Publicado em: 02/06/2017 às 10h55

Manutenção das restaurações implantossuportadas: existe certo ou errado?

Jamil Shibli discute o protocolo de manutenção peri-implantar.

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A peri-implantite e a perda dos implantes osseointegrados são problemas traumáticos presentes na vida do implantodontista. Embora muito tenha sido discutido e estudado sobre etiologia e tratamento, ainda hoje são várias as dúvidas que assombram o clínico. Dentre elas, uma repercutiu muito durante o último Congresso da Sociedade Brasileira de Periodontologia (Cobrape), realizado em São Paulo (SP) entre os dias 19 e 22 de abril: o protocolo de manutenção peri-implantar. Na Periodontia, a terapia periodontal de suporte é fundamental para a proservação longitudinal do tratamento e, consequentemente, a retenção dental destes pacientes.
 
As visitas de manutenção periodontal são determinadas conforme a severidade da doença periodontal e o compliance (grau de adesão do indivíduo ao tratamento) do paciente. Na Implantodontia, por incrível que pareça, mesmo após quase 50 anos de osseointegração, não há um modelo ou protocolo consolidado para a manutenção peri-implantar. Fatores como o tempo de retorno dos pacientes com as restaurações implantossuportadas, remoção das mesmas, substituição dos parafusos de retenção da prótese e até mesmo o tipo de escova e dentifrício nem sequer são sugeridos ou avaliados em alguns protocolos.
 
Entretanto, não é porque ainda faltam modelos de manutenção peri-implantar que os clínicos não os executam. O problema é que até o momento não existe um consenso sobre quando, como e por que realizar esta manutenção, e quais seriam os fatores que norteariam esta decisão clínica. Muito do que se tem realizado hoje se baseia nos atuais protocolos periodontais de procedimentos de manutenção. Portanto, poderíamos tentar traçar um esquema e/ou protocolo de implementação de manutenção peri-implantar de nossos pacientes.
 
Inicialmente, o estado geral do paciente e o tipo de restauração implantossuportada poderiam ser considerados os pilares da terapia de manutenção peri-implantar. Indivíduos diabéticos, fumantes ou portadores de deficiências físicas (Parkinson, artrite e Alzheimer), certamente, necessitam de curtos intervalos de tempo. Aliás, os intervalos podem variar entre três e seis meses, conforme o grau de instrução de higiene oral adquirido pelo indivíduo. Restaurações implantossuportadas do tipo prótese protocolo ou fixas extensas requerem maior controle mecânico e, certamente, maior atenção do profissional e do próprio paciente para as técnicas de higienização. Próteses extensas requerem escovas interdentais, passa-fio, escovas de tipo tufo único e instrumentos de limpeza com jatos d'água, além de ameias que permitam o acesso destes meios mecânicos de higienização.
 
Outro ponto importante, no caso das próteses fixas, seria sua remoção para polimento e eliminação de eventuais cálculos que tenham aderido. Próteses cimentadas estariam fora deste procedimento, sugerindo que os modelos retidos por parafusos seriam preferíveis nestes casos. Ainda em relação às próteses implantossuportadas, durante a remoção dos parafusos – sejam de retenção das próteses ao pilar ou para reter a restauração diretamente ao implante – sugere-se que também devam ser substituídos por novos, para facilitar o torqueamento e evitar a soltura da prótese.
 
De posse destas informações, deverá ser montado um tipo de checklist baseado na soma aritmética simples da quantidade de fatores listados até o momento: quanto maior o número de fatores, menor deverá ser o intervalo das manutenções deste paciente. Ainda, deve-se considerar que o paciente precisa ser informado destas medidas, preferencialmente durante o planejamento cirúrgico/protético, para que ele perceba e compreenda a importância da integração dos fatores relacionados à longevidade e ao sucesso do tratamento. Parece fácil sugerir esta manutenção peri-implantar, mas lembre-se de que essa é apenas uma sugestão e que ainda não chegamos a um senso comum, mas a um bom senso.
 
Figura 1 A – Aspecto dos implantes após remoção das próteses tipo protocolo superior e inferior.

 

Figura 1 B – Aspecto de restauração implantossuportada do tipo PF 1 de Misch de quatro elementos. Note que em ambos os casos há um aspecto clínico de saúde tecidual sem acúmulo de biofilme dental.

 

Figura 2 – Restauração implantossuportada tipo PF 4 (dentes e gengiva) sendo higienizada com fio dental, com o auxílio de passa-fio. Note que existe uma área extensa para essa higiene, ao mesmo tempo em que existe uma área de retenção de resíduos alimentares e biofilme bacteriano. A cooperação do paciente nestes casos, como em qualquer outro, é fundamental.

 

Figura 3 – Após a remoção da prótese tipo protocolo em paciente com pouco ou irregular condição de cooperação. Remoção do implante e aspecto de acúmulo de cálculo e perda óssea horizontal, resultando em peri-implantite e perda do implante.

 


 

Jamil A. Shibli

Professor titular do Programa de pós-graduação em Odontologia, áreas de Implantodontia e Periodontia – Universidade Guarulhos (UnG); Livre-docente do Depto. de Cirurgia e Traumatologia BMF e Periodontia – Forp/USP; Doutor, mestre e especialista em Periodontia – FOAr-Unesp.

 

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