ImplantNewsPerio 2017 | V2N4 | Páginas: 733-7

Orientações ao cirurgião-dentista no tratamento periodontal de gestantes

Guidance to the dental surgeon in periodontal treatment of pregnant women – literature review

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Autor(es):

Gabriel Caixeta Ferreira1
Rafael de Aguiar Vilela Jr.2

1Graduando em Odontologia – Instituto Nacional de Ensino Superior e Pós-graduação Padre Gervásio (Inapós), Faculdade de Pouso Alegre.
2Mestrando em Implantodontia – Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic; Professor de Periodontia – Instituto Nacional de Ensino Superior e Pós-graduação
Padre Gervásio (Inapós), Faculdade de Pouso Alegre.

Resumo:

A gestação é um período especial na vida da mulher, contudo, devido às alterações biológicas, físicas e hormonais, essas pacientes apresentam-se com maior pré-disposição às doenças bucais, que por sua vez criam situações adversas no ambiente bucal. Portanto, este trabalho visou dispor sobre as alterações ocorridas na cavidade bucal da gestante, assim como medidas e tratamento durante este período. Em condições bucais normais, um indivíduo apresenta inúmeras bactérias patológicas que, quando entram em desequilíbrio com o hospedeiro, podem acarretar diversas doenças, como a doença periodontal. Esta se caracteriza por uma afecção crônica consequente da colonização de bactérias gram-negativas, as quais afetam a região subgengival ocasionando aumento local e sistêmico das prostaglandinas e citocinas, sendo que na gravidez promove alterações no aspecto da gengiva, como hiperemia, sangramento gengival e edema, relacionadas à placa bacteriana, aumento nos níveis hormonais, déficit nutricional e estado transitório de imunodepressão. Devido às várias mudanças físicas e psíquicas ocorridas durante o período da gestação, é de extrema importância que o cirurgião-dentista tenha um conhecimento sobre as principais características de cada trimestre gestacional, assim como sobre as indicações e cuidados a serem tomados durante o período de atendimento que, por sua vez, são importantes para promover um tratamento seguro e com menor risco de efeitos à gestante e ao bebê.

Unitermos:

Doenças periodontais; Doenças da gengiva; Profilaxia dentária; Manifestações bucais.

Abstract:

Pregnancy is a special time for women; however, due to biological, physical, and hormonal changes, these patients are more prone to oral diseases, which in turn creates adverse conditions. The aim of this paper is to discuss the changes seen in the oral cavity as well as its correspondent treatment measures. Under normal conditions, an individual can have several types of pathological bacteria predisposing periodontal disease when the balance between the disease and the host is disturbed. This is characterized as a chronic infection due to gram-negative species at the subgingival area increasing the local and systemic prostaglandin and cytokine levels, which in pregnant women provoke alterations such as hyperemia, gingival bleeding, and edema related to plaque, increasing the hormonal levels, nutritional deficit, and still creating an immunosuppressive transitory state. Considering the physical and psychological conditions related, it is necessary to know the main characteristics at each pregnancy period, as well as the indications and treatment care to promote a safe treatment with a lower risk for future babies and mothers.

Key words:

Periodontal disease; Gum disease; Dental prophylaxis; Oral manifestations.

Introdução

A gestação é um período especial na vida da mulher. Contudo, neste período essas pacientes apresentam maior suscetibilidade às doenças bucais, devido às mudanças biológicas, físicas e hormonais1. As principais modificações bucais relacionadas à gravidez compreendem náuseas, alterações sobre o periodonto, aumento no fluxo salivar e, quando relacionadas aos hábitos de vida, podem levar ao surgimento ou agravamento das doenças no meio bucal2.

A doença periodontal caracteriza-se por uma doença crônica consequente da colonização de bactérias gram-negativas, as quais afetam a região subgengival ocasionando aumento local e sistêmico das prostaglandinas e citocinas. Assim, durante o período gestacional várias alterações podem ser presenciadas, como: aumento nos níveis hormonais, déficit nutricional, estado transitório de imunodepressão, hiperemia, sangramento gengival e edema3.

Também podem ser evidenciadas modificações no metabolismo celular e na microbiota bucal, assim como aumento nos níveis de estrogênio. Tais fatores resultam no aumento do fluido crevicular e edema gengival, os quais promovem a produção de prostaglandinas que, por sua vez, geram processos inflamatórios4.

