ImplantNewsPerio 2018 | V3N6 | Páginas: 1134-7

Utilização de bifosfonatos na terapia periodontal

Use of biphosphonates in periodontal therapy

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Autor(es):

Gabriel Caixeta Ferreira1
Vanessa Paulino Mizael2
Rafael de Aguiar Vilela Jr.3

1Graduando em Odontologia – Instituto Nacional de Ensino Superior e Pós-graduação Padre Gervásio (Inapós), Faculdade de Pouso Alegre.
2Graduada em Pedagogia – Centro Superior de Ensino e Pesquisa de Machado.
3Mestrando em Implantodontia – Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic; Professor de Periodontia – Instituto Nacional de Ensino Superior e Pós-graduação Padre Gervásio (Inapós), Faculdade de Pouso Alegre.

Resumo:

A doença periodontal, em especial a periodontite, se caracteriza como uma doença imunoinflamatória que promove a perda de osso alveolar (POA). Tal processo de reabsorção ocorre devido à ação de mediadores inflamatórios sobre o processo de osteoclastogênese e, consequentemente, interfere na remodelação óssea. Nesse contexto, muitos estudos são realizados a fim de apresentar novas formas para diminuir ou paralisar os efeitos da doença periodontal sobre as bases ósseas, dessa maneira pode-se destacar os bifosfonatos. Assim, o objetivo desse trabalho foi revisar a literatura sobre a atuação dos bifosfonatos como coadjuvante na terapia periodontal. Os bifosfonatos possuem grande afinidade pela hidroxiapatita que, por sua vez, desempenha um papel importante na inibição da reabsorção e indução no processo de mineralização óssea. Essas propriedades estão sendo estudas para auxiliarem no controle da periodontite, quando muitos autores relatam grande eficiência desses medicamentos na redução ou até mesmo na prevenção da perda de osso alveolar. Desse modo, pôde-se concluir que os bifosfonatos promovem novas possibilidades terapêuticas para o tratamento da periodontite.

Palavras-chave:

Periodontite; Bifosfonatos; Remodelação óssea.

Abstract:

Periodontal disease, especially periodontitis, is characterized by as an immunoinflammatory disease that promotes alveolar bone loss (ABL). This resorption process occurs due to the action of inflammatory mediators on the process of osteoclastogenesis and, consequently, interferes with bone remodeling. In this context, many studies are carried out in order to present new ways to diminish or paralyze the effects of periodontal disease. Thus, the objective of this study was to review the literature on the bisphosphonates as a co-adjuvant in periodontal  therapy. Bisphosphonates have a high affinity for hydroxyapatite which, in turn, plays an important role in the inhibition of reabsorption and induction in the process of bone mineralization. These properties have been studied to help in the control of periodontitis, where many authors report the great effectiveness of these drugs in reducing or even preventing alveolar bone loss. Thus, it can be concluded that bisphosphonates promote new possibilities for the treatment of periodontitis.

Key words:

Periodontitis; Bisphosphonates; Bone remodeling.

Introdução

Os bifosfonatos são fármacos utilizados como potentes inibidores de osteoclastos, pois sua ação acontece durante o processo de reabsorção óssea. Devido à grande afinidade pelos cristais de hidroxiapatita, depositam-se na matriz óssea e são liberados do osso e fagocitados pelos osteoclastos durante a ação dos mesmos1. Consequentemente, ocorre perda da capacidade de reabsorção dos osteoclastos, o que resulta na sua apoptose. Dessa maneira, o processo de neoformação e remodelação óssea sofre uma diminuição significativa quando os bifosfonatos são empregados durante um tratamento2. Estes tipos de fármacos são indicados como primeira escolha nos tratamentos relacionados às doenças que afetam o metabolismo ósseo, tais como osteoporose, doença de Paget, para tumores malignos como a hipercalcemia maligna, o mieloma múltiplo e para casos com metástase óssea (câncer de próstata e mama)3.

