Publicado em: 19/01/2016 às 11h29

Entrevista com Markus Blatz – Olhando para o futuro, sem apego ao passado

Confira o ponto de vista de Blatz sobre as novas tecnologias e a busca por melhores resultados estéticos.

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Markus Blatz construiu uma invejável carreira internacional, com trabalhos importantes nas áreas de Implantodontia, Prótese Dentária, Periodontia e Estética. Entusiasta da aplicação das novas tecnologias na Odontologia, Blatz é um pesquisador versátil e extremamente produtivo.

Obteve seus diplomas de graduação, doutorado e pós-doutorado na Alemanha, pela Universidade de Freiburg, onde também lecionou. Atualmente, ele comanda o departamento de ciências das áreas preventivas e restauradoras da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade da Pensilvânia (UPenn). Possui uma produção acadêmica extensa e consistente em pesquisas com as propriedades das cerâmicas, principalmente no que se refere à adesão e ao design das infraestruturas.

Nesta entrevista exclusiva que marca o lançamento da ImplantNewsPerio, Blatz fala sobre o ensino da Odontologia, o impacto das novas tecnologias, os desafios recentes no campo de pesquisa e a crescente busca por resultados melhores, do ponto de vista estético.

 

ImplantNewsPerio – Fale sobre sua experiência profissional e o grande desafio de ser professor nesta “selva” contemporânea de conhecimento.

Markus Blatz – Eu me graduei e recebi o título de doutor e o certificado de pós-graduação em Prótese pela Universidade de Freiburg, na Alemanha. Por muitos anos, fui professor no departamento de Prótese dirigido pelo Prof. Joerg R. Strub. No ano 2000, eu me juntei ao Prof. Dr. Gerard Chiche, do departamento de Prótese, na Faculdade de Odontologia do Estado da Louisiana, em Nova Orleans, EUA. Depois, fui nomeado chefe do departamento de Odontologia Multidisciplinar e reitor assistente para Pesquisa Clínica nesta mesma faculdade. Desde 2006, sou professor e chefe do departamento de ciências preventivas e restauradoras da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade da Pensilvânia (UPenn), onde fundei o Centro para Cerâmicas CAD/CAM da Medicina Dentária da UPenn. Ainda possuo o título docente na Universidade de Freiburg.

Os tempos realmente mudaram e você está certo: uma abundância de informação e conhecimento está imediatamente disponível em qualquer momento, com um clique do mouse ou no seu smartphone. Assim, nossas incumbências mudaram, de simplesmente passar informação aos alunos, para ensiná-los como decifrar esta “selva” e diferenciar a informação boa da informação ruim. A aplicação de um método científico sólido e uma avaliação crítica da literatura são os elementos fundamentais para isto.

 

ImplantNewsPerio – Como é possível conciliar a pesquisa básica e a atividade clínica, tendo em vista os amplos laboratórios que a Universidade da Pensilvânia dispõe? Ainda, o que pode ser feito no currículo da graduação para aproximar mais os estudantes da sociedade?

MB – Este realmente é um desafio, já que as ciências básicas e a pesquisa clínica parecem divergir em muitas universidades que tendem a se tornar institutos de pesquisa ou instalações para treinamento prático.

Nós despendemos muitos esforços para contrabalancear esta tendência e tentamos combinar a excelência clínica com um envolvimento forte em ciência básica. Na verdade, estamos apenas no processo de um grande esforço em nosso currículo pré-doutorado, em colaboração com a ciência básica e todos os departamentos clínicos, para evitar redundâncias e reforçar a integração da ciência básica em todos os níveis do ensino odontológico. A maioria dos nossos estudantes está envolvida em pesquisa e, além da informação científica obtida nos cursos, todos nós estamos envolvidos com a Odontologia baseada em evidências e revisões sistemáticas da literatura.

 

Evans Building

ImplantNewsPerio – Conte-nos sobre o livro “Evolução”, feito em parceria com o Prof. Iñaki Gamborena. Como surgiu a ideia?

MB – O implante unitário se tornou uma opção de tratamento muito popular na zona estética. Visto por muitos como um procedimento simples, ele pode ser um dos maiores desafios na Odontologia estética para se obter sucesso estético e funcional longitudinal. O sucesso não depende apenas da mimetização perfeita da restauração com a dentição existente, mas também da criação de um tecido mole de suporte que seja harmônico e saudável, uma moldura natural para qualquer restauração. Enquanto a chave para o sucesso está nos detalhes, existe pouca orientação na literatura sobre como auxiliar o clínico na obtenção de resultados duradouros. Assim, o objetivo do nosso livro foi gerar um guia clinicamente orientado e detalhado, para apresentar uma visão atual das técnicas e tecnologias, e introduzir novos conceitos para o sucesso final com base na literatura científica mais recente. Nós ainda tentamos fazer um livro-texto tradicional, mas apresentado de forma inovadora, reconhecendo as preferências de uma leitura orientada visualmente.

Os procedimentos são demonstrados passo a passo, com o texto explicativo muito próximo. Em vez de preenchermos as páginas com revisões narrativas da literatura, procuramos os tópicos principais e apresentamos os achados da nossa revisão em diversas seções de “pesquisa” ao longo do livro, de uma forma mais concisa e relevante. Nosso objetivo foi dar uma visão clara dos conceitos fundamentais da colocação do implante na zona estética, dos protocolos restauradores otimizados e da importância da estética do tecido mole e das técnicas cirúrgicas minimamente invasivas.

 

ImplantNewsPerio – As maneiras de divulgação do conhecimento científico têm mudado bastante (por exemplo, blogs, seminários pela web etc.). Como o profissional deve agir para melhorar as possibilidades de aprendizagem?