As dificuldades e os cuidados no tratamento odontológico aumentam durante a gestação, especialmente no primeiro trimestre, devido à possibilidade de não se perceber a gravidez, ocorrendo um tratamento inapropriado e sem planejamento para a gestante. O tratamento durante o segundo semestre seria ideal e seguro, entretanto, nos casos de urgência, o tratamento deve ser realizado em qualquer período da gestação5. Portanto, este artigo visou dispor sobre as alterações ocorridas na cavidade bucal da gestante, assim como medidas e tratamento durante este período.

Revisão da Literatura

Gestante frente ao tratamento odontológico

No período gestacional, o odontólogo deve apresentar um cuidado especial, em que, mesmo buscando tratamentos preventivos quando necessário, deve-se realizar procedimentos curativos devido às complicações relacionadas à cavidade bucal, que podem influenciar tanto a gestante quanto o feto, principalmente quando a nutrição é comprometida e coopera para a infecção e difusão de patógenos no sangue6.

Durante a gravidez, a maioria dos procedimentos pode ser realizada, desde que alguns cuidados sejam tomados: ajustar a posição da cadeira, planejar sessões curtas e evitar consultas matutinas, visto que a probabilidade das gestantes terem ânsia de vômito e risco de hipoglicemia é maior neste período7.

Modificação nos tecidos gengivais e periodontais no período gestacional

As alterações periodontais estão relacionadas com o aumento de estrógeno e da progesterona, os quais deixam o tecido com maior predisposição aos processos inflamatórios8. Outro fator importante é o fluido crevicular que, muitas vezes, apresenta mediadores inflamatórios e patógenos bucais relacionados à doença periodontal. Estes geram tanto dano direto, através de produtos da placa bacteriana, quanto dano indireto, consequente da indução de respostas inflamatórias e imunológicas do hospedeiro, como resposta a infecções bacterianas9.

Considerando as alterações gengivais mais comuns presentes durante a gestação, podem ser citados a gengivite gravídica e o granuloma piogênico10. A gengivite gravídica é clinicamente similar à gengivite provocada pelo biofilme, podendo ser prevenida e desaparecendo alguns meses após o parto, através de uma higienização adequada e profilaxia profissional11.

Já o granuloma piogênico é uma lesão benigna, geralmente manifestada no primeiro trimestre da gestação, podendo ser resultado de traumatismo repetitivo ou de uma irritação local sobre os tecidos gengivais, tendo maior ocorrência na região anterior de maxila. Em casos de interferências na mastigação, dificuldade para higienização ou ulceração, é indicada a remoção cirúrgica da lesão, do contrário, apenas remove-se os irritantes locais e preserva-se o tumor até o pós-parto12.

Radiografias durante a gravidez

Durante a gravidez é possível realizar qualquer tipo de radiografia, desde que os parâmetros de proteção sejam realizados: proteger a região do abdômen através do avental de chumbo, utilizar filme rápido, realizar apenas as radiografias necessárias, empregar curto tempo de exposição e evitar que o ângulo seja direcionado diretamente para o abdômen13.

Anestésicos no período de gestação

Para o uso de anestésicos em gestantes, deve-se priorizar pela anestesia local, não tendo preferência sobre o produto. Contudo, aspectos relacionados à técnica empregada, efeitos citotóxicos, dose da droga administrada, utilização de vasoconstritores e riscos de afetar o feto devem ser levados em consideração. A solução anestésica que proporciona uma segurança maior para a gestante é a lidocaína 2% com adrenalina 1:100.000, com o limite máximo de dois tubetes por sessão14.

Fármacos na gravidez

A prescrição de fármacos durante a gravidez deve apresentar a menor dose terapêutica e o menor intervalo de tempo, pois fatores relacionados à época da gestação, utilidade, intensidade e duração da droga podem gerar efeitos prejudiciais ao feto, principalmente nos três primeiros meses15.

Quando existe a necessidade da prescrição de antibióticos, alguns requisitos devem ser levados em consideração para a escolha correta: magnitude da inflamação, hostilidade do agente etiológico, período gestacional e padrão de sensibilidade aos antibióticos, evitando, sempre que possível, a utilização de fármacos no período da organogênese16. Os antibióticos de escolha para o período gestacional recaem sobre as penicilinas, pois estas agem somente na parede celular bacteriana, sendo atóxicas à gestante e ao feto. Dentre os diversos grupos de penicilinas, as mais indicadas são as biossintéticas, como as fenoximetilpenicilinas, bem como as semissintéticas de largo espectro, como as ampicilinas e as amoxicilinas11.

