Publicado em: 08/11/2019 às 14h45

É possível oferecer tratamento odontológico gratuito?

Marco Bianchini cita trabalho voluntário e reflete sobre a possibilidade de o cirurgião-dentista realizar atendimentos gratuitos em seu consultório.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo

Atender pacientes gratuitamente é uma atividade que muitos colegas conseguem fazer de uma maneira bastante louvável. Em muitas das conversas que eu tenho com amigos cirurgiões-dentistas, eu escuto relatos de inúmeras situações em que esses meus colegas realizam atendimentos sem cobrar em seus consultórios particulares. Seja para um parente ou para um paciente menos abastado, muitos profissionais pelo Brasil afora realizam algum tipo de atendimento gratuito.

Eu, particularmente, tenho uma imensa dificuldade em atender pacientes gratuitamente em meu consultório particular. Talvez isso ocorra porque já exerço, junto com os alunos, este tipo de atividade na UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, onde leciono. Obviamente que na Universidade existe a contrapartida dos pacientes, que se submetem a serem atendidos pelos alunos que ainda estão em uma fase de treinamento. Assim, o termo “gratuito” não é totalmente verdadeiro.

Acredito que essa minha postura, antipática a tratamentos gratuitos, também tem muito a ver com a minha formação, que é avessa aos clientelismos baratos que este país vem sofrendo nas últimas décadas. O brasileiro se acostumou a não pagar por nada e a achar que tudo tem que ser de graça. O problema é que nada é de graça nunca! Sempre alguém está pagando, direta ou indiretamente. É a cultura do “coitadismo”, na qual o Estado deve arcar com tudo, e os ditos “mais ricos” devem pagar aos “mais pobres”. Assim, nós, cirurgiões-dentistas, por sermos “muitos ricos”, temos que atender alguns pacientes gratuitamente, como forma de “pagarmos” pela nossa boa condição socioeconômica, que é bem melhor do que a maioria da população.

Dentro dessa minha “revolta”, esta semana me surpreendi com uma matéria que li nas minhas andanças pela internet, e que me fez repensar sobre esse assunto. Um jovem cirurgião-dentista, Felipe Rossi, de 38 anos, decidiu criar a ONG Por1sorriso, oferecendo tratamento dentário a populações carentes dentro e fora do Brasil. Com uma equipe de 19 pessoas, a ONG Por1sorriso tem trazido não só novos sorrisos, mas também esperança a milhares de pessoas que, de outra forma, não conseguiriam tratar da saúde da sua boca.

Felipe Rossi oferece tratamento a populações carentes dentro e fora do Brasil. (Foto: arquivo pessoal/Instagram)

 

As ações da ONG vão além das fronteiras nacionais, realizadas também em alguns países africanos, como o Quénia e Moçambique. E, apesar do banco de dados da organização conter mais de quatro mil voluntários registrados, na prática, a realidade é diferente. “Existem custos com os quais as pessoas têm que arcar e, com isso, muita gente acaba desistindo de ir à ação. É sempre muito difícil fechar a equipe”, explica Felipe.

A organização opta por fazer a diferença ao oferecer um serviço completo – e não só distribuir escovas e pastas de dentes –, e que passa desde os exames para identificar os problemas de cada paciente até a realização de todos os procedimentos necessários.  A prioridade de atendimento é para as pessoas que estão com dor e que necessitam de dentaduras.

O apoio financeiro para as atividades vem de duas empresas que pertencem a amigos pessoais de Felipe e, mais recentemente, da Colgate. Também é possível fazer doações diretas através do site da instituição, com valores mensais ou avulsos.

Atitudes como essa, sejam de caráter individual ou através de ONGs, são bastante louváveis. Confesso que não pesquisei com afinco para saber qual é a natureza dessa ONG, e nem quem dá suporte a ela. Entretanto, nas referências que encontrei, o trabalho dessa equipe tem sido muito interessante. Hoje em dia, muitas ONGs são apenas fachada para mais roubalheira, o que não parece ser o caso da  ONG Por1sorriso. Temos que entender que a maioria das pessoas do mundo todo não tem acesso a uma Odontologia de qualidade. Isso é um fato e precisa ser mudado!

Ler esta história desse jovem cirurgião-dentista e a sua vontade de fazer dar certo um atendimento odontológico diferenciado, fez-me rever alguns conceitos que eu tinha nesse coração aqui, que muitas vezes se petrifica. O instinto do ser humano de servir aos outros está embutido em nosso DNA. O problema é que sufocamos este sentimento, justificando as nossas escolhas por falhas que podem ocorrer ao longo dos processos da vida. Devemos, sim, procurar ajudar os outros que se encontram em situações menos favorecidas e isso pode ocorrer de várias formas. Pode ser no nosso próprio consultório ou em qualquer outro local. O que importa é devolver o prazer de sorrir aqueles que não conseguem mais.

 

Com informações do site Sábias Palavras

 

“Pois a escritura diz: Não colocarás mordaça no boi que estiver debulhando, e ainda: O trabalhador merece o seu salário.” 1Timóteo 5, 18.

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 
  • Imprimir
  • Indique a um amigo