ImplantNewsPerio 2018 | V3N4 | Páginas: 731-9

Percepção estética de pacientes e alunos de odontologia em relação às recessões gengivais

Aesthetical perception of patients and dentistry students in relation to gingival recessions

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Autor(es):

Guilherme Dossin Damin1
Giliano Nicolini Verzeletti2

1Graduando do curso de Odontologia – Centro Universitário da Serra Gaúcha.
2Mestre em Periodontia – Universidade Luterana do Brasil (Ulbra); Docente de Periodontia do curso de Odontologia – Centro Universitário da Serra Gaúcha.

Resumo:

Objetivo: avaliar a percepção estética de pacientes e alunos de Odontologia quanto à presença e extensão de recessões gengivais. Material e métodos: neste estudo clínico observacional transversal, 82 indivíduos (41 pacientes e 41 alunos) avaliaram variações de imagens do mesmo sorriso, com diferentes graus de recessão gengival localizada em um ou mais dentes, através de fotografias editadas digitalmente. A imagem original, sem recessões, foi utilizada como controle. A escala analógica visual (VAS) foi utilizada para avaliar a percepção estética. A comparação da percepção estética entre pacientes e alunos de Odontologia foi estabelecida utilizando a análise de variância (Anova) para dois fatores. Resultados: considerando-se os escores obtidos em todas as variações de imagens, houve uma diferença significativa do escore médio da VAS entre os grupos, sendo a maior pontuação no grupo de pacientes (p < 0,009). Houve uma diferença estatisticamente significativa da recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior unilateral em relação à recessão gengival de 3 mm nos incisivos centrais superiores bilaterais (p < 0,05), e em relação àquela sem recessão gengival (p < 0,05). Conclusão: recessões localizadas e extensas ocasionam pior percepção estética.

Unitermos:

Estética dentária; Percepção; Periodontia; Retração gengival.

Abstract:

Objective: to evaluate the esthetic perception of patients and dental students regarding the presence and extension of gingival recessions. Material and methods: in this cross-sectional observational study, 82 individuals (41 patients and 41 students) evaluated variations of the same smile images with different degrees of gingival recession located in one or more teeth through digitally edited photographs. The original image without recessions was used as control. The visual analogue scale (VAS) was used to evaluate the aesthetic perception. The comparison of aesthetic perception among patients and dental students was established using the 2-way Analysis of Variance (Anova). Results: considering the scores obtained in all variations, there was a significant difference in the mean VAS score between groups, being the highest score in the group of patients (p < 0.009). There was a statistically significant difference of 3 mm gingival  recession in the unilateral upper central incisor compared to 3 mm gingival recession in the bilateral upper central incisors (p < 0.05), and in relation to that without gingival recession (p < 0.05). Conclusion: localized, large gingival recessions can worse the esthetic perception.

Key words:

Dental aesthetics; Perception; Periodontics; Gingival retraction.

Introdução

A recessão gengival é definida como uma migração da gengiva marginal em direção ao ápice e seu distanciamento progressivo da junção amelocementária, equivalente à perda de inserção, exibindo a superfície radicular ao meio bucal1-2. Trata-se de uma condição muito prevalente, afetando individualmente, e em algum grau, qualquer sexo e faixa etária, independentemente da qualidade de higiene bucal realizada1,3-6.

Sua etiopatogenia necessita da presença de fatores anatômicos predisponentes, atuando junto a um ou vários fatores desencadeantes5,7. De etiologia multifatorial, entre os principais fatores predisponentes, encontram-se: deiscência e fenestração óssea, biotipo gengival fino, cortical óssea fina e mau posicionamento dentário6. Quanto aos principais fatores desencadeantes, destacam-se: escovação traumatogênica, inflamação tecidual, lesões cervicais não cariosas e prótese fixa mal adaptada5. Como consequência, uma importante parcela destes pacientes pode apresentar regiões antiestéticas, impacção alimentar, dores ao mastigar e/ou sensibilidade ao escovar, dificuldades em controlar e remover o biofilme bacteriano, hiperestesia e, principalmente, predisposição à cárie radicular5-6. As recessões são classificadas segundo a sua extensão, sendo que as classes I e II apresentam ausência de perda óssea e tecidual interproximal, a classe III apresenta perda óssea interproximal coronal à recessão, e a classe IV apresenta perda óssea interproximal severa apical à recessão3,8-9.

