Publicado em: 06/10/2017 às 11h16

IN 2017 contou com debates de alto nível

Grandes mestres brasileiros e estrangeiros debateram todas as áreas da Reabilitação Oral durante as mesas-redondas.

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Texto: Renata Putinatti e Flavius Deliberalli

Imagens: Panóptica Multimídia
 

Grandes mestres brasileiros e estrangeiros subiram ao palco do auditório principal, o Celso Furtado, em seis mesas-redondas para compartilhar experiências envolvendo práticas clínicas e pesquisas. Nesse ano, o IN 2017 – Latin American Osseointegration Congress contou com uma novidade: cada mesa-redonda era composta por dois ministradores internacionais e dois brasileiros para que o público pudesse absorver e vivenciar diferentes perspectivas de cada tema proposto. As discussões permearam por todas as áreas da Reabilitação Oral, abrangendo técnicas regenerativas, reconstrução e manipulação de tecidos moles e duros, configuração de tecido mole, fatores que levam ao sucesso e à falha dos implantes, reabilitações implantossuportadas e desenhos de reconstruções cerâmicas.

RECONSTRUÇÃO DOS REBORDOS ALVEOLARES ATRÓFICOS OU REABSORVIDOS

Da esquerda para a direita, André Pelegrine, Matteo Chiapasco, Wilson Roberto Sendyk, José Luiz Calvo-Guirado e Sérgio Jayme.
 

Com grande audiência, a primeira mesa-redonda do evento teve como tema as técnicas regenerativas na região bucomaxilofacial, iniciando com José Luiz Calvo-Guirado (Espanha), que discorreu sobre o uso de biomateriais em pequenos defeitos ósseos. Em seguida, Matteo Chiapasco (Itália) mostrou casos de reconstrução em extensos defeitos ósseos com o uso de enxertos autógenos. Já André Pelegrine abordou a utilização de aspirados de medula óssea na reconstrução de defeitos críticos em coelhos, e Sérgio Jayme demonstrou o uso de PRF em cirurgias reconstrutivas. O presidente da mesa, Wilson Roberto Sendyk, colocou em pauta se realmente o uso do PRF tem alguma influência na reparação do tecido ósseo. Chiapasco e Pelegrine contestaram que não há evidência científica de que o uso de PRF melhore ou apresse a reparação óssea e, embora Sendyk tenha concordado com as observações em relação ao tecido ósseo, postulou que talvez o PRF possa aumentar a velocidade de reparação dos tecidos moles, fato observado em cães da raça Beagle em uma pesquisa realizada pelo curso de mestrado em Implantodontia da Universidade de Santo Amaro (Unisa). Ao final da discussão, concluiu-se que, para pequenos defeitos de rebordo, os biomateriais de qualidade inquestionável são a alternativa de escolha para reconstrução óssea. Nas situações de grande destruição dos rebordos, os enxertos autógenos continuam sendo a primeira opção.



 

RECONSTRUÇÃO E MANIPULAÇÃO TECIDUAL PERI-IMPLANTAR

Da esquerda para a direita, Sérgio Scombatti, Zvi Artzi, Enilson Sallum, Eric Van Dooren e Marcelo Nunes.

 

Comandada por Enilson Sallum, a mesa-redonda “Perio-Implantologia contemporânea: escolha suas armas” foi aberta por Eric Van Dooren (Bélgica), que ressaltou o planejamento criterioso utilizando todos os recursos disponíveis (fotografias da face, radiografias, tomografias e ferramentas digitais) e demonstrou as vantagens das cirurgias guiadas, a necessidade de preenchimento de gaps entre os implantes e o tecido ósseo, bem como a utilização de enxertos de tecido conjuntivo subepitelial – sempre enfatizando a importância da simplificação dos procedimentos clínicos. Na sequência, Zvi Artzi (Israel) falou sobre a avaliação e o respeito às estruturas periodontais vizinhas aos implantes, além do correto perfil de emergência das próteses. Ele apresentou casos clínicos com a utilização de enxertos autógenos, biomateriais e barreiras, e ainda ilustrou o uso de enxertos livres (aumento do tecido queratinizado), pedículos e matriz dérmica acelular. Em sua conclusão, realçou o respeito à biologia dos tecidos, o conhecimento do processo de cicatrização e a adoção de protocolos definidos. Já Sérgio Scombatti explorou a utilização da técnica com malhas de titânio associadas ao uso de osso autógeno, biomateriais e barreiras, apresentando os argumentos presentes na literatura atual e ilustrando com passos técnicos, incluindo o uso de agregados plaquetários. Ele expôs o protocolo medicamentoso para estes casos e orientou sobre as condutas em casos de exposição no pós-operatório, sempre destacando o embasamento em evidências científicas para os diferentes protocolos. Para finalizar, Marcelo Nunes abordou a preservação de rebordos e ressaltou a atenção à presença de tabua óssea vestibular e biotipo gengival. Ainda indicou a utilização de preenchimento dos gaps com biomaterial, bem como a utilização sistemática de enxertos de tecido conjuntivo subepitelial para contornar as alterações anatômicas previstas após a implantação imediata. Ele abordou a importância da estabilidade primária e do desenho do implante, indicando que a utilização de implantes imediatos em áreas estéticas, apesar de trazer vantagens, é um procedimento complexo e que possui riscos.

