Publicado em: 02/03/2018 às 14h03

Peri-implantite: tratamento não cirúrgico funciona?

Marco Bianchini ressalta a importância de devolver a homeostasia aos tecidos peri-implantares.

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A literatura, com suas pesquisas, vem nos ensinando nos últimos anos que o tratamento não cirúrgico não resolve muito os nossos problemas de peri-implantite. Vamos deixar claro aqui que o termo “não cirúrgico” significa a não abertura de um retalho para a descontaminação. Entendemos, então, que esse tratamento consiste em uma descontaminação mecânica (raspagem) e química (irrigação com soro ou outro descontaminante) a campo fechado das roscas do implante que perderam osso e/ou tecidos moles.

A justificativa da maioria dos autores para essa conduta é que é muito difícil descontaminarmos totalmente um implante que sofreu perdas ósseas sem abrirmos um retalho para o acessarmos corretamente. A profundidade em que muitas fixações foram colocadas no osso e a sua localização em regiões da boca de difícil acesso corroboram essa afirmação. Assim, seria preciso um profissional muito habilidoso para que executasse uma correta descontaminação mecânica e química de um implante acometido por peri-implantite, sem o descolamento de um retalho que facilitasse esse acesso.

O problema é que essas afirmações me remontam aos anos 80, em que periodontistas se engalfinhavam na eterna briga (que ainda perdura em algumas escolas) entre a raspagem a campo aberto e a raspagem a campo fechado, para o tratamento de bolsas periodontais. Naquela época, o discurso era o mesmo que se faz hoje no que diz respeito à peri-implantite, em que bolsas profundas e sinuosas não poderiam ser totalmente descontaminadas sem a abertura de um retalho, pois não haveria no mundo alguém com tanta habilidade para acessá-las.

Hoje, sabemos que a habilidade do operador é muito difícil de ser medida. Além disso, a resistência do hospedeiro também varia. Trocando em miúdos, essas afirmações querem dizer que existem muitos dentistas extremamente habilidosos e bem treinados, que são capazes de peripécias malucas e inimagináveis com uma cureta ou bisturi na mão. E também existem pacientes com um metabolismo invejável: basta que proporcionemos uma desorganização do biofilme, que a capacidade regenerativa dessas pessoas mostra resultados impressionantes.

Baseado nessas afirmações, acredito que podemos tomar decisões importantes no tratamento das nossas tão malfadadas peri-implantites. Se você não é um cirurgião ou é um dentista clínico que não trabalha com cirurgia, mas possui certa habilidade manual, você pode, mesmo assim, tentar tratar uma peri-implantite. Para isso, basta realizar uma raspagem criteriosa a campo fechado, utilizando curetas e o próprio ultrassom, tentando descontaminar ao máximo a área. Dessa forma, o controle do biofilme será facilitado por parte do paciente. Isso já traria um benefício enorme para o seu cliente.

A peri-implantite ainda não possui um protocolo de tratamento universal, e suas causas ainda são muito controversas.  A única coisa que se tem certeza mesmo é a mesma que tínhamos nos anos 80 para o tratamento das periodontites: se eu tenho biofilme, com inflamação/infecção, tenho que tentar reduzi-lo e restabelecer o equilíbrio da minha saúde oral. Devolvendo essa homeostasia aos tecidos peri-implantares, iremos obter resultados promissores em muitos de nossos casos, conseguindo manter os implantes saudáveis por mais tempo.

 

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.  (João 14, 12-14)

 

Bibliografia recomendada:

J Periodontol. 2017 Dec 5. doi: 10.1902/jop.2017.170362. [Epub ahead of print] Combination of ultrasonic decontamination, soft tissue curettage, and submucosal air polishing with povidone-iodine application for non-surgical therapy of peri-implantitis: 12 Month clinical outcomes.

Stein JM1,2, Hammächer C2, Michael SS1,3.

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

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