As irregularidades mucogengivais compreendem a morfologia, a localização e/ou a quantidade de gengiva, sendo a retração gengival a deformidade mais comumente vista na prática periodontal e observada na população1-3-6. Clinicamente, pode ser localizada em dentes separados, atingindo todas as faces, bem como de forma generalizada, acometendo quase sempre um segmento do arco dentário1,3,5-6,9-10.

A estética é marcada por ser um conceito mutável entre indivíduos, cada um dispondo de uma maneira individual para qualificar algo atraente ou não, até mesmo para conceituar sua própria aparência. Deste modo, a avaliação do que é estético se torna muito imprevisível4,11. Sabe-se que um sorriso harmonioso proporciona um impacto positivo na autoestima, no âmbito profissional e no bem-estar do cidadão3. Neste sentido, a recessão gengival é uma das reclamações dos pacientes que buscam atendimento odontológico, principalmente devido às transformações estéticas que podem acarretar, especialmente em dentes anteriores, e à grande extensão que abrange em certos casos3-5,9.

Em Odontologia, é unânime afirmar que a estética não se enquadra apenas em fatores dentários, como a cor, forma e alinhamento nas arcadas, mas também na presença de um periodonto saudável, com um contorno gengival harmonioso6,10,12. Atualmente, sabe-se que um sorriso impecável é aquele em que os dentes se mostram em uma proporção adequada uns com os outros, com um equilíbrio visível entre os tecidos gengivais e dentários5.

A “estética vermelha” é uma exigência dos pacientes quanto aos resultados do tratamento, especialmente quando modificações tão perceptíveis como a recessão estão presentes6. Dessa forma, a participação dos pacientes nos procedimentos estéticos gengivais se torna muito significativa, exercendo uma voz ativa e elegendo a melhor decisão de tratamento, obtendo assim resultados correspondentes à sua percepção sobre a estética, o que possivelmente difere da concepção de um cirurgião-dentista, sendo este capaz de causar alteração no julgamento, ou não, como sendo uma necessidade a ser resolvida4.

Neste contexto, o presente estudo objetivou avaliar a percepção estética de pacientes e alunos de Odontologia do Centro Universitário da Serra Gaúcha de Caxias do Sul/RS quanto à presença e extensão de recessões gengivais.

Material e Métodos

Este é um estudo transversal observacional realizado na Clínica de Odontologia do Centro Universitário da Serra Gaúcha, de agosto a novembro de 2017. Considerando-se um poder estatístico de 80% e um erro alfa de 5%, o cálculo amostral foi realizado indicando uma composição de 41 alunos e 41 pacientes, totalizando 82 participantes. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário da Serra Gaúcha (CAAE: 70007817.3.0000.5668). Para se tornarem elegíveis, os pacientes participantes deveriam ter idade mínima de 18 anos e estar frequentando a clínica de Odontologia do Centro Universitário da Serra Gaúcha. Já os alunos participantes deveriam estar regularmente matriculados no curso de graduação em Odontologia e ter a disciplina de Periodontia II concluída ou em curso. Os participantes interessados e habilitados assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Adicionalmente, o paciente selecionado para a fotografia recebeu e assinou o termo de consentimento para uso de imagens relacionadas à pesquisa científica.

Um paciente sem recessões gengivais foi selecionado, por conveniência, para obtenção de fotografia digital. A fotografia original foi modificada, utilizando-se o software de edição Adobe Photoshop, obtendo-se as condições apresentadas nas Figuras 1. As imagens foram impressas em folhas individuais, em escala real (1:1), na medida de 13 cm x 18 cm, e mantidas em mesmo padrão de cor e proporção dimensional, além de serem codificadas no verso para posterior análise dos dados. Os participantes avaliaram seis diferentes fotografias do mesmo sorriso apresentando variações de extensão e localização de recessões gengivais nos dentes anterossuperiores, examinadas em uma sequência randomizada e sem possibilidades de comparação entre elas, no sentido de evitar que as alterações fossem evidenciadas. A escala VAS foi utilizada para pontuar a percepção estética, com a extremidade esquerda representando a pior possibilidade estética e a extremidade direita representando a situação estética mais bonita e agradável.

As análises dos dados foram realizadas no software IBM SSPS versão 18, adotando-se um nível de significância de 5%. Inicialmente, foi realizada análise descritiva do escore da escala visual analógica (VAS). A análise de variância para dois fatores, seguida da comparação múltipla de Tukey, quando necessária, foi empregada para as comparações entre os grupos, entre os tipos de recessão gengival e interação (grupo X recessão).

