Publicado em: 06/10/2017 às 10h03

Enxertos compósitos para reconstrução óssea: uma nova opção

Guaracilei Maciel Vidigal Júnior apresenta caso clínico com aplicação de um biomaterial formado pela associação de hidroxiapatita e colágeno.

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Os materiais são divididos em quatro grupos: metais, cerâmicos, polímeros e compósitos. Este último é formado pela associação de pelo menos dois materiais de diferentes grupos (sejam metais, cerâmicos e/ou polímeros). Um dos principais exemplos de compósito que existe na natureza é o osso, composto pela associação entre um material cerâmico, a hidroxiapatita (HA), e um polímero, o colágeno.
 
Na regeneração tecidual, especialmente na regeneração óssea guiada (ROG), o principal material cerâmico usado é a HA, que não é exatamente um único material, mas uma enorme família de materiais que possui o mesmo nome. As HAs podem apresentar diferenças físico-químicas (tamanho de grão, razão cálcio/fósforo, cristalinidade, área superficial específica) que podem resultar em respostas clínicas distintas, envolvendo desde a condução das células que formarão osso na área do defeito, sua reabsorção e substituição pelo osso do próprio indivíduo, até um material completamente inerte (não osseocondutor), que nunca será reabsorvido para ser substituído por osso.
 
Na ROG, os polímeros são usados na produção das barreiras de membrana, sendo o colágeno um dos mais empregados. Vale lembrar que “poli” é um prefixo de origem grega que significa “muitos”, enquanto “mero” significa “unidade” – o que permite entender que os polímeros são estruturas formadas pela repetição de várias unidades, no caso, da mesma proteína. Assim, o colágeno é formado por várias unidades de sua unidade estrutural básica, o tropocolágeno, caracterizando-se por ser uma proteína assimétrica cuja principal função é manter a forma dos tecidos. De maneira semelhante ao que ocorre às HAs, a qualidade do colágeno pode variar consideravelmente, desde seu tempo de reabsorção até a sua imunogenicidade. O colágeno usado para a confecção das barreiras de membrana pode ser alógeno ou xenógeno, e este fator está relacionado à capacidade do material desencadear resposta imune no hospedeiro.
 
A agência federal norte-americana Food and Drug Administration (FDA) tem sugerido o uso do colágeno do tendão suíno na confecção destes biomateriais, justamente pela sua baixa imunogenicidade. Recentemente, foi disponibilizado para ROG um bloco formado pela associação de HA e colágeno (Figura 1), o que resultou em um biomaterial com boa manuseabilidade, interessante na regeneração da tábua óssea bucal.
 
Figura 1 – Biomaterial em forma de bloco, formado pela associação de HA e colágeno.

 

A seguir, o caso clínico ilustra a aplicação deste biomaterial no tratamento com implante instalado imediatamente após a exodontia, associado à regeneração simultânea da tábua óssea bucal na região do primeiro pré-molar superior direito.
 
A Figura 2 mostra o aspecto clínico inicial e a Figura 3 mostra um corte tomográfico transaxial evidenciando a ausência da tábua óssea bucal. Após a exodontia do pré-molar, o enxerto em bloco, umedecido pelo sangue da área, foi adaptado na vestibular (Figura 4) para reconstituição da tábua óssea bucal ausente. Em seguida, o implante foi instalado (Figura 5) e um retalho pediculado foi deslizado do palato para recobrir a área (Figura 6). A tomografia de controle (Figura 7), realizada após seis meses, demonstra o resultado após a cirurgia de reentrada.
 
Figura 2 – Aspecto clínico inicial. Dente 24 com trinca vertical na raiz vestibular.

 

Figura 3 – Corte transaxial evidenciando a ausência da tábua óssea bucal.

 

Figura 4 – Exodontia do 24 e instalação do enxerto em bloco. Enxerto posicionado na região da tábua óssea bucal ausente.

 

Figura 5 – Implante instalado após a colocação do enxerto.

 

Figura 6 – Retalho pediculado deslizado do palato, usado para cobrir a área.

 

Figura 7 – Tomografia de controle, realizada seis meses após a instalação do implante e do enxerto.

 

 
REFERÊNCIAS
 
1. Desterro FP, Sader MS, Soares GDA, Vidigal Jr. GM. Can inorganic bovine bone grafts present distinct properties? Braz Dent J 2014;25(4):282-8.
 
2. Vidigal Jr. GM, Silva Jr. LCM, Dantas LRF, Groisman M. Conceito de reconstrução óssea na região dos dentes 11 e 21. In: 11 e 21: Estética em Implantes. 1a ed. São Paulo: Quintessence Editora, 2017. p.134-81.
 
 

 


Guaracilei Maciel Vidigal Júnior

Especialista e mestre em Periodontia – UFRJ; Livre-docente em Periodontia e especialista em Implantodontia – UGF; Doutor em Engenharia de Materiais – Coppe/UFRJ; Pós-doutorando em Periodontia e professor adjunto – Uerj.

 

 

 

 

 

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