Publicado em: 14/08/2017 às 16h30

Em entrevista, Eric Van Dooren debate a aplicação da tecnologia na Odontologia

O belga é reconhecido como um dos melhores especialistas europeus que combinam Periodontia, Implantodontia e Prótese.

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Samy Tunchel e Eric Van Dooren conversam sobre o futuro da Implantodontia. (Foto: Jaime Oide)


Colaboração: Samy Tunchel


Assumidamente um grande fã do Brasil, o belga Eric Van Dooren acredita no potencial da Odontologia nacional e já percebe as mudanças no perfil dos profissionais brasileiros. Com mais de 30 anos de carreira, Van Dooren é reconhecido como um dos melhores especialistas europeus que combinam Periodontia, Implantodontia e Prótese Dentária.

Nesta conversa conduzida por Samy Tunchel, especialista em Periodontia e mestre em Implantodontia, o belga mostra seu ponto de vista sobre o impacto da tecnologia na Odontologia e deixa clara sua preocupação sobre a necessidade de oferecer tratamentos que acompanhem a longevidade da população.
 

Samy Tunchel – Como você vê a Implantodontia mundial em dez anos e, em especial, a brasileira, com todas as nossas particularidades? Existe algo que realmente possa transformar a maneira como trabalhamos?
Eric Van Dooren –
Provavelmente, o Brasil é o país com os melhores dentistas do mundo. O idioma ainda é um problema para muitos, que acabam ministrando aulas apenas localmente, no entanto, tenho visto mais e mais profissionais começando a sair do Brasil, e sei que vão conquistar o mundo. Em relação às transformações, acredito muito na digitalização e na robótica. Tenho certeza de que dentro de dez anos, ou até menos, poderemos trabalhar à distância com robótica. Provavelmente, a digitalização vai abrir a Odontologia e, especialmente, a Implantodontia para todos – pois, quando comecei, há 30 anos, era uma especialidade que atendia somente um grupo restrito de pessoas.


Tunchel – A impressão 3D e o sistema CAD/CAM têm sido muito discutidos atualmente. Esse modelo de Odontologia digital veio para ficar? De que forma essas tecnologias impactam a Odontologia e como podemos aproveitá-las?
Van Dooren –
Tenho certeza de que é algo que veio para ficar. No entanto, em comparação com outras indústrias, o nível de precisão da impressão e fr esagem na nossa área é mais baixo. Será preciso muitas melhorias, mas estou certo de que essa será também uma mudança muito grande: poder imprimir moldes e guias, e projetar basicamente tudo no consultório será uma mudança enorme.


Tunchel – Você imagina os dentistas fazendo isso sozinhos em seus consultórios ou eles terão que enviar seus trabalhos para outro lugar?
Van Dooren –
Como o preço das impressoras 3D está caindo muito rápido, a impressão de alto nível e de alta resolução será muito acessível em breve. Acho que, no futuro, em vez de termos pessoas no consultório fazendo moldagem, por exemplo, teremos um grupo específi co de pessoas de TI com muita habilidade em 3D, design e tecnologia.


Tunchel – A população está envelhecendo e vemos a necessidade de mudar nossa forma de tratar os pacientes. Qual a sua opinião sobre as mudanças necessárias em relação ao ensino, materiais e planos de tratamento?
Van Dooren –
Em primeiro lugar, as universidades e os sistemas educacionais deveriam permitir que tanto os pacientes como os dentistas tivessem mais acesso a informações sobre os problemas associados ao uso de implantes. Pelo menos no meu consultório, o que vejo é que colocamos implantes em pacientes com uma certa idade, por exemplo, em um grupo de pessoas de 50 anos que têm dinheiro, boa higiene e possibilidade de fazer a limpeza. Mas, esses pacientes hoje estão chegando na faixa dos 80 anos, o que gera um desafio maior: como cuidar da higiene e da manutenção nos idosos? Isso é algo que as pessoas precisam levar em consideração quando estão planejando os casos e colocando implantes.


Tunchel – Então, você acredita que devemos avisar aos pacientes que os tratamentos feitos quando eles estão com 50 a 65 anos terão que ser trocados no futuro?
Van Dooren –
Sim, é a melhor maneira de lidar com essa situação. Em primeiro lugar, nada é eterno. Em segundo lugar, vemos que, em média, depois de dez ou 15 anos refazemos a parte protética – não necessariamente a parte do implante. Após um determinado tempo, a manutenção e a higiene vão se tornar um problema, por isso, temos que transformar esses pacientes com próteses fixas em pacientes com próteses removíveis, para fazer a manutenção e a sobrevivência. Alguns idosos começam a perder a destreza, principalmente em decorrência de condições como derrames e outras complicações. Sendo assim, prefiro usar uma barra e dois implantes para facilitar a higienização. Quanto menos implantes, melhor. É preciso pensar em um conforto funcional.


Tunchel – Como um grande apreciador da cirurgia guiada, você acha que os dentistas devem sempre usar algum tipo de guia para realizar cirurgias?
Van Dooren –
Acho que essa técnica oferece maior qualidade e previsibilidade do trabalho. Não sei se há necessidade de ensinar aos dentistas como usar porque eu, por exemplo, raramente uso o guia até a última fase da cirurgia, mas ele me orienta e me deixa confortável para fazer as duas primeiras perfurações. No entanto, mesmo que os dentistas não usem o guia, eles devem fazer o planejamento.


Tunchel – A respeito dos implantes, qual a sua percepção sobre as mudanças que vêm ocorrendo, como tipos, superfícies e materiais?
Van Dooren –
Hoje, estão sendo desenvolvidos materiais de zircônia muito mais resistentes, que podem fazer a liberação prolongada de medicamentos para prevenir a peri-implantite. Também acho que, com a tecnologia e a impressão 3D, poderemos projetar implantes feitos especificamente para determinados locais. É nesse sentido que acredito estarmos caminhando, mas eu vou me aposentar antes disso.

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