Publicado em: 02/06/2017 às 10h53

Estrôncio, uma promissora substância de reparo ósseo

Na coluna Palavra-chave, Elcio Marcantonio Jr. debate o uso dessa substância, que pode ganhar espaço na Implantodontia e Periodontia.

  • Imprimir
  • Indique a um amigo

Diversas substâncias de origem medicamentosa ou suplementar têm sido utilizadas como coadjuvantes da manutenção ou formação óssea. Essas substâncias podem agir em osteoblastos, induzindo à maior formação óssea (formadores ósseos), ou em osteoclastos, impedindo a atividade reabsortiva (antirreabsortivos).

No entanto, em sua grande maioria, essas substâncias convencionais são indicadas para o tratamento sistêmico de patologias ou enfermidades relacionadas ao tecido ósseo, com diferentes efeitos adversos e que, de modo geral, impossibilitam seu uso coadjuvante para procedimentos cirúrgicos que demandam neoformação óssea. Sendo assim, novas substâncias com grande potencial regenerador surgem como alternativas nas áreas de Periodontia e Implantodontia.

Nessas condições, o estrôncio aparece como um novo agente promissor. Atualmente, ele é empregado no tratamento da osteoporose, osteoartrite e, mais recentemente, tem sido estudado para atuação adjunta a procedimentos odontológicos que demandam reparo ósseo.
 

Potencial reparador ósseo

O estrôncio é um elemento químico não radioativo pertencente ao grupo dos metais alcalinos-terrosos. Está localizado abaixo do cálcio na tabela periódica e possui muitas semelhanças com o mesmo, como absorção, eliminação e afinidade pelos tecidos duros. Devido ao seu mimetismo estrutural ao cálcio, o organismo assimila e incorpora o estrôncio aos tecidos ósseos e dentes.

Diferentemente dos agentes convencionais, os compostos que contêm estrôncio possuem o potencial de agir de forma conjunta nos mecanismos de formação e reabsorção óssea (ainda não totalmente elucidados), tendo um duplo efeito no metabolismo ósseo, resultando em desequilíbrio ósseo a favor da neoformação óssea. Inicialmente, o estrôncio se depositaria sobre cristais de hidroxiapatita e, posteriormente, permutaria com o cálcio, mantendo-se ligado ao tecido ósseo e exercendo suas funções durante todo o seu período de permanência. Esta poderia ser revertida em poucas horas, na medida em que o mesmo não fosse liberado sistemicamente ou localmente (meia-vida de 60 horas), evitando, assim, efeitos colaterais durante anos, como o uso dos bifosfonatos.

Semelhantemente às substâncias medicamentosas, o estrôncio também possui efeitos adversos (principalmente problemas cardiovasculares e falhas renais) que podem ser expressos durante longos períodos de permanência ou em altas concentrações. No entanto, para o uso durante curtos períodos, que correspondem aos tempos de cicatrização óssea, e com doses ideais, o estrôncio não traria efeitos negativos que inviabilizassem sua indicação, e sim uma total indicação a procedimentos que demandam menor tempo cicatricial e/ou maior quantidade de tecido ósseo neoformado.
 

Aplicabilidade

Diversos estudos comprovaram o efeito positivo do estrôncio, diante de tratamentos sistêmicos com níveis aumentados de formação óssea durante processos patológicos ou de cicatrização óssea após procedimentos cirúrgicos maxilofaciais. No entanto, em virtude da possibilidade de efeitos adversos em longo prazo e a não necessidade desta ação sistêmica, a atuação do estrôncio se direciona para uma atividade local, que envolve o revestimento de superfícies em nível micro e nanoestrutural presentes em diferentes substitutos ósseos e implantes osseointegráveis.

Além de sua atividade específica no tecido ósseo, alguns autores também sugerem uma ação direta em fibroblastos, favorecendo o maior reparo no ligamento periodontal. Vale ressaltar que essas atividades só podem ser vistas quando o estrôncio é liberado gradativamente e em doses ideais.


REFERÊNCIAS

• Dahl SG, Allain P, Marie PJ, Mauras Y, Boivin G, Ammann P et al. Incorporation and distribution of strontium in bone. Bone 2001;28(4):446-53.

• Fischer DC, Jensen C, Rahn A et al. Moderate strontium loading induces rickets in rats with mild chronic renal failure. Kidney Blood Press Res 2011;34(6):375-81.

• Lazarovici TS, Yahalom R, Taicher S et al. Bisphosphonate-related osteonecrosis of the jaw associated with dental implants. J Oral Maxillofac Surg 2010;68(4):790-6.

• Marie PJ, Ammann P, Boivin G, Rey C. Mechanisms of action and therapeutic potential of strontium in bone. Calcif Tissue Int 2001;69(3):121-9.

• Marie PJ. Strontium ranelate: new insights into its dual mode of action. Bone 2007;40(5 supl.1):5-8.

• Morohashi T, Sano T, Yamada S. Effects of strontium on calcium metabolism in rats. I. A distinction between the pharmacological and toxic doses. Jpn J Pharmacol 1994;64(3):155-62.

• Reginster JY, Beaudart C, Neuprez A, Bruyère O. Srontium ranelate in the treatment of knee osteoarthritis: new insights and emerging clinical evidence. Ther Adv Musculoskelet Dis 2013;5(5):268-76.

• Reginster JY, Seeman E, De Vernejoul MC et al. Strontium ranelate reduces the risk of nonvertebral fractures in postmenopausal women with osteoporosis: treatment of peripheral osteoporosis (TROPOS) study. J Clin Endocrinol Metab 2005;90(5):2816-22.

• Reid IR. Efficacy, effectiveness and side effects of medications used to prevent fractures. J Intern Med 2015;277(6):690-706.

• Scardueli CR, Bizelli-Silveira C, Marcantonio RAC et al. Systemic strontium to the osseointegration of titanium implants in animals: systematic review of the literature. J Oral Implantol 2017.

• Scardueli CR, Spin-Neto R, Arcaro CA et al. Toxicity assessment of non-radioactive strontium systemic supplementation. J Oral Med Toxicol 2017.

• Vestergaard P. Occurrence of gastrointestinal cancer in users of bisphosphonates and other antiresorptive drugs against osteoporosis. Calcif Tissue Int 2011;89(6):434-41.

• Wu Y, Adeeb SM, Duke MJ et al. Compositional and material properties of rat bone after bisphosphonate and/or Strontium ranelate drug treatment. J Pharm Pharm Sci 2013;16(1):52-64.

• Zhao S, Wang X, Li N et al. Effects of strontium ranelate on bone formation in the mid-palatal suture after rapid maxillary expansion. Drug Des Devel Ther 2015;9:2725-34.

 

Elcio Marcantonio Junior

Professor titular das disciplinas de Periodontia e Implantodontia, e coordenador do curso de especialização em Implantodontia – FOAr/Unesp; Professor colaborador do Ilapeo.

 

 

 

 

 

Colaboração:

Cassio Rocha Scardueli

Mestre em Periodontia e doutorando em Implantodontia – FOAr/Unesp.

 

 

 

 

 

 

 

  • Imprimir
  • Indique a um amigo