Publicado em: 27/01/2017 às 12h55

Implantodontia com uma pitada de saudosismo

A realização da primeira edição do Congresso Paulista de Implantodontia Oral completa 35 anos. Entenda como o evento foi importante para a consolidação da especialidade no Brasil.

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Novembro de 1982 - Congresso da Apio - da esq. para a dir.: na fileira de cima estão Ricardo Marino, Haroldo Vieira, Marco Drukier, Aziz Constantino, Vicente Mauro Neto, Regina Gerace, Jorge L. Garcia e um cirurgião-dentista não identificado. A fileira de baixo começa por uma assistente não identificada. Na sequência, Jorge Mitsuo Murakami, Laerte Kradichi, Orlando Meira Cardoso, Roberto Abdala, Constantino Jacob Constantino, Nicanor Furquim, Oscar Sarnachiaro, Angelo Roccella, Rinaldo Rodante e Walter Justolin.



Por Adilson Fuzo

Estamos em 1982. Se você ligar seu rádio estéreo, descobrirá que o topo das paradas musicais está dividido entre “Você não soube me amar”, da Blitz, e “Fuscão Preto”, de Almir Rogério. Se preferir ligar seu novíssimo televisor colorido de 20 polegadas, verá no telejornal que norte-americanos odeiam soviéticos, argentinos odeiam britânicos e brasileiros odeiam o Paolo Rossi.

Este é o cenário em que a velha Implantodontia inicia um ciclo de fortalecimento no Brasil, com o apoio das primeiras entidades, em especial a Apio (Associação Paulista de Implantodontia Oral), em São Paulo. Ao longo da década de 1980, esse grupo amadureceu e se organizou de forma rápida, conduzindo um processo que foi vital para o florescimento da nova Implantodontia no País, a partir da década de 1990, com a popularização da Osseointegração.

A realização do 1º Congresso Paulista de Implantodontia Oral, entre os dias 25 e 27 de novembro de 1982, foi um marco importante nessa história. O evento foi promovido pela extinta Apio e organizado pela VM Comunicação. Foi o primeiro congresso de expressão para esse grupo de profissionais.
 

Hostilidades

“O encontro contou com cerca de 350 participantes em uma época em que a Implantodontia era desconhecida, marginalizada e perseguida. Foi uma verdadeira façanha atrair tanta gente, considerando que a própria Apio tinha pouco mais de 200 associados”, lembra Haroldo Vieira, diretor da VM Comunicação. “Proporcionalmente falando, aqueles 350 participantes representavam muito mais do que os cinco mil profissionais que reunimos hoje em dia em congressos como o IN, por exemplo”.

Depois de 35 anos, Haroldo Vieira e Aziz Constantino permanecem ativos trabalhando no segmento.

Se nos dias de hoje a Implantodontia desfruta de prestígio e pleno apoio da comunidade científica, há 35 anos a situação era bem diferente. Naquela época, os implantodontistas brasileiros desconheciam os princípios da Osseointegração e o trabalho de P-I Brånemark. O formato dos implantes ainda poderia ser justaósseo, laminado, agulhado ou cilíndrico. As pesquisas eram conduzidas de forma empírica e as taxas de sucesso estavam muito abaixo do que se observa hoje. A comunidade acadêmica condenava a terapia com implantes por considerá-la mutiladora e insegura. Pejorativamente, nossa primeira geração de implantodontistas era chamada de “metaleiros” por seus adversários.

“Tornamos-nos uma comunidade aguerrida porque éramos muito perseguidos. Todo meio acadêmico era hostil à técnica, não só no Brasil como no resto do mundo. De certa forma, isso contribuía para que o grupo fosse mais unido”, analisa Aziz Constantino, que atuou como coordenador da comissão acadêmica do congresso. Anos mais tarde, ele se tornaria presidente da Apio e um personagem ativo, ao lado de outros profissionais, no reconhecimento da Implantodontia como especialidade independente no Conselho Federal de Odontologia (CFO).

