem mais completa, que explicou melhor o tratamento, principalmente para o pessoal da área odontológica, que começou a entender melhor o que realmente havia ocorrido. Publicou o jornal O Globo: “A justificativa do parlamentar para o pedido, aprovado pela Casa, foi a necessidade de corrigir um problema na articulação da mandíbula e de fixar coroas e implantes. As informações foram publicadas no dia 4 de agosto pelo jornal O Estado de S. Paulo.”

O jornal ainda continuou: “Rejeitado inicialmente pela equipe técnica da área de perícia da Câmara, o pagamento foi aprovado depois de Feliciano recorrer e apresentar um laudo de seu dentista. A primeira avaliação indicava que havia problemas na prescrição dos procedimentos e que o valor do tratamento era incompatível com o preestabelecido pela Casa. Após a reconsideração, sete parlamentares da Mesa Diretora aprovaram o gasto. Feliciano disse que sofria de bruxismo (hábito de ranger os dentes durante o sono, o que traz consequências à saúde), condição que ‘não deseja para ninguém’”. O deputado também argumentou que enquanto político e pregador (ele é líder religioso da Catedral do Avivamento) ele utiliza a boca como "ferramenta".

Para nós, cirurgiões-dentistas, não é novidade os estragos que o bruxismo pode gerar nos pacientes. Assim, não seria tão estranho chegar a esse valor de R$ 157 mil. Afinal de contas, se a reabilitação envolveu a boca toda, os custos realmente seriam grandes, pois englobariam implantes, coroas de porcelana, tratamento de problemas de ATM, etc. Alguns colegas poderiam até considerar o preço ainda alto, mas dependendo do número de coroas e implantes que o paciente em questão realizou, e também de qual terapia foi utilizada no tratamento do bruxismo, talvez os valores chegassem bem próximos ao que foi divulgado pela imprensa. Contudo, o que mais me chama a atenção aqui é a forma que as manchetes são colocadas, induzindo as pessoas a pensarem logo que existe um superfaturamento e que alguém está usando de má fé, principalmente quando você não é da área odontológica.

É indiscutível que os nossos deputados e muitos outros funcionários públicos do alto escalão, principalmente em Brasília, possuem privilégios gigantescos se comparados com os demais cidadãos do Brasil. Basta ver o gasto do nosso Supremo Tribunal Federal com passagens aéreas, inclusive de familiares para o exterior. Também é indiscutível que o deputado Feliciano, apesar de não ter feito nada ilegal, não abriu mão dos seus benefícios, mesmo que estes sejam, no mínimo, exagerados. Talvez eu, se estivesse no lugar dele, também utilizaria o benefício, mas o momento atual que vive o nosso país urge que estes privilégios sejam reduzidos e até mesmo eliminados, pois envergonham toda uma nação.

Por outro lado, as notícias devem ser dadas com isenção e explicadas nos seus mínimos detalhes, para que o leitor – muitas vezes leigo no assunto – não as interprete mal. Usando aqui o caso do deputado Feliciano, quem lê o valor de R$ 157 mil para tratamento de bruxismo não tem como não pensar em alguma irregularidade. Porém, quando se vai a fundo na reportagem, os detalhes vão aparecendo e fica bem claro que o tratamento foi bem mais extenso do que se deixava transparecer nas reportagens. Assim, a nossa imprensa está precisando se reinventar urgentemente.

Não defendo aqui nem políticos inescrupulosos (o que não acho ser o caso do deputado Feliciano) e muito menos privilégios estapafúrdios, mas é bom que as pessoas entendam que um tratamento odontológico (mais especificamente, neste caso, o de bruxismo) pode envolver uma grande reabilitação, necessitando de intervenções em várias áreas da Odontologia. Se isso não ocorrer, nós, cirurgiões-dentistas, seremos colocados no mesmo saco dos corruptos, por estarmos cobrando valores, aparentemente, fora de mercado.

 

“Porque o Senhor DEUS é o meu aliado, por isso jamais ficarei derrotado e confundido; fico de rosto impassível, duro como pedra, porque sei que não vou me sentir um fracassado.” (Isaías 50:7)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 


 

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