Publicado em: 24/11/2017 às 16h49

Entrevista internacional: Maurice Salama mantém fortes laços com o Brasil

O especialista em Ortodontia e Periodontia conta como funciona o intercâmbio de brasileiros, que compartilham seus conhecimentos em estética nos EUA.

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(Imagem: Shutterstock)

 

Nascido no Cairo, no Egito, Maurice Salama mudou-se muito jovem para Nova York, nos Estados Unidos. Seguindo os passos do seu irmão Henry Salama, ingressou na Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York. Com especialização em Ortodontia e Periodontia, atualmente Salama integra a equipe multidisciplinar comandada por Ronald Goldstein, que possui fortes laços com o Brasil. Sediada em Atlanta, no estado da Geórgia, a equipe lidera importantes pesquisas nas áreas da Reabilitação Oral e Estética, e conta com um intercâmbio de profissionais brasileiros que compartilham seus conhecimentos com os norte-americanos, sobretudo, para a melhoria estética dos tratamentos.

A convite da revista ImplantNewsPerio, Wilson Sendyk, doutor em Periodontia e um dos precursores da Implantodontia no Brasil, entrevistou Salama quando ele esteve em visita ao País. Nesta conversa, eles falam sobre inovações em técnicas cirúrgicas e sobre o relacionamento da equipe de Atlanta com o Brasil.


Wilson Sendyk – Como é o dia a dia do time de Atlanta e qual é o seu papel na equipe?
Maurice Salama – O Dr. Ronald Goldstein tem 83 anos de idade e ainda trabalha com muita paixão. Com muito entusiasmo, é o líder da equipe e tem uma visão ampla – nos anos 1960 e 1970, escreveu o primeiro livro sobre Odontologia Estética. Ele entendeu que, para ter uma estética completa, era necessário mais do que habilidades restauradoras. Com sua visão, tentou encontrar as peças que precisava para obter uma Odontologia ainda melhor. Sendo assim, primeiro trouxe para sua equipe o David Garber, que possui treinamento em Perio-Prótese, depois eu, que tenho treinamento em Periodontia e Ortodontia, e depois o meu irmão Henry Salama, que tem treinamento em Prótese. Ele trouxe o Pinhas Adar, que treinou com o Uri Geller, depois veio o Christian Coachman e, em seguida, o Guilherme Cabral. Então, ele se cercou de periodontistas, protesistas, ortodontistas e ceramistas, e esta equipe nos permitiu criar e tratar qualquer tipo de dilema que o paciente pudesse ter. Também desenvolvemos artigos e pesquisas fantásticas que mudaram os padrões internacionais na Odontologia. No consultório, temos uma pessoa para cuidar de cada problema e, a partir do ponto de diagnóstico, todos já estão envolvidos. Sequenciamos o trabalho até o ponto do envio ao laboratório e todos têm a chance de se engajar e compartilhar suas impressões sobre o caso. É uma democracia verdadeira, um time verdadeiro, que realmente nos permite fazer coisas que não apenas ajudam os pacientes nos Estados Unidos, mas também dentistas de todo o mundo, através de artigos e aulas.

Sendyk – Neste time, você atua com Periodontia e Ortodontia. O que você gosta mais?
Salama – Com a Ortodontia, é possível ver a alegria da mudança nos pacientes ao longo do tempo, o tratamento é longo e você acompanha desde o começo. Porém, a cirurgia é mais desafiadora. Você precisa provar o quão bom você pode ser, tanto como cirurgião quanto para diagnosticar. Hoje, como estou mais velho, a cirurgia exige mais do meu corpo fisicamente, das minhas costas, pescoço e olhos. Já a Ortodontia você pode fazer até “beijar a lona”. No entanto, ainda gosto muito de ambas.

Sendyk – Fale sobre a relação entre o seu grupo de Atlanta e o Brasil.
Salama – Temos uma história construída com os dentistas brasileiros, não apenas compartilhando pesquisa, mas também trabalhando lado a lado – profissionais como Christian Coachman, que atuou conosco durante muitos anos, Guilherme Cabral, Marcelo Calamita, Dario Adolfi e muitos outros. Acho que esse intercâmbio é uma oportunidade única para compartilharmos nossas ideias, pois permite que eles voltem ao Brasil e disseminem esse conhecimento para os colegas. E claro, nos trouxeram muitas vezes ao Brasil para ensinar aos dentistas daqui, o que constituiu uma união muito forte entre nosso grupo de Atlanta e o País, em particular com a Academia Brasileira de Odontológica Estética (Aboe) e com a Academia Brasileira de Osseointegração (Abross).

Sendyk – O que o seu grupo viu nos dentistas brasileiros que não foi visto em dentistas de outras partes do mundo?
Salama – Encontramos entusiasmo e habilidade artística. Quando você tem dentistas jovens entusiasmados, que querem aprender e têm o DNA deste País tão bonito que se importa com a estética, eles trazem este padrão que não temos na América do Norte com os nossos ceramistas e técnicos. Quando viemos ao Brasil e percebemos o valor destes profissionais, os adotamos imediatamente em nossos consultórios – não apenas para ensiná-los, pois muitas vezes eles que nos ensinaram. Costumo chamar essa interação de mágica.

