Publicado em: 06/10/2017 às 14h44

A morte do reitor da UFSC

Marco Bianchini lamenta o falecimento de Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

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Ainda atônito pelo que ocorreu na última segunda-feira, dia 2 de outubro, me vejo obrigado, como professor da UFSC, a abordar este assunto. O magnífico reitor em exercício da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, se suicidou.  Ele foi preso e estava sendo acusado de obstrução de Justiça em uma investigação que tratava de desvio de verbas para cursos de educação à distância.  Olhando assim a notícia, uma análise sórdida da maioria seria: “Que bom, um ladrão a menos”. Entretanto, a história foi bem diferente.

Na verdade, o reitor ficou preso pela Polícia Federal apenas um único dia, e logo foi solto. Ele não estava sendo acusado de desvio de recursos para o ensino a distância, mas sim de atrapalhar as investigações que tratavam desse assunto. Contudo, por encaminhamento dele, já haviam sido abertos processos administrativos internos que estavam tratando destas denúncias. Além disso, as investigações recorrem ao ano de 2006, e o reitor atual assumiu em 2016. Tudo estava seguindo através dos trâmites legais da UFSC, mas a Polícia Federal, auxiliada pela corregedoria interna da UFSC, teve um entendimento diferente.

A comunidade universitária da UFSC lamenta a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. (Imagem: divulgação)

 

Infelizmente, esse entendimento acabou gerando exageros. A prisão ocorreu de maneira humilhante. O reitor foi posto em um camburão, examinado em corpo nu e vestido em roupa de prisioneiro. Tudo isso feito sem flagrante, sem a sentença e antes mesmo de ser declarado réu. Sem fala que o reitor não foi sequer chamado para prestar um depoimento inicial ou recebeu uma condução coercitiva, que está em moda ultimamente. Uma verdadeira afronta aos direitos de qualquer cidadão. Sendo da área de Direito, o reitor sentiu o golpe, que foi muito forte.

Estamos vivendo tempos turbulentos, e essa necessidade extrema que temos de passar o Brasil a limpo pode respingar em inocentes. Como disse o ex-senador Nelson Wedekin: “Algumas autoridades, ao invés de exercerem o poder com critério, partindo do pressuposto de que o cidadão pode ser culpado, pode ter só parte de culpa ou nenhuma culpa, pensando que seu juízo e sua intuição são infalíveis, só têm olhos para as evidências que confirmem as suas suspeitas”.

O grande problema disso tudo, além da trágica morte de reitor, é que os aproveitadores de plantão não perderam a oportunidade de colocar tudo e todos no mesmo balaio. Falsos paladinos da Justiça, oriundos de partidos políticos que estão sendo corretamente punidos pela Justiça, vieram a público condenar toda e qualquer atuação da Polícia Federal e do Ministério Público. É a escória defendendo aqueles que já estão condenados e até mesmo presos! Este, definitivamente, não é o caminho. Os excessos devem ser coibidos, mas os acertos merecem e devem ser preservados.

Fico aqui imaginando uma situação dessas nos nossos consultórios. Imaginem vocês se um de nós, dentistas, é acusado de negligência ou erro médico e, antes de virarmos réus ou sermos condenados, formos presos e execrados publicamente. Como refazer a profissão e a vida novamente? Seria praticamente impossível. E, supondo que fôssemos inocentados, quem pagaria pelo erro da Justiça? Que punição receberiam aqueles que nos acusaram injustamente e nos julgaram precocemente? Assim como qualquer cidadão, as autoridades da Justiça têm que assumir as responsabilidades pelos seus erros e excessos, e devem ser punidas quando eles ocorrerem.

A comunidade universitária da UFSC, em sua grande maioria, está lamentando profundamente a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Parece ser um sentimento de consenso de que Cancellier iria provar a sua inocência. Acredito que brevemente teremos esta confirmação. Nesses tempos difíceis, com uma imprensa que, impunemente, ateia o fogo para depois assoprar, e onde a condenação dos verdadeiros criminosos pode levar consigo os inocentes que atravessarem o caminho, Cancellier seria uma voz marcante e útil para podermos separar o joio do trigo. Foi uma pena que ele não aguentou a pressão. Mas, quem aguentaria?

 

O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, de onde veio o joio? “Um inimigo fez isso”, respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: “O senhor quer que o tiremos?”. Ele respondeu: “Não porque, ao tirar o joio, vocês poderiam arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até a colheita. Então, direi aos encarregados da colheita: juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro”. (Mateus 13, 27-30)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

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