MB – Os estudantes de hoje possuem hábitos de leitura muito diferentes, com base nas tecnologias e disponibilidade imediata de conhecimento e informação. Os métodos “passivos” de ensino, como as leituras “tradicionais”, falham em integrar e engajar adequadamente nossos estudantes e público. Novamente, eu sinto que, como educadores, não podemos nos apegar ao passado, mas termos uma abordagem responsável em adaptar os estilos e aprendizado, e integrar as tecnologias. A UPenn está bem engajada em aprendizagem on-line, por exemplo, através do MOOCS (massive open online courses – cursos on-line abertos variados). Em um nível menor, estamos dando muita ênfase aos “conceitos de aprendizagem interativa (blended learning concepts)”, cujo conteúdo disponível on-line é trazido para uma pequena unidade de ensino, onde os estudantes podem se engajar efetivamente.

Nós até desenvolvemos algumas plataformas on-line para jogos, em que os estudantes respondem perguntas como parte do jogo. Um dos grandes aspectos sobre as ferramentas digitais é que podemos monitorar o comportamento do aprendizado e os seus resultados, verificando assim a efetividade. Entretanto, eu não acho que tudo deveria ser feito on-line e, no caso da Odontologia clínica, isso não é possível. Sim, nós estamos usando a realidade virtual e os simuladores hápticos para preparar nossos estudantes e treinar ou aprimorar nossos colegas. Entretanto, em um futuro previsível, a interação entre o cirurgião-dentista, o paciente e o auxiliar só pode ser ensinada pessoalmente. O mesmo é válido para a educação continuada, e eu acredito que a grande tendência para a educação on-line vai criar uma demanda maior para o ensino pessoal demonstrativo.

 

ImplantNewsPerio – Como inspirar as novas gerações nesta miríade tecnológica? Estamos perdendo a batalha para as mídias sociais?

MB – Eu espero que não (risos). É claro, o poder da mídia social pode distorcer a “verdadeira mensagem” e dissolver a evidência científica com técnicas e materiais glamourosos e populares, além das “filosofias” sem base de sustentação. Mesmo assim, é importante que os clínicos e cientistas de todo o mundo, que pensam da mesma forma, se unam e estabeleçam padrões claros para desenvolver a evidência científica e a técnica clínica. Um exemplo disto é a Academia Internacional para Odontologia Adesiva, fundada recentemente. Eu tenho certeza de que este tipo de colaboração internacional, dedicação para ciência e excelência e inovação clínica, auxiliada pelas ferramentas de mídia social, vai inspirar a próxima geração e colocar nossa profissão na direção certa. Precisamos apenas estar no comando disto.

 

ImplantNewsPerio – Qual seria o conhecimento básico a ser incluído na conexão entre as disciplinas de Prótese Dentária/Periodontia/Implantodontia?

MB – Existe um entendimento comum da importância da estética “branca”, mas também da estética “rosa”. Isto requer um entendimento de que uma abordagem minimamente invasiva deveria ser usada em todos estes aspectos: a preservação das estruturas dentárias, osso e dos tecidos moles aumenta o sucesso.

 

ImplantNewsPerio – Revisão aberta de artigos já publicados: quais são as vantagens e desvantagens?

MB – Este é um passo em uma determinada direção. É provável que a publicação “tradicional” e o processo de revisão por pares na literatura sofram mudanças fundamentais, impulsionadas pelo criticismo e os escândalos recentes, especialmente relacionados a alguns novos periódicos "com acesso on-line aberto”. Um processo mais transparente e padronizado, possivelmente incluindo discussões “abertas”, pode ser necessário para limitar os vieses e impedir o comportamento antiético no processo de revisão por pares. Revisões da literatura conduzidas de forma sistemática também são muito úteis na identificação de estudos bem conduzidos após serem publicados, já que tipicamente incluem princípios judiciosos de seleção, diversos avaliadores, critérios de inclusão/exclusão objetivos e uma verificação dos vieses de cada publicação que é analisada.

 

Átrio da Dental Medicine Schatter Center, da Universidade da Pensilvânia.

 

ImplantNewsPerio – Você acha que a “febre dos resultados automáticos esteticamente 100%” ainda pode ser digerida pelos nossos pacientes? Como interpretar isto para as restaurações em zircônia?

MB – É bom saber que tantos profissionais estão lutando pela excelência clínica e pelos melhores resultados possíveis para nossos pacientes. Entretanto, também é fundamental entender o comportamento longitudinal dos materiais usados. Diversos materiais chegam ao mercado muito rápido e com pouca ou sem validação científica. As propriedades estéticas são um fator importante, mas as propriedades físicas e biológicas são fundamentais na manutenção de resultados duradouros. Todos os nossos materiais possuem limitações e estão sujeitos ao desgaste constante e estresse por fadiga na cavidade bucal. Infelizmente, não existe um material que faça tudo: melhores propriedades estéticas tipicamente estão associadas à menor resistência física.

Assim, a seleção do material base na situação e nas necessidades individuais do paciente, enquanto se reconhece as limitações do material, é fundamental para satisfazer esta febre por estética, não apenas nas semanas que se seguem, mas por anos e, seguramente, por décadas.

Nós aprendemos muito sobre a zircônia nos últimos 10-15 anos, em função dos nossos primeiros erros com relação às indicações e sobre o manejo clínico e laboratorial deste material.

Com este conhecimento e, especialmente, quando as propriedades físicas são importantes, como nas restaurações múltiplas e componentes para implantes, a zircônia tem sido o material cerâmico de escolha, apoiada por um grande número de estudos clínicos. Isto é real nos Estados Unidos, onde as restaurações em zircônia monolítica literalmente decolaram e, em um curto período de tempo, ultrapassaram o ritmo de qualquer outro material para coroas.

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