Resultados

A amostra foi constituída por 82 participantes alocados em dois grupos (alunos e pacientes). Houve predomínio de mulheres (56,1%) e a média de idade foi de 34 anos. No grupo de alunos, 53,7% eram do sexo masculino e a média de idade foi de 22 anos. Entre os pacientes, houve uma composição maior de indivíduos do sexo feminino (65,9%), sendo 46 a média de idade.

A Tabela 1 demonstra as medidas descritivas do escore da VAS para cada categoria de recessão gengival, estratificada por grupo, paciente e aluno. Entre os pacientes, a análise descritiva apontou a pontuação média da VAS mais elevada para a fotografia sem recessão gengival (5,23 ± 2,82), sendo os escores médios para as fotografias com recessão gengival de 3 mm nos incisivos centrais superiores bilaterais e recessão gengival de 2 mm no incisivo central superior unilateral com valores muito próximos (5,01 ± 2,72 e 4,81 ± 2,68, respectivamente).

TABELA 1 – MEDIDAS ESTATÍSTICAS PARA A DESCRIÇÃO DA ESCALA VISUAL ANALÓGICA (VAS) EM CADA CATEGORIA DE RECESSÃO GENGIVAL, ESTRATIFICADAS POR GRUPO

Grupo Recessão gengival Média (dp) Mediana (II) Mínimo/ máximo n
Paciente Recessão gengival 2 mm (incisivo central superior unilateral) 48,1 (26,8) 48 (39,0) 4 – 96 41
Sem recessão gengival 52,3 (28,2) 51 (44,5) 6 – 97 41
Recessão gengival 3 mm (canino superior unilateral) 42,0 (26,2) 36 (36,0) 3 – 95 41
Recessão gengival 3 mm (incisivo lateral superior unilateral) 47,1 (27,2) 47 (46,5) 4 – 96 41
Recessão gengival 3 mm (incisivo central superior unilateral) 45,1 (27,9) 41 (42,5) 4 – 96 41
Recessão gengival 3 mm (incisivos centrais superiores bilaterais) 50,1 (27,2) 44 (42,5) 7 – 97 41
Aluno Recessão gengival 2 mm (incisivo central superior unilateral) 39,4 (20,3) 37 (35,0) 2 – 81 41
Sem recessão gengival 51,3 (23,1) 53 (38,0) 3 – 83 41
Recessão gengival 3 mm (canino superior unilateral) 42,2 (21,1) 47 (34,0) 3 – 95 41
Recessão gengival 3 mm (incisivo lateral superior unilateral) 36,8 (21,0) 37 (28,0) 3 – 94 41
Recessão gengival 3 mm (incisivo central superior unilateral) 27,4 (16,0) 28 (27,5) 2 – 65 41
Recessão gengival 3 mm (incisivos centrais superiores bilaterais) 46,2 (23,2) 47 (31,0) 2 – 87 41

dp: desvio-padrão;
II: intervalo interquartil;
n: frequência absoluta.

 

Os escores médios para as fotografias com recessão gengival de 3 mm no incisivo lateral superior unilateral, recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior unilateral e recessão gengival de 3 mm no canino superior unilateral foram os mais baixos (4,71 ± 2,72, 4,51 ± 2,79 e 4,20 ± 2,62, respectivamente). Entre os alunos, a fotografia sem recessão gengival também apontou a pontuação média da VAS mais elevada pela análise descritiva (5,13 ± 2,31). As fotografias apresentando recessão gengival de 3 mm nos incisivos centrais superiores bilaterais e recessão gengival de 3 mm no canino superior unilateral obtiveram a segunda e terceira pontuação média mais elevada da VAS (4,62 ± 2,32 e 4,22 ± 2,11, respectivamente).

A avaliação do escore da VAS entre os alunos sugere que os resultados foram mais homogêneos em relação à avaliação do mesmo escore para os pacientes, uma vez que o desvio-padrão mostrou-se inferior para as medidas no grupo dos alunos, independentemente da tipologia da recessão gengival. Os escores médios para as fotografias com recessão gengival de 2 mm no incisivo central superior unilateral, recessão gengival de 3 mm no incisivo lateral superior unilateral e recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior unilateral foram os mais baixos (3,94 ± 2,03, 3,68 ± 2,10 e 2,74 ± 1,60, respectivamente). Entre os grupos, os escores médios mais aproximados da VAS foram os das fotografias sem recessão gengival e recessão gengival de 3 mm no canino superior unilateral, com o grupo dos pacientes e dos alunos apresentando 5,23 ± 2,82 e 5,13 ± 2,31, respectivamente, para a fotografia sem recessão gengival, e 4,20 ± 2,62 e 4,22 ± 2,11 para a fotografia com recessão gengival de 3 mm no canino superior unilateral.