Sendyk – Falando sobre cirurgia, como o cirurgião pode se atualizar sobre as técnicas de reconstrução para a prática diária? O que você gosta ou não e o que faz ou não?
Salama – À medida que ganhamos mais experiência, queremos minimizar o risco. Como professores, é melhor não mostrarmos aos pacientes o quanto somos bons, mas sim fazer o melhor que podemos para eles com a menor quantidade de risco. Na clínica, nos concentramos nisto.

Muitos dos nossos artigos são feitos para reduzir o risco. Veja, por exemplo, o artigo sobre o uso da gengiva artificial no paciente parcialmente desdentado para próteses fixas, escrito por Coachman, Cabral, Calamita, Garber, Henry Salama e eu. Ele mostra que podemos tratar estes casos sem grande quantidade de aumento vertical e horizontal, minimizando os custos e o trauma cirúrgico. Nos últimos anos, também procuramos minimizar o risco com os implantes dentários para reposição dentária, e um dos pontos que nos concentramos foi o que chamamos de partial extraction therapies (PET). Em muitos casos, quando removemos os dentes, sabemos que haverá a reabsorção óssea (às vezes é grande, às vezes é pequena, mas sabemos que existe). Então, o truque é manter parte da raiz para enganar o organismo (e ele não perceber que o dente foi removido), manter o volume do rebordo, do tecido mole e da estética, e fazendo isso com menos enxertia, não com tanto osso/tecido mole que faríamos há 20 anos. O conceito PET está começando a se propagar e ser aceito, pois já são 100 casos revisados em três anos, e foi aceito para publicação na Clinical Oral Implants Research, uma revista de prestígio. Por isso, espero que mais dentistas comecem a considerar o valor deste conceito.

Sendyk – No longo prazo, técnicas como o dental shield (parte da raiz que fica no alvéolo) podem aumentar as falhas dos implantes dentários?
Salama – Acho que técnicas como essa não aumentam as falhas, os implantes é que falham por diversas razões. Mesmo nos alvéolos de extração, eles podem falhar porque não foram usadas todas as paredes para fazer o travamento. Esta é uma técnica nova, e não acho que o problema seja a técnica, mas a falta de treinamento, já que existe uma curva de aprendizado. Não tenho visto as taxas de sucesso dos implantes nos sítios de extração, mas, se falarmos em complicações, todas têm sido gerenciáveis com exposições internas ou externas do shield. Muitas vezes, utilizo uma broca para reduzir a exposição ou cubro com um retalho ou enxerto de tecido conjuntivo. Pelo contrário, não são estas complicações horríveis que as pessoas acham que vão ocorrer. A técnica necessita de melhor treinamento e entendimento, e isto leva tempo. É a mesma situação de quando começamos a colocar implantes dentários.

Sendyk – A técnica dental shield aumenta a qualidade do tecido vestibular?
Salama – Completamente. Muitas vezes, as pessoas acreditam que não precisam colocar o implante e simplesmente fazem o enxerto – o que é chamado de pontic shield. Então, se você tem medo de colocar o implante, coloque o enxerto no alvéolo e depois de três meses retorne, faça a osteotomia e coloque os implantes, mas em colapso do bundle bone, mantendo o contorno vestibular. Você pode fazer a mesma coisa com os shields em formato de C, que incorporam parte do osso interproximal. Então, você protege a vestibular, mas gostaria de proteger a papila. Assim, mais pesquisas irão surgir. Essa técnica não é nova, nós a publicamos em 2007 para pônticos (a root submergence technique). Temos, pelo menos, dados que são intrigantes e necessitam de mais atenção.

Sendyk – E se não estiver vital, você retira a Endodontia?
Salama – Sim. Mesmo com uma raiz vital, nós a cortamos nao nível ósseo e a cobrimos, permanecendo vital. E isto é algo que tem sido usado desde 1989, com o trabalho de Bowers, que mostra que as raízes mantêm sua vitalidade e não há necrose. É uma transição: existem as pessoas que vão adotar essa técnica muito cedo, ou seja, aquelas que pulam no oceano antes das águas se abrirem, e as que olham e falam: “as águas se abriram, agora eu pulo”. Neste momento, você vê mais pessoas navegando nestas águas, neste conceito.

Sendyk – O caminho tem sido longo. Você lembra quando fizemos o primeiro curso e não podíamos radiografar o implante por medo de perder a osseointegração? 
Salama – Sim, é uma mudança grande. Agora temos fatores bioativos e de crescimento que facilitam e aceleram a cicatrização, temos menos trauma ao paciente e não precisamos de sítios extraorais para enxertia. Sei que no Brasil vocês são líderes em implantes zigomáticos, e isso não existia há 20-25 anos. Mudamos muito neste cenário, é impressionante. O futuro é excitante para a Implantodontia e espero sempre retornar para ver meus amigos no Brasil.

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