 

 

CONFIGURAÇÃO DO TECIDO MOLE

Da esquerda para a direita, Maurice Salama, Ronaldo Barcellos, Eduardo Dias, Alessandro Pozzi e Ricardo Magini.


A mesa-redonda coordenada por Eduardo Dias debateu a configuração do tecido mole em Implantodontia, sua influência no resultado estético e o que há de mais atual no arsenal terapêutico para obter sucesso em longo prazo. Alessandro Pozzi (Itália) apresentou a técnica de planejamento digital, usada também para avaliação e reconfiguração virtual prévia do perfil de emergência da prótese, permitindo a confecção de uma prótese provisória ideal para a conformação do perfil de emergência – o que pode evitar o sobretratamento causado por um erro de planejamento. Por sua vez, Maurice Salama (Estados Unidos) detalhou as técnicas de preservação de estrutura alveolar e volume do tecido mole peri-implantar, como sepultamento radicular, extração ortodôntica e socket shield. Foi discutido também o dual zone concept, uma abordagem que visa a preservação do volume alveolar e que envolve a exodontia minimamente traumática sem elevação de retalho, com instalação imediata de implante, preenchimento do gap entre o osso e o implante, e a instalação de uma prótese provisória parafusada fazendo o selamento protético do alvéolo. Na sequência, Ricardo Magini ressaltou que estamos vivenciando a era da estética rosa, sobretudo pela ausência de recessão e presença de papila, ou seja, a estabilidade marginal dos tecidos periodontais e peri-implantares. Assim, os níveis das cristas ósseas vestibulares e proximais são protagonistas, entretanto, após a exodontia, o osso fasciculado perde a função e desaparece. Nesta dinâmica de alteração tecidual, a redução do volume ósseo é inexorável e significante, e o sucesso terapêutico está baseado na tríade saúde/função/estética. Além disso, a saúde e a estética da gengiva (periodonto de proteção) e da mucosa periimplantar são dependentes dos fenótipos teciduais e das distâncias biológicas. Logo após, a estabilidade tecidual em longo prazo foi abordada por Ronaldo Barcellos, que reforçou a importância da manutenção e, quando necessário, a alteração do fenótipo tecidual peri-implantar. Ele ressaltou ainda as vantagens do uso de substâncias bioativas para otimizar os resultados das técnicas de enxertia de tecidos moles. Ao final das apresentações, concluiu-se que a preservação das estruturas alveolares, tanto de tecido duro quanto de tecido mole, é primordial para a manutenção da estética peri-implantar em longo prazo, sendo que o implante deve ser instalado em uma posição tridimensional ótima, reduzindo a possibilidade de insucessos e a necessidade de procedimentos cirúrgicos e/ou protéticos corretivos.



 

SUCESSO E FALHA DE IMPLANTES

Hugo De Bruyn, Vicente de Souza Pinto e Arthur Belém Novaes Júnior, Lyndon Cooper e Paulo Perri de Carvalho.

