Publicado em: 14/08/2017 às 16h32

50 anos depois da descrição da osteoindução: há conflito de interesse?

Luis Antonio Violin Pereira apresenta as etapas mais recentes que envolvem o uso da bone morphogenetic protein, além de algumas polêmicas.

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Dando continuidade ao assunto iniciado na edição anterior1, que destacou o desenvolvimento da primeira à quinta fase da bone morphogenetic protein, vamos apresentar agora as etapas mais recentes que envolvem seu uso e algumas polêmicas.
 
 
QUINTA FASE
 
Em 1990, foi obtido o recombinante humano da BMP-2 ou rhBMP-22. Em 2002, após importantes publicações científicas com resultados favoráveis, a rhBMP-2 foi liberada pelo departamento norte-americano Food & Drug Administration (FDA) para comercialização e uso clínico sob a denominação de Infuse Bone Graft (Medtronic, Memphis/TN, USA), um preparado que utiliza colágeno bovino como agente carreador da BMP-2. As aplicações iniciais da rhBMP-2 foram a fusão espinhal (artrodese) e correções de defeitos craniofaciais3-4.
 
 
SEXTA FASE
 
Em 2009, havia 13 publicações científicas com patrocínio da indústria fabricante da rhBMP-2, demonstrando segurança e eficácia na utilização do produto na coluna vertebral. Essas publicações reportavam 780 pacientes tratados e com nenhum evento adverso reportado5.
 
Entretanto, em 2002, a análise comparativa dos relatórios enviados pela Meditronic ao FDA, com o objetivo de obter autorização para comercialização do produto, e as publicações subsequentes com a mesma coorte de pacientes em periódicos científicos especializados6 revelaram informações inconsistentes5. No material apresentado ao FDA, havia o relato de efeitos adversos com a utilização da rhBMP-2 na coluna vertebral, entretanto, nos artigos publicados em periódicos científicos não havia tais relatos5. Posteriormente, os autores alegaram que os efeitos colaterais estavam presentes de forma semelhante, tanto no grupo de pacientes tratados com rhBMP-2 quanto no grupo tratado com enxerto ósseo autógeno, e por essa razão decidiram não se referir aos efeitos adversos nas publicações.
 
 
SÉTIMA FASE
 
Como resultado dessas publicações, o Comitê de Finanças do Senado dos Estados Unidos iniciou um inquérito para avaliar a inconsistência dos relatos sobre os efeitos adversos. O comitê demonstrou que os mesmos foram realmente omitidos das publicações com financiamento do fabricante em periódicos especializados7.
 
 
OITAVA FASE
 
A seguir, a Medtronic se juntou ao projeto Yale University Open Data Access (Yoda, acessível em http://yoda.yale.edu/) e apresentou abertamente todos os dados publicados e não publicados, e permitiu uma análise dos mesmos por dois comitês diferentes da Universidade de Yale, os quais eram independentes e isentos de interesse. Com uma metodologia adequada de análise de dados, os comitês chegaram a várias conclusões8-9, entre elas:
 
• Para a artrodese da coluna lombar, não há evidência de diferença clinicamente importante entre os resultados obtidos com rhBMP-2 e enxerto ósseo autógeno da crista ilíaca;
 
• Ambas as opções de tratamento estão associadas a complicações semelhantes;
 
• Não há evidência sobre o risco aumentado de câncer em usuário de rhBMP-210.
 
 
NONA FASE
 
O que o cirurgião-dentista tem a ver com o relato descrito anteriormente? Absolutamente nada! Tal discussão ficou restrita ao uso da rhBMP-2 na coluna vertebral, sem que houvesse relatos semelhantes sobre a utilização da rhBMP-2 na região craniofacial. As publicações demonstram que sua utilização é segura quando indicada de forma correta.
 
Acontecimentos como os descritos precisam ser avaliados com ponderabilidade, uma vez que grande parte dos avanços na área da saúde tem sido possível graças à saudável relação entre indústria e academia. A parceria continua sendo saudável, desde que respeitadas as regras de conflitos de interesse. O que não parece saudável é negligenciar a tecnologia – iniciada em 1965 por Marshall Urist – em detrimento ao conflito de interesses pessoais. Portanto, a utilização e a pesquisa com rhBMP-2 pelo cirurgião-dentista devem continuar a seguir o seu curso, apesar da poluição de informação sobre o assunto, especialmente nas mídias não especializadas.
 

 

 
REFERÊNCIAS
 
1. Pereira LAVD, Costa CFP, Freitas RM. Onde estamos em relação à BMP-2? ImplantNewsPerio 2017;2(3):562-3.
 
2. Wang EA, Rosen V, D'Alessandro JS, Bauduy M, Cordes P, Harada T et al. Recombinant human bone morphogenetic protein induces bone formation. Proceedings of the National Academy of Sciences 1990;87(6):2220-4.
 
3. Freitas RM, Susin C, Spin-Neto R, Marcantonio C, Wikesjö UM, Pereira LAVD et al. Horizontal ridge augmentation of the atrophic anterior maxilla using rhBMP-2/ACS or autogenous bone grafts: a proof-of-concept randomized clinical trial. Journal of clinical periodontology 201340(10):968-75.
 
4. Freitas RM, Spin-Neto R, Marcantonio Jr. E, Pereira LAVD, Wikesjö UM, Susin C. Alveolar ridge and maxillary sinus augmentation using rhBMP-2: a systematic review. Clinical implant dentistry and related research 2015;17(S1):192-201.
 
5. Carragee EJ, Hurwitz EL, Weiner BK. A critical review of recombinant human bone morphogenetic protein-2 trials in spinal surgery: emerging safety concerns and lessons learned. The Spine Journal 2011;11(6):471-91.
 
6. Burkus JK, Heim SE, Gornet MF, Zdeblick TA. Is Infuse bone graft superior to autograft bone? An integrated analysis of clinical trials using the LT-CAGE lumbar tapered fusion device. J Spinal Disord Tech 2003;16(2):113-22.
 
7. United States Senate Finance Committee. Staff report on Medtronic's influence on infuse clinical studies. International journal of occupational and environmental health 2013;19(2):67.
 
8. Simmonds MC, Brown JV, Heirs MK, Higgins JP, Mannion RJ, Rodgers MA et al. Safety and effectiveness of recombinant human bone morphogenetic protein-2 for spinal fusion. A meta-analysis of individual-participant data. Annals of internal medicine 2013;158(12):877-89.
 
9. Fu R, Selph S, McDonagh M, Peterson K, Tiwari A, Chou R et al. Effectiveness and harms of recombinant human bone morphogenetic protein-2 in spine fusion: a systematic review and meta-analysis. Annals of internal medicine 2013;158(12):890-902.
 
10. Kelly MP, Savage JW, Bentzen SM, Hsu WK, Ellison SA, Anderson PA. Cancer risk from bone morphogenetic protein exposure in spinal arthrodesis. Th e Journal of Bone & Joint Surgery 2014;96(17):1417-22.
 
 

Luis Antonio Violin Pereira

 

Professor associado do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia (Unicamp-IB).

 

 

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Carolina Frandsen Pereira da Costa
Doutoranda no programa de pós-graduação em Biologia Celular e Estrutural do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia (Unicamp-IB).

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Rubens Moreno de Freitas
Professor no Instituto Latino Americano de Pesquisa e Ensino Odontológico (Ilapeo); Doutor em Odontologia com ênfase em Implantodontia pela Unesp; Research fellowship no Laboratory for Applied Periodontal & Craniofacial Regeneration, Augusta/GA (EUA).

 

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