Constantino Jacob Constantino, falecido em 2009, pai de Aziz, foi uma das importantes lideranças daquele grupo, presidente daquele congresso em 1982. A comissão organizadora do evento contava ainda com outros nomes expressivos, como Nicanor Ubirajara Furquim de Campos e Roberto Abdala. A comissão científica tinha Angelo Luciano Rocella, Orlando Meira Cardoso de Oliveira e Rinaldo Rodante. A comissão de divulgação tinha Laerte Kradichi, Nilton de Bortoli e Jorge Mitsuo Murakami. O presidente do Conselho Federal de Odontologia, Fernando de Souza Lapa, foi homenageado como presidente de honra do evento.

Conforme destaca Aziz, o congresso de 1982 tinha algumas semelhanças com os eventos organizados hoje em dia pela VM Comunicação. Realizado no Augusta Boulevard Hotel, em uma área nobre da capital Paulista, o evento foi lembrado pelas confortáveis instalações, organização da secretaria, atividades sociais e qualidade na programação científica, inclusive com a presença de professores estrangeiros. “Desde o início, a VM Comunicação trouxe para os eventos um padrão de qualidade que não existia antes na Odontologia. Outra marca que permaneceu é a conciliação de várias tendências dentro de um mesmo evento. A organização sempre soube identificar e dar o espaço adequado, de forma democrática, para as diferentes correntes de pensamento dentro da Odontologia”.

 

UM RETRATO DA PRIMEIRA GERAÇÃO
Veja a relação de palestrantes do 1º Congresso Paulista de Implantodontia Oral, realizado em 1982:
Estrangeiros David Serson Lineu Cuffari
Dino Garbaccio (Itália) Eloy Borgo Manoel Ballian
Jorge L. Garcia (Argentina) Francisco Trentini Nicanor U. Furquim de Campos
Oscar Sarnachiaro (Argentina) Glauco Longo Guerrieri Nilton de Bortoli
  João Lopes Amaral Orlando Meira Cardoso de Oliveira
Brasileiros Jorge Mitsuo Murakami Rinaldo Rodante
Amedeo Bobbio José Carlos Curvelo de Oliveira Roberto Abdala
Angelo Luciano Rocella José Eduardo Vassimon Barboza Ronaldo de Carvalho Miguel
Clovis Marzola José Rubens Ceschin Vilson Calazans Rego
Constantino Jacob Constantino Laerte Kradichi Walter Domingos Justolin


 

Abertura do 1º Congresso da Apio - da esq. para a dir.: Ronaldo Carvalho Miguel, Nicolau Tortamano, Francisco Loduca, Fernando de Souza Lapa, Constantino Jacob Constantino, Wilson Calazans, Orlando Meira Cardoso, Glauco Guerrieri e Amedeo Bobbio.



Na marra

Como ainda não existia comercialização oficial de implantes no Brasil, a feira promocional do evento foi bastante reduzida. Ainda assim, cinco empresas marcaram presença na ocasião: Dental Gaúcho, Kavo do Brasil, Quinelato instrumentos cirúrgicos, Kulzer Produtos Odontológicos e Laboratório Merrell Lepetit. Nas edições seguintes do congresso, os expositores começaram a se organizar melhor, no que seria o embrião da forte indústria da Implantodontia brasileira.

“Era uma época romântica, em que os profissionais experimentavam mais e acabavam se arriscando muito com isso. Podemos dizer que a Implantodontia abriu seu caminho na marra. Com a descoberta da Osseointegração, os implantes passaram a ter um crescimento vertiginoso”, analisa Vieira.

Curiosamente, o evento que abriria as portas do mundo para a Osseointegração aconteceria naquele mesmo ano de 1982, no Canadá, com a Conferência de Toronto. No entanto, os brasileiros demoraram mais alguns anos até tomar conhecimento dos achados de P-I Brånemark. Todos esses fatores contribuíram para o boom da especialidade na década seguinte.

“Hoje, podemos ver com clareza que os congressos da Apio tiveram um papel importante para divulgar a prática da Implantodontia no Brasil”, comenta Aziz Constantino, satisfeito. “Foi o impulso que precisávamos para, a partir de 1990, conseguir o reconhecimento da especialidade no CFO.”

 

Da esquerda para a direita: Giordano Moratori, Angelo Luciano Rocella, Constantino Jacob Constantino e Amedeo Bobbio.

 

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