A Tabela 2 demonstra os resultados gerais (efeitos principais) para o grupo e para a recessão gengival.

Houve uma diferença significativa entre os grupos, sendo o escore médio da VAS maior para o grupo de pacientes (p < 0,009), independentemente do tipo de recessão. Em se tratando das tipologias de recessão gengival, houve uma diferença estatisticamente significativa da recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior unilateral em relação à recessão gengival de 3 mm nos incisivos centrais superiores bilaterais (p < 0,05), e em relação àquela sem recessão gengival (p < 0,05), independentemente do grupo. Para ambas as comparações, o escore médio da VAS para recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior unilateral foi o menor.

A interação (grupo X recessão gengival) não foi estatisticamente significativa, sugerindo que o comportamento da escala visual analógica (escores médios de VAS das recessões gengivais) não difere entre os grupos (paciente e aluno), p > 0,168 (Figura 2).

TABELA 2 – ESCORES MÉDIOS E RESPECTIVO INTERVALO DE CONFIANÇA PARA A ESCALA VISUAL ANALÓGICA (VAS)

Características Média IC 95% Valor-p*
Grupo  
Paciente 47,5 (44,4 | 50,5) 0,009
Aluno 40,6 (37,5 | 43,6)  
Recessão gengival  
Recessão gengival 2 mm (incisivo central superior unilateral) 43,7 (38,5 | 49,0) 0,002
Sem recessão gengival 51,8 (46,6 | 57,1)
Recessão gengival 3 mm (canino superior unilateral) 42,1 (36,8 | 47,4)
Recessão gengival 3 mm (incisivo lateral superior unilateral) 42,0 (36,7 | 47,2)
Recessão gengival 3 mm (incisivo central superior unilateral) 36,3₸€ (31,0 | 41,6)
Recessão gengival 3 mm (incisivos centrais superiores bilaterais) 48,2 (42,9 | 53,4)
Grupo* recessão gengival (interação) - - 0,168

IC 95%: estimativa do intervalo de confiança com 95%;
*: associada estatística de teste F pelo método de análise de variância para dois fatores;
₸: difere de sem recessão gengival, valor-p < 0,05;
€: difere de recessão gengival 3 mm (incisivo central superior bilateral), valor-p < 0,05.

 

Discussão

A recessão gengival é uma alteração mucogengival de grande prevalência em pacientes jovens e adultos. No contexto atual dos anseios estéticos, esta condição é um significativo fator que leva os pacientes aos consultórios odontológicos no sentido de corrigir alterações no contorno gengival, restituindo a estética, a forma e a função gengival13-15.

Dados da epidemiologia evidenciam que a prevalência e a extensão aumentam com a idade e demonstram diferenças consideráveis entre as populações mundiais15.Nos EUA, o defeito tem sido relatado em 78% dos indivíduos de meia-idade, afetando 22% a 53% dos dentes; na Noruega, em 51% da população acima de 18 anos; no Brasil, em quase 99% dos indivíduos com idade superior a 50 anos, sendo que 51,6% destes indivíduos apresentam recessão gengival de ≥ 3 mm de extensão16-17; na Nova Guiné, em 11% a 40% dos adultos; na Finlândia, 68% dos indivíduos apresentaram, afetando 11% dos dentes18.

Atualmente, a estética oral é um dos principais anseios dos pacientes, incentivados pelos modelos estéticos determinados pela sociedade, que requerem sorrisos atraentes e harmoniosos19. A estética é muito subjetiva, sendo difícil estabelecer critérios objetivos para definir o significado de beleza para cada um. Geralmente, os sorrisos são julgados como parte integrante da estética da face, e não como uma característica isolada20. A aparência de um sorriso tem relação direta com a percepção sobre estética facial e atratividade, exercendo uma função importante na expressão e vida cotidiana do indivíduo e, consequentemente, nas interações sociais20-21. Está diretamente relacionada ao aumento da autoestima, elaboração da personalidade, bem-estar pessoal e psicológico do indivíduo19,22. A percepção em relação à aparência dentária diverge entre as populações e entre os indivíduos em uma comunidade. Também, é determinada por alguns fatores, como: cultura, preferências individuais, sexo, idade, educação, status socioeconômico e localização geográfica20-21.

