Publicado em: 20/10/2017 às 17h18

O ultrassom deve ser usado para limpar os implantes?

Marco Bianchini lembra que a velha prática periodontal ainda traz muitas evidências conclusivas.

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A instrumentação mecânica é amplamente utilizada para a limpeza e manutenção dos implantes dentários. Entretanto, ainda não encontramos na literatura um consenso sobre qual o melhor instrumento para realizar esta limpeza adequadamente. A maioria dos estudos relata que a instrumentação mecânica, seja ela feita por qualquer instrumento que conhecemos, pode alterar as propriedades superficiais do titânio. Mas, apesar de limpar bem a área, pode influenciar na adesão bacteriana futura e tornar mais difícil a remoção do biofilme ao longo do tempo.

Outro aspecto importante a ser levado em consideração, quando consultamos a literatura sobre este assunto, é que quase 100% dos estudos são in vitro. Isso não inviabiliza os resultados, mas reduz o impacto das conclusões, criando dificuldades de extrapolarmos estes resultados para a nossa clínica diária. Muitos destes estudos foram feitos sobre discos de titânio, e não sobre implantes exatamente idênticos aos que colocamos em boca. Isto cria um viés intransponível, pois são eliminadas as condições bucais naturais, onde temos a presença de todos os fluidos e, sobretudo, da gengiva.

É inegável que a utilização de pontas metálicas, sejam elas manuais, sônicas ou ultrassônicas, irá acarretar em mudanças na superfície. A maioria dos estudos concorda que a utilização destas pontas provoca uma alteração estatisticamente significativa do valor da rugosidade. Porém, estas mesmas pontas aumentam significativamente a eficácia da remoção bacteriana. Assim, acabamos por nos defrontar com um grande dilema: alterar a superfície e remover a placa ou manter a superfície intacta e não remover a placa?

Hoje, as empresas fabricantes de implantes nos oferecem uma variação muito grande de tratamentos de superfície. Será que a ação das pontas metálicas para a limpeza dos implantes é a mesma nestas diferentes superfícies? Se voltarmos à pesquisa bibliográfica para responder a esta questão, iremos observar que os estudos avaliam implantes com diferentes tipos de superfície, o que também dificulta uma padronização dos achados, uma vez que temos no mercado uma gama muito grande de tratamentos de superfície.

Diante de tantas adversidades na literatura, para onde deve correr o clínico? Acredito que, mais uma vez, os conceitos da Periodontia podem ser aplicados nesta questão. Sabemos que o agente causador das inflamações e infecções periodontais e peri-implantares é a placa bacteriana. Desta forma, a sua eliminação ou diminuição drástica tende a normalizar os tecidos e estabilizar o quadro de perdas ósseas progressivas. Assim, enquanto a literatura não nos traz resultados conclusivos sobre o que realmente ocorre com a suposta modificação da superfície, feita pelas nossas limpezas mecânicas, é preferível ter um implante descontaminado do que um contaminado e com doença peri-implantar ativa. As Figuras 1 a 4 demonstram casos em que foram utilizados instrumentos metálicos manuais e ultrassônicos para limpeza de implantes com alterações peri-implantares.
 

Figuras 1 e 2 – O antes e depois da raspagem a campo aberto com instrumentos metálicos mecânicos e ultrassônicos. Observar a boa remoção mecânica de biofilme e as ranhuras na estrutura do implante e do intermediário protético, como efeito colateral da raspagem.

 

Figura 3 – Raspagem com curetas de plástico em implante acometido por peri-implantite. Observar a intensa presença de biofilme e cálculo.

 

Figura 4 – Resultado imediato após a raspagem mecânica com curetas de plástico seguida de ultrassom. Observar a evidente descontaminação mecânica do implante, tendo também como resultado as ranhuras que certamente modificam a superfície.

 

Dentro deste contexto, a utilização das pontas ultrassônicas não pode ser contraindicada de imediato, como de fato não é, pela grande maioria dos estudos. Talvez um aperfeiçoamento destas pontas com pequenas modificações possa ocorrer no futuro. A modificação local da superfície dos implantes tratados com pontas ultrassônicas realmente ocorre, e o aumento da rugosidade de componentes lisos também deve ocorrer. Porém, identificar o quão grave são estas modificações e quais as suas reais consequências na manutenção dos implantes a longo prazo são os grandes desafios a serem descobertos.

Por enquanto, acredito que devemos continuar nos esforçando ao máximo para remover a placa bacteriana dos nossos implantes, corrigindo o aumento da rugosidade com borrachas de polimento, pois a velha prática periodontal ainda nos traz muitas evidências conclusivas. Vale lembrar aqui que, há cerca de 15 anos, era expressamente proibido sondar um implante com sondas metálicas, pois alteraria a superfície.

 

“Assim diz o Senhor: fui Eu que em todas as cidades vos deixei de dentes limpos, de todos os lugares retirei o alimento para vocês, mas nem assim voltastes para mim.” (Amós 4, 6)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 

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