A doença periodontal apresenta como principal fator desencadeante o biofilme microbiano que, por sua vez, propicia uma resposta imunoinflamatória do hospedeiro. Quando não tratada, pode promover a destruição das estruturas de sustentação em que os dentes se encontram4. Visto que para desencadear a doença periodontal, mais especificamente a periodontite, existe a necessidade de vários fatores interligados para a destruição dos tecidos periodontais, os bifosfonatos estão sendo estudados como coadjuvante no tratamento da periodontite5. Portanto, este estudo teve como objetivo realizar uma pesquisa bibliográfica sobre a utilização dos bifosfonatos como auxiliares na terapia da doença periodontal.

Material e Métodos

Trata-se de um estudo descritivo e analítico de revisão bibliográfica, realizado por meio de pesquisa em livros e artigos indexados nas bases científicas SciELO, PubMed, Medline e teses da USP entre os anos 2007 e 2017.

Revisão da Literatura

Doença periodontal e remodelação óssea

A doença periodontal pode estar associada a várias condições patológica que, por sua vez, caracterizam-se por um quadro de degeneração e inflamação dos tecidos periodontais. É ocasionada por bactérias presentes no biofilme dental, sendo as mais encontradas na etiologia da doença: Aggregatibacter actinomycetemcomitans, Bacteroides Forsythus e Porphyromonas gingivalis 6. Já a remodelação óssea pode ser caracterizada como um processo de remodelamento ósseo constante, pelo qual os osteoclastos realizam a reabsorção óssea e os osteoblastos promovem a deposição óssea7.

O processo de remodelação óssea acontece através de um equilíbrio entre RANKL (ligante do receptor de ativação do fator nuclear κβ), pelo seu receptor, RANK (receptor de ativação do fator nuclear кB) e osteoprotegerina (OPG). A OPG neutraliza os efeitos do RANKL que, por sua vez, inibe o processo de reabsorção óssea pelo bloqueio da ligação RANK-RANKL8.

Desse modo, em casos de condições patológicas como a periodontite, ocorre um desequilíbrio entre os processos de reabsorção e deposição óssea, o que resulta em perda óssea. Esse fato não acontece apenas pela reabsorção excessiva do osso, mas também é ocasionado pela diminuição na diferenciação e atividade dos osteoclastos9.

Bifosfonatos

Os bifosfonatos são medicamentos que atuam nos osteoclastos que, por sua vez, produz em um efeito inibitório sobre os mesmos. A utilização desse grupo de fármacos tem como objetivo aliviar a dor e prevenir fraturas consequentes das desordens osteolíticas10. Podem ser classificados em dois subgrupos (nitrogenados e não nitrogenados) e apresentam três gerações, conforme o poder antirreabsortivo que o fármaco possui11.

Os bifosfonatos não nitrogenados são aqueles que proporcionam um potencial de ação menor, visto que são metabolizados pelo organismo de maneira acelerada. Os medicamentos que compreendem essa classe são: o clodronato, o etidronato e o tiludronato. Esses fármacos são constituintes da primeira geração, pois suas ligações com os cristais de hidroxiapatita são fracas12. Já os bifosfonatos nitrogenados apresentam maior potencial de ação, quando comparados com os não nitrogenados. O nitrogênio presente na constituição desses medicamentos não é metabolizado e, consequentemente, promove uma atuação por períodos extensos devido ao fato de se aglomerar nos tecidos ósseos. Os medicamentos que integram essa classe são: o alendronato, o pamidronato e o ibandronato, que são da segunda geração; e o zoledronato e o risedronato, que são da terceira geração13.

Discussão

Devido aos bifosfonatos serem medicamentos utilizados no processo de remodelamento ósseo e apresentarem efeitos antirreabsortivos, esta classe farmacológica vem sendo estudada para ser um coadjuvante na terapia periodontal14.

Um dos bifosfonatos mais pesquisados como coadjuvante no tratamento periodontal é o alendronato, visto que apresenta a capacidade de inibir a ação dos osteoclastos e possui afinidade com os tecidos ósseos15. Devido a este fato, alguns autores realizaram um estudo com o gel de alendronato na concentração de 1% como adjunto em procedimentos periodontais não cirúrgicos. Concluiu-se que houve uma diminuição significativa da profundidade de sondagem e ganho de inserção clínica, sendo evidenciada a eficácia dos bifosfonatos tópicos como coadjuvantes na terapia periodontal16.