Para o sorriso ser determinante na harmonia da face, seus membros (dentes, lábios e margem gengival) devem apresentar-se simétricos e proporcionais uns com os outros, de modo a serem compatíveis com os padrões estéticos aceitáveis. Um sorriso atrativo engloba os próprios fatores dentários, como cor, forma, tamanho, posição e quantidade de visibilidade dos dentes, alinhamento na arcada, bem como fatores periodontais, como volume e contorno gengival, quantidade de exposição gengival e posição da margem gengival em repouso e sorrindo. Características como o formato e a posição da mucosa alveolar e dos lábios, a presença de espaço do corredor bucal e a coincidência da linha média também são citadas como fatores relacionados a um sorriso atraente19.

Diversos pacientes buscam tratamento e analisam seu desfecho com base na estética obtida17. É de conhecimento que grande parte dos cirurgiões-dentistas compreende a estética dentária com base em suas próprias concepções, e não nas do paciente. Logo, sua opinião pode ser diferente da visão subjetiva do paciente23. Sendo assim, o profissional não pode mais decidir de maneira autoritária o que é melhor para um paciente, devendo estabelecer a melhor decisão de tratamento em conjunto para cada situação, respeitando as necessidades individuais sem deixar-se dominar por ambições pessoais19,23.

Conforme a literatura apresenta, fatores como a posição dos tecidos gengivais, mudanças no formato do periodonto, altura gengival, presença de recessões localizadas ou generalizadas e tecidos gengivais irregulares podem contribuir para a percepção da estética do sorriso18.Desta maneira, a definição destes fatores pelo profissional é fundamental, pois podem influenciar não somente a estética dentária, mas também a harmonia facial e as relações interpessoais de um indivíduo17,20-21. No contexto exposto, a percepção do que é estético ao paciente é muito relevante para dar sequência às decisões de tratamento envolvendo a margem gengival1,4,13.

O presente estudo comparou a percepção estética do sorriso entre estudantes de Odontologia e pacientes. O propósito foi compreender se há diferenças de percepção estética de ambos os grupos em relação à presença e extensão de recessões gengivais. Utilizou-se uma fotografia padrão, com variações somente no nível da margem gengival, visando controlar a influência de outros fatores, como alinhamento, cor e altura dos dentes, e outros possíveis vieses que poderiam afetar os resultados4.

Muitos estudos abordaram o desenvolvimento de padrões para “análise de um sorriso”24-25, a maioria avaliou a estética facial, oral e dentária. A percepção dos leigos com relação à estética do sorriso também é descrita na literatura odontológica25. Diversos estudos avaliaram as fotografias dentofaciais, classificando a atratividade dentária com o uso de escalas específicas. Certamente, a mais descrita e utilizada é a escala visual analógica (VAS)24, que possibilita avaliar a opinião sobre vários aspectos da aparência dentofacial e avaliar preferências estéticas faciais de visualizações fotográficas alternativas do mesmo assunto18. É uma ferramenta utilizada para avaliar resultados, objetivamente e numericamente, que não são tradicionalmente quantificados18. No entanto, apesar da sua facilidade em atingir resultados, possui certas limitações. A VAS pode expressar ideias diferentes para cada participante, e os mesmos usarem certas porções da escala, dispersando suas respostas por ela e ignorando as outras, como as extremidades, independentemente das preferências reais18.

Os desfechos deste estudo foram acessados pela VAS, obtendo-se escores de diferentes situações estéticas gengivais. É um método simples, econômico e rápido para se obter julgamentos de valor, além de produzir resultados reprodutíveis e válidos na avaliação da experiência subjetiva17,23. A situação clínica melhor pontuada para ambos os grupos foi a ausência de recessão gengival, sendo que no grupo de pacientes a média da VAS foi superior nesta condição. A recessão gengival de 3 mm no canino superior obteve a pontuação mais próxima entre os grupos. As situações que obtiveram pontuações mais divergentes entre alunos e pacientes foram as recessões de 2 mm no incisivo central superior, recessão gengival de 3 mm no incisivo lateral superior e recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior. Quando consideradas recessões gengivais de 3 mm nos incisivos centrais, a recessão simétrica foi mais bem pontuada pelo grupo dos pacientes, quando comparado ao grupo dos alunos.