 

A discussão sobre a avaliação crítica dos fatores que levam ao sucesso ou insucesso da colocação de implantes na prática diária foi intermediada por Arthur Belém Novaes Júnior. O primeiro a subir no palco foi Lyndon Cooper (Estados Unidos), que apresentou o método das próteses de zircônia implantossuportadas e o considerou uma técnica um pouco mais difícil para executar do que as de cerâmica, porém, mais estética e resistente. Embora tenha avaliado como baixo os riscos de complicações, Cooper não teve subsídios suficientes para informar se a relação custo-benefício seria adequada para o Brasil. Já Hugo De Bruyn (Bélgica) discorreu sobre o custo-benefício dos implantes para a qualidade de vida dos pacientes, chegando à importante conclusão de que a preocupação com a estética tem tornado o tratamento caro e viável apenas aos mais ricos. Ele também apresentou uma série de situações com trabalhos mais simples e que poderiam beneficiar um número muito maior de pacientes. Paulo Perri de Carvalho mostrou situações clínicas que influenciam a manutenção da osseointegração e, devido à Implantodontia atual ser voltada para a estética, destacou as técnicas cirúrgicas de hoje e o risco de maior ou menor trauma cirúrgico como fator de risco. Portanto, o planejamento cirúrgico é determinante, levando em consideração o conhecimento sobre a biologia do tecido ósseo. Baseado em estudos, ele também considerou a necessidade de, pelo menos, 2 mm de tecido queratinizado para um melhor resultado a longo prazo. Ao final, Vicente de Souza Pinto versou sobre os fatores de risco sob o ponto de vista humano, algo que é feito na Medicina há algum tempo, mas é novidade na Odontologia. Para isso, analisou meticulosamente o artigo de Franck Renouard, René Amalberti e Erell Renouard intitulado Are “Human Factors” the Primary Cause of Complications in the Field of Implant Dentistry?, e mostrou as muitas variáveis na relação entre paciente e profissional, e como isso é importante para o sucesso de uma clínica.

 

 

FATORES-CHAVE QUE FAZEM A DIFERENÇA
 

Da esquerda para a direita, Valdir Muglia, Daniel Telles, Francisco Todescan, Juan Carlos Abarno e German Gallucci.


O debate que envolveu número de implantes, design e posição foi presidido por Valdir Muglia, que chamou ao palco German Gallucci (Estados Unidos) para apresentar, de forma sistemática, informações clínicas e científicas relacionadas aos implantes, resultando em recomendações clínicas para o tratamento de maxilas e mandíbulas edêntulas com prótese fixa.  Ao final da aula, ele resumiu que a literatura indica a colocação de, no mínimo, seis implantes na maxila e quatro implantes na mandíbula para alcançar um resultado previsível do tratamento em longo prazo. Juan Carlos Abarno (Uruguai) abordou as características do osso disponível, que permite obter a estabilidade inicial e assegura previsibilidade em longo prazo. Também salientou a importância do chamber concept, apresentado nos trabalhos do italiano Marco Degidi como um fator a ser observado na estabilidade em longo prazo. A seguir, Francisco Todescan demonstrou, por meio de casos clínicos aparados pela literatura científica, que todos os fatores citados no tema da mesa-redonda são importantes para manutenção do osso marginal e longevidade dos implantes. Em determinadas situações, alguns são mais importantes do que outros, porém, todos devem ser considerados em qualquer planejamento e sempre deve ser utilizado o polígono de estabilização protética em reabilitações múltiplas. Finalmente, Daniel Telles ilustrou com casos clínicos as vantagens e desvantagens das próteses totais fixas e removíveis, salientando que o paciente deve ser corretamente orientado para poder decidir, com clareza, quais destas vantagens e desvantagens prefere conviver no seu dia a dia, sem se arrepender posteriormente de sua decisão.


 

RECONSTRUÇÕES CERÂMICAS

Da direita para a esquerda, José Geraldo Malaguti, Carlos Araujo, Guillermo Cagnone, Bernard Touati e Diego Klee.

 

Para fechar o ciclo de mesas-redondas, a temática escolhida foi “Desenhos de reconstruções cerâmicas sobre pilares para implantes: como tomar uma decisão?”, coordenada por Carlos Araujo e que culminou em uma discussão bastante proveitosa entre os participantes. O primeiro conferencista foi Guillermo Cagnone (Argentina), com casos clínicos explorando uma tendência moderna de utilizar barras protocolo em zircônia e próteses parafusadas por lingual. Em seguida, Bernard Touati (França) abordou um tema biologicamente bem atual e relevante, que versava sobre a instalação de munhões em implantes com conexão cônica. Já José Geraldo Malaguti falou sobre as inovações em Implantodontia e exibiu a tecnologia moderna em cerâmicas e casos clínicos de extrema beleza. Para finalizar a atividade, Diego Klee abordou um protocolo bastante interessante de instalação de implantes em alvéolos de extração imediata, composto por um material e uma apresentação muito bonitos e de alta qualidade.

 

 

Agradecimento aos presidentes das mesas-redondas pela colaboração com as informações contidas nesse texto.
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