ImplantNewsPerio 2019 | V4N4 | Páginas: 670 - 674

Análise clínica retrospectiva de complicações em pacientes edêntulos reabilitados com implantes osseointegrados, com acompanhamento de um a 15 anos

Retrospective clinical analysis of complications with edentulous patients rehabilitated with osseointegrated implants (1 to 15-year follow-up)

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Autor(es):

 

 

Eduardo Jose de Moraes1
Aldir Nascimento Machado2
Nathalia Benevides de Moraes3
Luis Eduardo Benevides de Moraes4
Izabelly Oliveira Machado5

1Especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial – Unigranrio; Mestre em Implantodontia – Unicastelo.

2Mestre e doutor em Clínicas Odontológicas, e professor da Faculdade de Odontologia – UFF.

3Especialista em Implantodontia – Unifeso; Especialista em Prótese Dental – UVA; Mestra em Clínicas Odontológicas – UFF.

4Especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial – OCM; Especialista em Implantodontia – Unifeso.

5Especialista em Implantodontia e mestra em Clínicas Odontológicas – UFF.

Resumo:

Objetivo: analisar o risco potencial de complicações biológicas e mecânicas após o tratamento com implantes em pacientes totalmente desdentados na mandíbula e na maxila. Material e métodos: pacientes de duas clínicas foram avaliados retrospectivamente após tratamento com implantes em mandíbulas e maxilas totalmente desdentadas. Os pacientes foram acompanhados durante um a 15 anos, de acordo com protocolos clínicos de rotina, reabilitados com prótese fixa e removível apoiada por implantes convencionais e zigomáticos. Todos os pacientes foram identificados, registrados em prontuários individuais: idade, data e região de colocação do implante, dimensão do implante, tipo de prótese, natureza do antagonista e tipo de complicação. Resultados: entre janeiro de 1999 a julho de 2013, um total de 1.064 implantes foram colocados em 165 pacientes das clínicas dos autores. Foram colocadas 174 próteses (168 próteses fixas e seis próteses removíveis) e acompanhadas durante o período de um a 15 anos. As complicações observadas foram: peri-implantite, falha do implante, fratura do implante, fratura do parafuso do pilar, fratura da cerâmica, fratura da resina e fraturas de estruturas. Conclusão: os resultados deste estudo sugeriram que implantes em pacientes reabilitados totalmente desdentados apresentaram uma alta taxa de sucesso de 97%. Os resultados demonstraram que as complicações mecânicas são mais frequentes do que as complicações biológicas, e alguns aspectos associados à natureza do antagonista devem ser considerados para o sucesso do tratamento.

Palavras-chave:

Complicações; Análise retrospectiva; Reabilitação oral; Implante dentário.

Abstract:

Objective: to analyze potential risks for biological and mechanical complications after implant treatment in totally edentulous in mandible and maxilla. Material and methods: patients from two clinics were retrospectively evaluated after implant treatment in totally edentulous mandible and maxilla. The patients were followed up for 1 to 15 years, according to routine clinical protocols. The patients were rehabilitated with fixed and removable prosthesis supported by conventional and zygomatic implants. All patients were, identified, individual charts were recorded: age, date of implant placement, region of implant placement, implants dimension, type of prostheses, nature of antagonist and type of complication. Results: January 1999 to July 2013, a total of 1064 implants were placed in 165 patients of authors clinics. One hundred and seventy-four prostheses (168 fixed prostheses and 6 removable prosthesis) were placed and followed up during a period of 1 to 15 years. The complications observed were: perimplantitis, implant failure, implant fracture, abutment screw fracture, ceramic chipping, resin chipping and frameworks fractures. Conclusion: the results of this study suggested that implants in totally edentulous rehabilitated patients presented a high success rate of 97%. The results demonstrated that the mechanical complications are more frequent than the biological complications and some aspects associated to the nature of antagonist must be considered for the success of treatment.

Key words:

Complications; Retrospective analysis; Oral rehabilitation; Dental implants.

Introdução

Numerosos estudos demonstraram resultados bem-sucedidos para a reabilitação de edêntulos totais com implantes osseointegrados1-3. Entretanto, alguns estudos indicam problemas biológicos e mecânicos que podem estar associados ao tipo de prótese e antagonista4. A opção protética para a reposição de elementos dentários perdidos deve ser selecionada baseada em evidências científicas e de acordo com as possibilidades apresentadas pelo paciente5.

