Publicado em: 14/08/2017 às 16h29

Por que mudar se está dando certo?

O desenvolvimento tecnológico e o acesso à informação inundam a Odontologia de novas ideias. Os profissionais devem acompanhar a evolução.

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(Imagem: Shutterstock).

 

Por Ricardo de Souza Magini
Professor titular – UFSC.
 
Temos que mudar simplesmente porque o ontem não é igual ao hoje, que será distinto do amanhã. Contudo, não é fácil mudar. A mudança nos retira da zona de conforto, o que pode ser doloroso e, consequentemente, gerar insegurança e ansiedade. O indivíduo de sucesso observa o incógnito como uma oportunidade de inovação, motivado pela curiosidade e pela certeza da impreterível conversão. O coach corporativo Roberto Recinella foi preciso ao escrever que: “A mudança faz parte da vida, e somente os mortos, os ignorantes e os teimosos não mudam. São as mudanças que provocam a evolução”.
 
Atualmente, o desenvolvimento tecnológico e o acesso à informação nos inundam de novas ideias que poderão se transformar em inovação. Neste contexto, a Implantodontia não permanece incólume e necessita de inovações. Alguns clínicos são refratários às mudanças de conceitos e declamam um mantra: “Por que eu vou mudar se está dando certo?”.
 
Qual é a sua atitude frente a um sistema que permite a customização do intermediário protético; que possua cone-morse friccional; que apresente implante com geometria híbrida passível de ser utilizada em todas as densidades ósseas; que possibilite o arbítrio da fresagem única ou escalonada; que tenha um tapa de cobertura de silicone de uso médico irrestrito; e que utilize cicatrizador e transferente multifuncionais de PEEK?
 
Talvez, a reação seja o preconceito: juízo pré-concebido baseado no desconhecido, isto é, sem exame crítico. Confesso, constrangido, que este foi meu comportamento. Fiz algumas inquisições iniciais: a customização irá fragilizar o intermediário protético? A fresagem única aumentará o calor friccional? O cone-morse friccional é estável? Em resumo, por que eu tenho que mudar?
 
A minha ignorância sobre o fenômeno do “encruamento” era absoluta. Ele promove o endurecimento por deformação plástica, pela modificação da estrutura cristalina (aproximação dos cristais) que levará ao aumento da resistência do metal. A customização (inclinação) do intermediário protético dentro dos parâmetros utilizados (0° a 20°) aumentará sua resistência, e ensaios mecânicos corroboraram com esta afirmação.
 
Com a resposta ao meu preconceito, seria caturrice não observar os benefícios desta customização no planejamento das reabilitações implantossuportadas. Em continuidade, eu acreditava no dogma (que por definição é de caráter indiscutível) da necessidade de fresagem escalonada para minimizar o calor friccional gerado. Sabe-se que a extensão da zona de necrose, promovida pelo calor friccional, é determinante para a obtenção da osseointegração, e existe uma relação inversamente proporcional. Todavia, esqueci o princípio fundamental da ciência: o questionamento. Mas, minha miopia foi curada pela Engenharia de Materiais da Universidade Federal de Santa Catarina, que evidenciou o inverossímil como verossímil e factível. A fresagem única com as fresas portadoras de características peculiares não incrementou o calor friccional. Entretanto, o livre arbítrio foi respeitado, pois o usuário do sistema pode escolher peça única ou escalonada.
 
E o cone-morse friccional versus conexão cônica com parafuso passante? Esta última, paradoxalmente, vai de encontro ao conceito advogado em 1864 por Stephen Ambrose Morse, no qual asseverou o princípio mecânico da conexão cônica, com um cone (macho) justaposto no interior de uma cavidade cônica (fêmea) de pequeno ângulo (aproximadamente 3°). A justaposição promovida pelo imbricamento mecânico da fricção (solda fria) promove uma união estável do sistema, sem a utilização de parafuso passante.
 
Resumidamente, o mercado disponibiliza conexões cônicas (com angulações diferentes da preconizada por Morse e utilização de parafusos passantes) e conexões morses verdadeiras. O aumento da estabilidade e o efeito antirrotacional nas conexões cônicas são decorrentes da maior área de contato entre o intermediário protético e o implante. A conexão cônica promove um contato íntimo (atrito) entre o intermediário protético e o implante. O parafuso passante não é o principal responsável pela fixação e estabilidade do sistema. Logo, nas conexões cônicas são observadas taxas menores de afrouxamento ou fratura do parafuso passante (em comparação com as hexagonais). Contudo, o mesmo ainda é passível de afrouxamento ou fratura (principalmente nos intermediários angulados). As incidências destes problemas são diretamente proporcionais às divergências com a pequena angulação proposta por Morse (aproximadamente 3°).
 
O problema maior é a remoção dos fragmentos do parafuso fraturado, no interior do implante, e a literatura descreve diversos métodos para esta finalidade. A fadiga ocasionada pelas forças mastigatórias pode ser a responsável pelo afrouxamento ou fratura do parafuso passante.
 
Em contraste, na conexão friccional do cone-morse (sem o parafuso passante), as forças mastigatórias (função) ativam e asseguram a estabilidade do intermediário protético. A força de união entre os componentes do sistema é proporcional à força de inserção.
 
Na conexão friccional, a função promove aumento da retenção do sistema.
 
Minhas convicções foram alteradas, pois as evidências eram incontestáveis. As vantagens notórias inerentes do sistema, a geometria do implante, o tapa de cobertura de silicone, o cicatrizador e o transferente multifuncionais de PEEK vão ao encontro da versatilidade e simplicidade.
 
A geometria do implante do sistema é absolutamente contemporânea, com característica híbrida, formato cilíndrico com ápice cônico, frisos laterais helicoidais diametralmente opostos com face cortante, roscas trapezoidais progressivas, câmaras de cicatrização, porção apical esférica não cortante e, abaixo da zona do encaixe do intermediário protético, tem paredes paralelas e roscas menos profundas. Em síntese, o implante possui facilidade de inserção, geometria favorável às estabilidades primária e secundária, e é passível de ser utilizado em todas as densidades ósseas. 
 
O tapa de cobertura friccional de silicone biocompatível (expande no interior do cone) permite seu corte com lâmina de bisturi na altura desejada, diminuindo a probabilidade de exposição.
 
O cicatrizador multifuncional de PEEK (polímero biocompatível) é facilmente personalizável, proporciona a cicatrização da mucosa peri-implantar e pode ser um componente protético provisório (permite aplicação direta de resina). O transferente multifuncional de PEEK exerce a função de transferente, protetor de pilar e cilindro provisório. Logo, ambos expressam a filosofia fundamental do sistema: versatilidade e simplicidade.
 
Como mencionei, a Implantodontia carece de inovações. Também apresentei novas ideias exploradas com sucesso. Então, por que mudar? Porque mudar é preciso.
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