Publicado em: 02/06/2017 às 11h10

Entrevista: Andrea Mombelli e a Periodontia de alto nível

Periodontista suíço foi entrevistado por Jamil Shibli e detalha causas e tratamentos da peri-implantite.

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Jamil Awad Shibli entrevistou o suíço Andrea Mombelli. (Fotos: Jaime Oide)


 

Colaboração: Jamil Awad Shibli

O suíço Andrea Mombelli possui uma vasta experiência na área da Periodontia. Publicou inúmeros trabalhos de pesquisa sobre aspectos clínicos e microbiológicos das doenças periodontais e infecções peri-implantares, tornando-se um dos principais nomes da especialidade no mundo.

Em visita ao Brasil e a convite da revista ImplantNewsPerio, Mombelli foi entrevistado por Jamil Awad Shibli, um dos maiores expoentes da nova geração de periodontistas brasileiros. O suíço trouxe sua experiência como professor e diretor da divisão de Periodontia e Fisiopatologia Oral da Faculdade de Medicina Dental da Universidade de Genebra (Suíça), ao passo que Shibli expôs a realidade brasileira e sua expertise como professor titular do programa de pós-graduação em Odontologia (áreas de Implantodontia e Periodontia) da Universidade Guarulhos.
 
Jamil Awad Shibli – Qual a sua percepção sobre as causas e os tratamentos da peri-implantite?
Andrea Mombelli – Sabemos que a peri-implantite deve ser levada a sério, e é importante entender todos os fatores de risco e contribuintes. Conhecemos muitos, como tabagismo e má higiene oral, mas existem aqueles que ainda precisam ser pesquisados. Uma questão é o impacto do material do implante (reação de corpo estranho), e é preciso realizar uma pesquisa adequada antes de fazer afirmações prematuras sobre uma coisa ser melhor do que outra. Acho que as complicações biológicas são consequência de uma infecção bacteriana, e o biofilme é o principal corpo estranho. Agora, isso não signifi ca que não podem existir razões não bacterianas para uma lesão aparecer. Há diversos fatores que podem acontecer antes, talvez até uma reação de corpo estranho, quando há excesso de cimento. Acredito que tudo seja possível. No entanto, uma vez que há pus e uma vez que há infecção, temos a certeza de que é bacteriano e, se o biofi lme não for removido, a cura não é possível. Sabemos que com agentes antimicrobianos podemos ter alguns efeitos benéficos, mas, se não removermos a causa inicial, ela vai voltar ou vai permanecer.
 
Shibli – Uma vez você esteve aqui no Brasil, durante o International Association for Dental Research (IADR), em Foz do Iguaçu (PR), e disse que não costuma usar implantes longos (de 15 mm e 16 mm) porque seria mais fácil retirará-los, se fosse necessário. Isso acontece?
Mombelli – Sim, os implantes não precisam ser muito longos. Hoje, existem várias evidências mostrando que implantes curtos funcionam tão bem quanto os longos – dentro de certas limitações, obviamente. Mas, implantes longos ou superlongos não significam vantagem, só aumentam o potencial de complicações e de danos quando colocados. Além disso, o que eu quis dizer em Foz do Iguaçu é que, se temos peri-implantite e 6 mm ou 7 mm de osso foi perdido, um implante mais curto é mais fácil de ser removido e não piora o problema. No entanto, se o mesmo problema acontece com um implante de quase 2 cm de comprimento, ocorrem mais danos na remoção.
 
Shibli – Por que ninguém fala hoje sobre remoção do implante? Às vezes, é mais fácil, mais previsível retirar e colocar outro no lugar, além de ser mais barato do que tratar. Mas, sinto que não podemos falar sobre isso abertamente.
Mombelli – Existem vários fatores importantes a serem considerados. Primeira pergunta: é uma superestrutura complexa ou não? Se for a substituição de um único dente, torna-se mais fácil a remoção. Depois, temos a questão estética e temporária, e quão fácil é para remover. Se você retirar o implante, quanto de osso você precisará para colocar outro? Quanto tempo você deve esperar até o osso estar formado? Todas essas questões são independentes da lesão. Trata-se do planejamento estratégico do que é melhor para o paciente. Nossa estratégia, obviamente, sempre será evitar que a lesão peri-implantar torne-se muito grave. Podemos interceptar tudo isso relativamente cedo, então, realizar esses tratamentos é também um bom custo-benefício.
 
Se você não precisa fazer algo com a superestrutura, basta realizar uma pequena incisão, abrir, limpar – às vezes, nem precisa de substitutos ósseos –, tratar a infecção, fechar novamente e dar antibióticos (quando necessário). Isso é relativamente bom em termos de custo-benefício. Porém, existem outros casos que apresentam problemas quando os implantes são colocados: talvez a posição do implante não fosse boa, talvez o implante estivesse muito perto de um dente, talvez existissem muitos implantes. Há ainda aquelas pessoas que pensam que você tem que substituir todos os dentes por implantes, o que é totalmente errado. É muito melhor ter menos implantes porque ao aparecer uma infecção ela é localizada. Quando há mais de um implante, ela pode se espalhar e prejudicar os outros. Então, o que às vezes fazemos quando existe uma infecção peri-implantar é a remoção do implante contaminado, depois tratamos o resto.
 
Porém, se o problema começar assim que os implantes são colocados – por exemplo, não estão na posição correta, estão muito próximos de um dente ou muito próximos uns dos outros e não podem ser limpos, ou estão muito para fora e a superfície rugosa fica exposta –, é claro que os antibióticos não vão resolver. Nesses casos, o melhor é retirá-lo e começar do zero.
 
Shibli – Por fim, qual a sua impressão sobre a Odontologia e a Implantodontia brasileira?
Mombelli – Estou realmente impressionado com o interesse pela ciência clínica e com a produção científica do Brasil. Claro que há, como em qualquer país, diferenças de um lugar para outro, mas tenho a impressão de que é uma comunidade odontológica muito ativa e de pesquisa clínica muito ativa. Eu gosto dessa atitude de querer saber e de querer melhorar. Logicamente, se você estiver em algum lugar como em uma pequena vila, os problemas são diferentes dos que surgem quando você está na universidade, e isso acontece na Europa, no Brasil e em qualquer lugar do mundo. No meu caso, tenho amigos no Brasil e é um prazer vir para cá e palestrar. Sinto que partilhamos de uma filosofia em comum: a terapia baseada em evidências, ou seja, abordar as doenças com base em evidências. Talvez não seja a mesma coisa em todos os lugares do país, mas é para as pessoas que conheço e por isso temos interesses em comum. Essa abordagem me faz gostar muito daqui.
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