Os escores médios relacionados a nenhuma recessão variou de 5,13 para 5,23 (em uma escala de 0-10). Em outro estudo que também avaliou a percepção estética, foram considerados os escores da VAS entre 0 e 50 como um sorriso não atraente, escores entre 50 e 80 como um sorriso comum ou aceitável, e apenas escores entre 80 e 100 poderiam ser considerados um sorriso bonito ou atraente26. Este resultado é justificado porque outras características do sorriso podem influenciar a percepção estética, como o alinhamento dos dentes22. A influência dos corredores bucais, posição da margem gengival, cor e altura dos dentes também são citadas na literatura como fatores de grande impacto e influência na percepção estética do sorriso individual17,19,22.

A recessão gengival de 3 mm no incisivo lateral superior apresentou pior avaliação, quando comparada com a recessão gengival de 3 mm no canino superior para o grupo dos alunos. Em contraparte, para o grupo de pacientes, a recessão gengival de 3 mm no incisivo lateral apresentou melhor pontuação em comparação à recessão de 3 mm no canino. Segundo a literatura, a justificativa para essa diferença é a possível localização centralizada e anterior dos incisivos laterais, o que aumenta a visibilidade das recessões pelos alunos4,27. Além disso, geralmente, a altura do contorno gengival nos incisivos laterais localiza-se ligeiramente abaixo ou no mesmo nível entre o zênite gengival do incisivo central e o canino4,27. Foi proposto que as alturas gengivais dos incisivos centrais superiores e dos caninos deveriam, idealmente, ser parecidas27. Portanto, as recessões laterais gengivais provavelmente alteram esta localização padrão da altura gengival, criando uma situação desarmoniosa para os avaliadores.

Neste estudo, a fotografia de nenhuma recessão foi a situação com maior pontuação na VAS, indicando a melhor estética pelos grupos. Este resultado está de acordo com um estudo que avaliou a percepção estética de estudantes de Odontologia em relação à estética do sorriso, em cinco casos distintos com posições de margem gengival diferentes. Os escores da VAS desse grupo variaram entre 3,45 e 7,6 pontos, e a melhor pontuação foi para nenhuma recessão28.

A simetria é considerada um aspecto padrão a ser avaliado em relação à estética do sorriso18. No presente estudo, a recessão gengival de 3 mm no incisivo central superior diferiu estatisticamente em relação à recessão gengival de 3 mm nos incisivos centrais superiores, e em relação àquela sem recessão gengival, independentemente do grupo. Neste caso, o uso de fotografias padronizadas pode eliminar possíveis vieses que podem levar a essas diferenças de pontuações, o que permite justificar essa diferença. Um possível esclarecimento para tal fato é que as recessões gengivais bilaterais, apesar da maior área de irregularidade em comparação com as recessões unilaterais, exibem uma característica importante: a simetria. Diversos estudos demonstraram que a simetria facial é um fator considerável que afeta a percepção estética28, isso pode explicar a avaliação discrepante de recessões gengivais unilaterais e bilaterais.

No presente estudo, pôde-se considerar que os alunos são mais críticos quanto à estética do que os pacientes, pois houve uma diferença significativa entre os grupos, sendo o escore médio da VAS maior para o grupo de pacientes, independentemente do tipo de recessão. Já a avaliação do escore da VAS entre os alunos foi a mais homogênea em relação à avaliação do mesmo escore para os pacientes, uma vez que o desvio-padrão se mostrou inferior para as medidas no grupo dos alunos.

Conclusão

Os resultados do estudo demonstram a relevância da avaliação das alterações da posição da margem gengival (recessões gengivais), uma vez que constituem um importante impacto estético, e sua observação deve ser considerada no planejamento do tratamento pelo cirurgião-dentista. Isto pode melhorar a comunicação entre o clínico e o paciente no processo de tomada de decisão, já que os pacientes são os componentes mais importantes a serem julgados em procedimentos estéticos. É necessário ter cautela para oferecer tratamentos que podem não ser considerados necessários por eles.

Os dados obtidos permitem concluir que pacientes e alunos de Odontologia demonstram diferentes percepções sobre a estética do sorriso, considerando-se as variações quanto à localização e extensão das recessões gengivais.

Nota de esclarecimento
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Endereço para correspondência
Giliano Nicolini Verzeletti
Rua Buarque de Macedo, 2.774/101 – Centro
95720-000 – Garibaldi – RS
Tel.: (54) 3462-2018
giliano.verzeletti@fsg.br

Galeria

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