Publicado em: 16/08/2016 às 10h46

A importância na seleção das barreiras de membrana

Guaracilei Maciel Vidigal Júnior explica os critérios essenciais para resultar em ROG.

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Coordenação: Guaracilei Maciel Vidigal Júnior*

Para o funcionamento de uma membrana como barreira para regeneração óssea guiada (ROG), o material precisa respeitar critérios essenciais: impedir que as células do tecido epitelial e conjuntivo interfiram na cicatrização, manter-se íntegro durante o período de cicatrização e ser biocompatível (Silva Junior, 2010). Portanto, as membranas funcionam como filtros de separação e suas propriedades são dependentes da micromorfologia e composição química. Acredita-se que todas as membranas de politetrafl uoretileno (PTFE) são quimicamente inertes. Entretanto, o PTFE, que de fato é biocompatível, somente é obtido na forma de uma massa, e em sua produção não é possível obtê-lo na forma de filmes finos, como são as membranas usadas para ROG. Para isso, são usados aditivos, mais especificamente plastificantes, que nem sempre são biocompatíveis.

Quando a membrana de PTFE não é produzida com um aditivo/ plastificante biocompatível, ocorre um efeito negativo, impedindo a formação óssea. A teórica ausência de geração de subprodutos das membranas não absorvíveis se torna um ponto questionável, uma vez que o plastificante não biocompatível que foi usado na fabricação do polímero ainda pode estar presente na membrana. A tecnologia para produção de aditivos biocompatíveis é controlada por pouquíssimas empresas no mundo. Um aditivo, usado pela indústria não médica como plastificante do PTFE, para produzir filmes ou folhas, é a água régia – obtida pela combinação dos ácidos nítrico e clorídrico, que são substâncias extremamente tóxicas.

Marouf & El-Guindi (2000), em um estudo em coelhos, compararam a eficácia das membranas Gore-Tex (Gore-Tex, WL Gore & Assoc, Flagstaff , Ariz) e TefGen-FD (American Custom Medical Inc., Lubbock, Tex), ambas produzidas com PTFE. A pesquisa foi realizada em três grupos de seis coelhos, nos quais foram realizadas duas perfurações com 7 mm de diâmetro no crânio, sendo uma em cada lado da sutura sagital. Os animais de cada grupo foram sacrificados em diferentes períodos de tempo, com um, dois e quatro meses. Em cada coelho, o defeito do lado esquerdo foi coberto pela membrana TefGen-FD, e o do lado direito foi coberto pela membrana Gore-Tex. Os resultados foram avaliados como: ausência de formação óssea, formação óssea parcial e completa formação óssea. Após um mês, em nenhum defeito coberto pela TefGen-FD ocorreu formação óssea, enquanto que, dos seis defeitos cobertos com a Gore-Tex, três haviam fechado completamente e três fecharam parcialmente. Após dois meses, um coelho apresentou formação óssea parcial no lado coberto pela TefGen-FD e em cinco coelhos não ocorreu formação óssea. Depois de quatro meses, os mesmos resultados se repetiram para a TefGen-FD. Para os defeitos cobertos pela Gore-Tex, após dois meses, em quatro coelhos houve completa formação óssea e em dois coelhos a formação óssea foi parcial; após quatro meses, nos seis coelhos houve completa formação óssea. Sendo ambas as membranas feitas de PTFE, um material biocompatível, a presença de resíduos de um aditivo não biocompatível justificaria plenamente os resultados deste estudo.

No primeiro caso clínico (Figura 1), é possível observar as partículas do biomaterial sem a completa formação de tecido ósseo, após seis meses (Figura 2). No segundo caso clínico, tratado com TefGen-FD (Figura 3), quase não é possível identificar as partículas do biomaterial, devido à completa formação óssea (Figura 4). No experimento realizado em calvária de coelho (Figuras 5 e 6), após o período de três meses, observou-se no lado coberto com uma membrana experimental de PTFE a ausência de formação óssea e necrose da região do cérebro; no lado coberto com a Gore-Tex, houve completa formação óssea e nenhuma alteração no tecido encefálico. Nestes casos, para virar o jogo, é necessário escolher adequadamente o biomaterial.

 

Figura 1 – ROG usando membrana TefGen-FD. Figura 2 – Aspecto do tecido regenerado após seis meses.

 

Figura 3 – ROG usando membrana Gore-Tex. Figura 4 – Aspecto do tecido regenerado após seis meses.

 

Figura 5 – Lado direito coberto com membrana de PTFE desenvolvida em laboratório. Lado esquerdo coberto com membrana Gore-Tex (imagem cedida pelo Dr. Oldemar Ferreira Garcia de Brito). Figura 6 – Aspecto da área após três meses. Observar a área de necrose, no lado direito, protegida com a membrana experimental. No lado esquerdo, coberto com a Gore-Tex, houve completa formação óssea e o tecido cerebral apresenta-se com aspecto normal (imagem cedida pelo Dr. Oldemar Ferreira Garcia de Brito).

 

Referências

Silva Junior LCM. Desenvolvimento de uma membrana odontológica de politetrafl uoretileno (PTFE) [dissertação]. PUC/RJ, 2010.

Marouf HA, El-Guindi HM. Effi cacy of high-density versus semipermeable PTFE membranes in an elderly experimental model. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod 2000;89:164-70.

 


*Guaracilei Maciel Vidigal Júnior

Especialista e mestre em Periodontia – UFRJ; Livre-docente em Periodontia e especialista em Implantodontia – UGF; Doutor em Engenharia de Materiais – Coppe/UFRJ; Pós-doutorando em Periodontia e professor adjunto – Uerj.

 

 

 

 

 

 

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