Em outro estudo pré-clínico in vivo, foram avaliados os efeitos do alendronato tópico como adjunto na raspagem e alisamento radicular (RAR) no tratamento da periodontite em ratos, obtendo-se melhora nos quadros de inflamação e reparação tecidual nos testes com aplicação de alendronato. Assim, os autores chegaram à conclusão de que a associação entre o alendronato e RAR possui efeitos positivos para a tratamento de periodontite17.

Estudos in vivo realizados por diversos outros autores têm comprovado a eficácia do alendronato na terapia periodontal. Outros autores realizaram testes combinando o alendronato e a atorvastatina (ATV) para avaliar seus efeitos profiláticos e terapêuticos no tratamento da periodontite, e obtiveram resultados positivos, nos quais as doses administradas foram capazes de reduzir a POA18. Já outros estudos combinaram o alendronato com a sinvastatina (SIN) e tiveram como resultado a preservação da espessura de osso alveolar e a capacidade de remodelamento ósseo a curto prazo19-20.

Com relação aos estudos clínicos realizados em humanos sobre a utilização de bifosfonatos em tratamentos periodontais não cirúrgicos, na maioria dos estudos foi obtido um aspecto positivo sobre o tratamento da periodontite. Houve redução na profundidade de sondagem, sangramento a sondagem e ganho de inserção nos pacientes submetidos ao tratamento associado entre bifosfonatos e apenas raspagem e alisamento radicular (RAR)11.

Conclusão

Os bifosfonatos são uma classe de medicamentos que apresentam grandes possiblidades de serem utilizados como coadjuvantes no tratamento da periodontite. Visto que para a ocorrência da periodontite crônica é necessária a ação dos osteoclastos e, consequentemente, a reabsorção óssea, os bifosfonatos agem sobre essas células inibindo sua atividade. Essas propriedades são importantes para a melhora no parâmetro clínico de pacientes com periodontite, uma vez que inibe o processo de reabsorção óssea dos mesmos.

Nota de esclarecimento
Nós, os autores deste trabalho, não recebemos apoio financeiro para pesquisa dado por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Nós, ou os membros de nossas famílias, não recebemos honorários de consultoria ou fomos pagos como avaliadores por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não possuímos ações ou investimentos em organizações que também possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Não recebemos honorários de apresentações vindos de organizações que com fins lucrativos possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não estamos empregados pela entidade comercial que patrocinou o estudo e também não possuímos patentes ou royalties , nem trabalhamos como testemunha especializada, ou realizamos atividades para uma entidade com interesse financeiro nesta área.

Endereço para correspondência
Gabriel Caixeta Ferreira
Rua Adilson Custódio, 710 – Colina Santa Bárbara
37550-000 – Pouso Alegre – MG
Tel.: (35) 9808-6874
gcaixetaferreira06@hotmail.com

Referências:

  1. Júnior AACP, Macedo LM, Moreira LIR, Alves JFCS, de Lacerda JCT. Osteonecrose dos maxilares associada ao uso de bifosfonatos. Rev. Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-Fac 2017;17(1):40-5.
  2. Madrid C, Sanz M. What impact do systemically administrated bisphosphonates have on oral implant therapy? A systematic review. Clin Oral Impl Res 2009;20(4):87-95.
  3. Anavi-Lev K, Anavi Y, Chaushu G, Alon DM, Gal G, Kaplan I. Bisphosphonate related osteonecrosis of the jaws: clinico-pathological investigation and histomorphometric analysis. Oral surgery, oral medicine, oral pathology and oral radiology 2013;115(5):660-6.
  4. Ferreira GC, Vilela Jr. RDA. Impacto do controle glicêmico nas manifestações periodontais e implicações na conduta clínica. ImplantNewsPerio 2017;2(2):309-14.
  5. Yamassaka J, de Oliveira PAD, de Oliveira AMSD, Dutra BC, de Abreu FAM. Bifosfonato alendronato na terapêutica periodontal. Braz J Periodontol 2013;23(4):50-5.
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  8. Bartold PM, Cantley MD, Haynes DR. Mechanisms and control of pathologic bone loss in periodontitis. Periodontology 2000 2010;53(1):55-69.
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