A informação disponível na literatura relacionada aos índices de sucesso/sobrevivência e a incidência de complicações técnicas e biológicas dos diferentes desenhos de próteses sobre dentes e implantes têm sido apresentadas em revisões sistemáticas6-7. Estas revisões revelaram que os índices de complicações técnicas foram significantemente mais elevados nas próteses sobre implantes do que sobre dentes naturais8. Outros autores consideram que as complicações mecânicas são mais frequentes nas próteses sobre implantes e que a natureza do antagonista é um importante aspecto que pode gerar complicações nos arcos totalmente edêntulos1,9.

Portanto, o presente estudo consiste em uma análise clínica retrospectiva em que foi avaliado o potencial risco de complicações biológicas e mecânicas em pacientes edêntulos totais de maxila e mandíbula reabilitados com implantes osseointegrados ao longo de 15 anos.

Material e Métodos

Os pacientes totalmente edêntulos das clínicas dos autores foram avaliados retrospectivamente após a reabilitação total da maxila e/ou mandíbula com implantes osseointegrados. Antes da cirurgia, foram realizados exames de imagens com radiografias panorâmicas e tomografias computadorizadas da maxila e mandíbula, para avaliar as condições ósseas de cada paciente. Estes foram reabilitados com próteses fixas e removíveis sobre implantes convencionais e implantes zigomáticos.

Todos os pacientes foram identificados em prontuários individuais, sendo cadastrados os seguintes dados: idade, sexo, data da instalação e região do implante instalado, dimensões do implante, tipo de prótese, natureza do antagonista e tipo de complicação. Foram analisadas as complicações biológicas (perda do implante e peri-implantite) e as complicações mecânicas (fratura do acrílico da prótese, fratura da cerâmica, fratura de parafusos dos componentes, fratura da supraestrutura e fratura de implantes). Os pacientes foram acompanhados por um período de um a 15 anos, seguindo o protocolo de rotina das clínicas.

Os exames de rotina anuais consistiam em: exame clínico, exame radiográfico, remoção da prótese, teste do contratorque10 com o reaperto dos parafusos dos pilares, avaliação dos parafusos e fixação das próteses seguida da recolocação das mesmas. O estudo seguiu um critério de sucesso2. Os critérios de exclusão para os pacientes foram os seguintes:

  1. Pacientes que não estavam aptos a dar informações e consentir o tratamento;
  2. Pacientes que não apresentavam condições de saúde básicas para realizar o procedimento cirúrgico;
  3. Pacientes com doenças sistêmicas que contraindicavam a cirurgia;
  4. Pacientes com diabetes sem controle;
  5. Pacientes tratados com antirreabsortivos ósseos por um longo período;
  6. Pacientes que faziam uso abusivo de álcool e drogas;
  7. Pacientes com problemas de saúde ou psiquiátricos;
  8. Pacientes irradiados.

Resultados

No período de janeiro de 1999 a julho de 2013, 1.064 implantes foram instalados em 165 pacientes (78 homens e 97 mulheres), com uma média de idade de 68 anos (54 a 82 anos), Tabela 1. Foram perdidos 21 implantes (2,3%), incluindo neste grupo dois implantes zigomáticos. Um total de 31 (18%) reabilitações apresentou complicações mecânicas e nove reabilitações (5,4%) apresentaram complicações biológicas nos implantes. As complicações observadas foram: peri-implantite, perda do implante, fratura do implante, fratura do parafuso do pilar, fratura da cerâmica, fratura da resina e fratura da supraestrutura metálica (Tabela 2 e Figuras 1, 2, 3 e 4). Em relação à incidência de complicações e tipo de antagonista, pôde-se observar o seguinte: 16 (9,2%) próteses fixas sobre implantes; 13 (7,5%) dentes naturais; e 2 (1,3%) próteses removíveis. Um total de 22% das complicações ocorreu em próteses sobre implantes zigomáticos (Tabela 3).

