Publicado em: 14/11/2016 às 13h40

Espaço biológico não é saucerização, mas sim remodelação

Jamil Shibli discute as características das diferentes reações ósseas na formação do espaço biológico.

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Atualmente, existe uma ideia de que conexões do tipo morse apresentam menor perda óssea peri-implantar quando comparadas aos implantes de conexões de hexágono externo e interno. Na verdade, a melhor estabilidade mecânica e, em alguns casos, a presença de uma plataforma protética menor que a base do implante (também chamada de platform switching) associada à conexão morse reduzem esta remodelação óssea.

Outro ponto trata da terminologia relacionada à variação para a perda óssea peri-implantar: perda ou remodelação óssea? Todos os conceitos até aqui citados devem ser cuidadosamente entendidos e avaliados, tanto para uma melhor compreensão do evento biológico relacionado à crista óssea peri-implantar quanto à adaptação dos tecidos moles peri-implantares.

Para tanto, um breve histórico periodontal deve ser considerado: o espaço biológico dental é composto por uma dimensão vertical fisiologicamente estável formada pela junção dentogengival – sulco gengival, epitélio juncional e adesão do tecido conjuntivo.

 

Figuras 1 – Vista de corte longitudinal. A. Implante com conexão interna, cuja junção do pilar com o implante formam o microgap (seta). B. Corte longitudinal de implante cone-morse evidenciando íntimo contato entre implante e pilar (setas).

Figuras 1 – Vista de corte longitudinal. A. Implante com conexão interna, cuja junção do pilar com o implante formam o microgap (seta). B. Corte longitudinal de implante cone-morse evidenciando íntimo contato entre implante e pilar (setas).

 

Figuras 2 – Radiografias periapicais de implantes de hexágono externo no momento da reabertura (A) e 48 meses (B) após a instalação das restaurações implantossuportadas. Note a remodelação óssea (setas) ou como eram definidas a saucerização.
Figuras 2 – Radiografias periapicais de implantes de hexágono externo no momento da reabertura (A) e 48 meses (B) após a instalação das restaurações implantossuportadas. Note a remodelação óssea (setas) ou como eram definidas a saucerização.

 

Figura 3 – Aspecto radiográfico de implante cone-morse após 24 meses de carga oclusal com pouca remodelação óssea. Figura 3 – Aspecto radiográfico de implante cone-morse após 24 meses de carga oclusal com pouca remodelação óssea.

 

Semelhantemente à dentição natural, os implantes dentais apresentam uma estrutura peri-implantar estável muito similar ao espaço biológico descrito no seu homólogo natural. Nos implantes osseointegrados, o espaço biológico é influenciado por inúmeros fatores, dentre eles a macroestrutura do implante e seus tipos de conexões – hexágono externo, interno e cone-morse. Implantes de duas peças apresentam uma fenda entre o implante e o pilar protético – também conhecido pelo termo inglês microgap – que, além de funcionar como reservatório de patógenos periodontais, resulta na presença de um infiltrado inflamatório adjacente à junção pilar-implante (Figuras 1).

Quando osseointegrado, a junção pilar protético-implante é correspondente a do cemento-esmalte da dentição natural. O espaço biológico ao redor é formado por sulco peri-implantar, epitélio juncional e tecido conjuntivo. Embora o mecanismo exato responsável pela remodelação do osso crestal ao redor de implantes de duas peças ainda esteja sendo estudado, fatores como a colonização bacteriana do microgap, micromovimentos do pilar protético ou a interrupção do suprimento sanguíneo, quando implantes e pilares são colocados através da mucosa, são importantes e devem ser considerados.

Nas décadas de 1980 e 1990, a literatura mostrava que os implantes osseointegrados com hexágono externo sofreriam uma perda óssea crestal após a inserção do pilar protético e a instalação da restauração implantossuportada. Albrektsson e colegas (1986) definiram como um dos critérios de sucesso a perda óssea de no máximo 1,5 mm no primeiro ano de função do implante de hexágono externo (Figuras 2 e 3). Embora as razões para a perda precoce da crista óssea, também denominada de saucerização, tenham sido amplamente discutidas nos últimos anos, parece que a formação do espaço biológico está muito mais condizente com este evento fisiológico.

Entretanto, devemos nos atentar para a diferenciação de saucerização, ou seja, uma perda patológica e de remodelação óssea, sendo esta última muito mais relacionada à fi siologia de adaptação dos tecidos peri-implantares na região cervical da prótese. A ideia da formação do espaço biológico ao redor dos implantes osseointegrados está diretamente relacionada à acomodação dos tecidos moles peri-implantares e remodelação óssea presente em todos os tipos de conexões protéticas.

Portanto, a formação do espaço biológico parece muito mais condizente com a remodelação do que com a saucerização. Finalmente, independentemente do tipo de conexão do seu implante, haverá uma remodelação óssea, maior ou menor, ao redor dele. Pense nisso durante seu próximo planejamento cirúrgico-protético.

Jamil A. Shibli

Professor titular do Programa de pós-graduação em Odontologia, áreas de Implantodontia e Periodontia – Universidade Guarulhos (UnG); Livre-docente do Depto. de Cirurgia e Traumatologia BMF e Periodontia – Forp/USP; Doutor, mestre e especialista em Periodontia – FOAr-Unesp.

 

 

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