Em casos de pacientes alérgicas às penicilinas, a indicação recai sobre a eritromicina e as cefalosporinas5. O uso de tetraciclinas é contraindicado em qualquer período da gestação, pois estas atravessam com facilidade a placenta e podem levar à ocorrência de efeitos indesejáveis na formação óssea e dentária do feto, causando malformações no esmalte dentário, alterações na coloração e retardo no crescimento ósseo16. Durante os três últimos meses de gestação, o uso dos anti-inflamatórios não esteroides e do ácido acetilsalicílico deve ser restrito, pois pode levar principalmente à inércia uterina ou fechamento precoce do canal arterial do feto, assim como interferir na agregação placentária2.

Posição da gestante durante o tratamento

Com o intuito de diminuir os riscos durante o terceiro trimestre, a gestante ficar em posição semi-inclinada durante o atendimento odontológico, sendo indicada a mudança de posição frequente ou colocando-se uma cunha debaixo de um de seus quadris para que o útero possa se deslocar7. Quando a gestante se deita de costas, ocorre o risco do útero comprimir a veia cava inferior e impedir o retorno venoso ao coração, consequentemente, podendo levar a uma síndrome da hipotensão supina, que se caracteriza pela circulação sanguínea paravertebral insuficiente ou pelo reflexo vasovagal, decorrente da diminuição do débito cardíaco17.

Resposta ao tratamento periodontal durante a gestação

A maior parte das doenças gengivais no período de gestação pode ser prevenida ou amenizada através da higienização bucal e remoção de cálculo ou placa bacteriana. Mesmo com a diminuição do processo inflamatório durante a gravidez, deve-se, após o término da gestação, remover todo o cálculo e placa residual, assim como os fatores que ocasionam sua retenção18.

É dever de todo profissional conscientizar a gestante sobre as alterações fisiológicas e salientar a necessidade de uma boa higienização bucal para o controle do biofilme dental18, assim como recomendações de uma dieta balanceada, escovação pelo menos duas vezes ao dia com dentifrícios fluoretados, uso do fio dental e consultas frequentes para profilaxia profissional. Agentes antimicrobianos, como a clorexidina e dentifrícios contendo triclosan, são recomendados para a gestante, pois auxiliam no controle da gengivite19.

Efeito do tratamento periodontal durante a gestação

Os pacientes com inflamação periodontal apresentam alterações no perfil microbiano após o tratamento, pois, ao desorganizar os biofilmes supra e subgengival, ocorre diminuição na quantidade total de bactérias, assim como mudança na proporção das espécies existentes e modificação do habitat subgengival, fazendo com que certas espécies relacionadas à saúde periodontal aumentem e as associadas à doença periodontal reduzam20.

Discussão

Diante das mudanças proporcionadas durante o período gestacional, a Odontologia deve abordar um atendimento que promova saúde e segurança à gestante. Isto exige conhecimento e aptidão por parte do cirurgião-dentista, que visam adequar o atendimento diante das mudanças ocorridas e exercer procedimentos importantes para um correto diagnóstico, tratamento e manutenção de saúde da gestante5.

Várias alterações podem ser presenciadas durante o período gestacional, como emocionais, endócrinas e bucais, sendo que inúmeros fatores podem ocasionar as manifestações decorrentes na cavidade oral, destacando-se as mudanças hormonais (aumento nos níveis de estrógenos e progesterona) e a presença de placa bacteriana, provenientes de uma higienização bucal ineficiente, promovendo uma probabilidade maior de se desenvolver doenças periodontais11.

Assim, com o intuito de diminuir esta suscetibilidade, o odontólogo deve ministrar instruções sobre os comportamentos preventivos de higiene bucal, como: utilização de fio dental, dentifrício fluoretado, escovação diária e após as refeições, e remoção da placa bacteriana, bem como acompanhamento periódico em consultório2,11.

Conclusão

Devido às várias mudanças físicas e psíquicas ocorridas durante o período da gestação, é de extrema importância que o cirurgião-dentista tenha um conhecimento sobre as principais características de cada trimestre gestacional, indicações e cuidados a serem tomados durante o período de atendimento, que por sua vez são importantes para promover um tratamento seguro e com menor risco de efeitos à gestante e ao bebê.

Nota de esclarecimento
Nós, os autores deste trabalho, não recebemos apoio financeiro para pesquisa dado por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Nós, ou os membros de nossas famílias, não recebemos honorários de consultoria ou fomos pagos como avaliadores por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não possuímos ações ou investimentos em organizações que também possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Não recebemos honorários de apresentações vindos de organizações que com fins lucrativos possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não estamos empregados pela entidade comercial que patrocinou o estudo e também não possuímos patentes ou royalties, nem trabalhamos como testemunha especializada, ou realizamos atividades para uma entidade com interesse financeiro nesta área.

Endereço para correspondência
Gabriel Caixeta Ferreira
gcaixetaferreira06@hotmail.com

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