TABELA 1 – PACIENTES E REGIÕES

Pacientes Região Tipo de implantes
Homens Mulheres Maxila Mandíbula Implantes convencionais Implantes zigomáticos
N=78 N=87 N=64 N=110 N=1.016 N=48

 

TABELA 2 – TIPO DE COMPLICAÇÕES

Falhas de implante Fratura de revestimento acrílico Fratura de revestimento cerâmico Fratura da estrutura Fratura da estrutura Peri-implantite Fratura do implante
N=25 N=10 N=1 N=4 N=4 N=8 N=3

 

TABELA 3 – TIPO DE PRÓTESE, ANTAGONISTA E NÚMERO DE COMPLICAÇÕES

Tipo de prótese Tipo de antagonista e número de complicações
Prótese removível Prótese fixa Prótese fixa sobre implantes Dentição natural Prótese removível
N=6 N=168 N=17 N=13 N=1
Total de próteses=174 Total de complicações=31

 

Discussão

 

A literatura científica tem comprovado ao longo dos anos a previsibilidade e o sucesso dos implantes, e sua utilização na reabilitação de rebordos edêntulos1-3. Novas técnicas e opções de tratamentos têm sido apresentadas viabilizando e otimizando o tempo das reabilitações com implantes, porém respeitando o conceito da osseointegração. A experiência clínica vivida na rotina diária dos implantodontistas tem corroborado os resultados dos estudos de diversos autores no que concerne ao sucesso e complicações4,6-7.

Neste estudo clínico foi possível observar que os problemas e complicações ocorridos com os pacientes acompanhados confirmam os resultados encontrados por alguns autores4,6,8. Convém ressaltar que existem fatores de risco que devem ser considerados durante o planejamento5. Entretanto, a realidade clínica inerente a cada condição pode dificultar na escolha da melhor opção de tratamento e contribuir para as complicações. Por outro lado, foi possível constatar que os problemas biomecânicos são mais frequentes do que os biológicos e de difícil solução. Em algumas situações, as causas são evidentes, porém, em outras, são condições específicas do paciente que independem do controle do profissional.

Dentro deste contexto, o papel das forças oclusais é decisivo nas complicações mecânicas, tendo em vista que um edêntulo total reabilitado com implantes recupera progressivamente a força da musculatura mastigatória que, associada à natureza do antagonista, pode agravar as tensões sobre o complexo prótese/implante, gerando os problemas biomecânicos observados e apresentados neste estudo. Outros dois aspectos relevantes a serem considerados estão relacionados à propriocepção e o que poderíamos chamar de reeducação postural estomatognática. Segundo estudos11-14, não ocorre a recuperação total da propriocepção na interface osso/implante. Após a instalação da prótese sobre implantes, o paciente simplesmente se adapta de forma instintiva ao processo mastigatório, sem haver uma reeducação mastigatória supervisionada. Portanto, ocorre a associação de fatores que geram tensões sem um controle da dissipação das forças oclusais sobre as próteses sobre implantes.

Uma constatação importante obtida neste trabalho, que confirma resultados apresentados por outros autores4-7, está relacionada aos casos de atrofias severas em pacientes que foram reabilitados com enxertos extraorais e implantes zigomáticos. Esta condição pode ser considerada a mais crítica e com maior risco de complicações biomecânicas. E, embora uma reconstrução óssea previa à reabilitação seja sugerida por alguns autores, dependendo da condição, pode ser de elevada morbidade e não ser suficiente para solucionar o problema.

Conclusão

  1. Os resultados deste estudo demonstraram um índice de sucesso de 97% de sobrevivência dos implantes instalados em pacientes totalmente edêntulos;
  2. As complicações mecânicas foram mais frequentes do que as biológicas;
  3. O índice de complicações foi significativamente maior em pacientes que apresentavam próteses fixas como antagonistas, sendo que nas próteses implantossuportadas as complicações foram maiores do que nas suportadas por dentes naturais;
  4. Aspectos relacionados à natureza do antagonista devem ser considerados para avaliação do sucesso do tratamento em reabilitações totais sobre implantes;
  5. Em síntese, o presente estudo constatou índices de complicações semelhantes aos encontrados na literatura.

Nota de esclarecimento

Nós, os autores deste trabalho, não recebemos apoio financeiro para pesquisa dado por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Nós, ou os membros de nossas famílias, não recebemos honorários de consultoria ou fomos pagos como avaliadores por organizações que possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não possuímos ações ou investimentos em organizações que também possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho. Não recebemos honorários de apresentações vindos de organizações que com fins lucrativos possam ter ganho ou perda com a publicação deste trabalho, não estamos empregados pela entidade comercial que patrocinou o estudo e também não possuímos patentes ou royalties, nem trabalhamos como testemunha especializada, ou realizamos atividades para uma entidade com interesse financeiro nesta área.
Endereço para correspondência
Eduardo Jose de Moraes
Rua Figueiredo Magalhães, 437 – Apto. 701 – Copacabana
22031-011 – Rio de Janeiro – RJ
moraes.edujm@gmail.com

Galeria

Referências:

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