Publicado em: 27/03/2018 às 11h28

Entrevista internacional: Matteo Chiapasco, o mestre da reconstrução

O professor italiano falou sobre as características do seu modelo de trabalho e compartilhou sua visão a respeito de alguns procedimentos adotados nas cirurgias.

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Matteo Chiapasco é autor ou coautor de 14 livros relacionados à Cirurgia Oral e Maxilofacial. (Foto: Panóptica Multimídia)


Com ampla experiência em Cirurgia Oral e Maxilofacial, o italiano Matteo Chiapasco manteve-se focado em cirurgias ortognáticas e de graves defeitos ósseos, como reconstruções decorrentes de tumores, traumas, más-formações congênitas e atrofias severas. Ao longo de 20 anos de atuação, publicou mais de cem artigos em periódicos internacionais e mais de 200 artigos em periódicos italianos. Atualmente, ele lidera a unidade de Cirurgia Oral do Departamento de Ciências Biomédica, Cirúrgica e Oral da Universidade de Milão (Itália) e também faz parte do corpo docente – como professor associado visitante – da Universidade de Loma Linda (Califórnia, Estados Unidos).

 Ainda, é autor ou coautor de 14 livros relacionados à Cirurgia Oral e Maxilofacial, alguns deles publicados em inglês e traduzidos para várias outras línguas, como italiano, espanhol e português.

Conferencista experiente, já esteve em diversos países do mundo ministrando aulas, inclusive no Brasil, quando concedeu uma entrevista à ImplantNewsPerio. Na ocasião, falou sobre as características do seu modelo de trabalho e compartilhou sua visão a respeito de alguns procedimentos adotados nas cirurgias.   

ImplantNewsPerio – Existe muita inspiração vinda da Itália. Você acha que Leonardo da Vinci é uma grande inspiração para todos os dentistas que trabalham com cirurgia?
Matteo Chiapasco – Leonardo da Vinci foi um grande gênio e cientista. Ele não era cirurgião, mas fez algumas das primeiras dissecções para conhecer a anatomia e criar belas pinturas, ainda disponíveis na Itália e em alguns museus, como o do Louvre, em Paris, e outros lugares. Para mim, foi o ideal de pessoa, porque tinha muitos interesses, desde arquitetura, engenharia e design até anatomia e pintura. Ele inspirou gerações e deixou na Itália um legado muito profundo para todos nós.


InPerio – Mesmo sendo experiente, você ainda fica muito estressado quando realiza uma cirurgia?
MC – Não quero parecer arrogante, mas havia muito estresse no começo da minha carreira e nas primeiras cirurgias básicas. Ao longo dos anos, entendo que é como fazer esporte: se você pratica todos os dias, você não fica tão estressado. Eu preparo os casos e, quando opero, estou absolutamente calmo. É claro que existem situações difíceis, mas o melhor a fazer é controlar o estresse, para não criar ansiedade – e ansiedade leva a erros. Para mim, não faz sentido realizar duas cirurgias grandes seguidas. Normalmente, começo com as mais pesadas pela manhã. Também posso ter uma cirurgia longa e depois cirurgias pequenas alternadas com consultas iniciais e controles. Nunca dedico um dia inteiro para fazer cirurgia, a não ser que esteja em cursos ao vivo. 


InPerio – E durante a cirurgia, quantos ajudam?
MC – Muitas das cirurgias parecem simples por dois motivos: primeiro, pela habilidade do cirurgião, e segundo, pela habilidade de quem auxilia. Se o auxiliar não está nos melhores dias, você pode ter muitos problemas. Em cirurgias ambulatoriais, trabalho com uma pessoa para auxiliar e outra para instrumentar, formando um time de três pessoas. Em uma cirurgia um pouco maior, trabalho com dois assistentes e um instrumentador; e para cirurgias grandes, são três assistentes e um instrumentador. Se estivermos fazendo vídeos das cirurgias, teremos mais uma pessoa.


InPerio – O que evitar nas cirurgias de levantamento do seio maxilar? O que você faz antes, durante e depois?
MC – Vou começar pelo “antes”, porque muitos dos erros advêm do planejamento incorreto. Recomendo excluir as patologias. Por exemplo, no caso de sinusite, pode haver sérias complicações. A segunda recomendação é fazer um exame detalhado das condições anatômicas dos seios paranasais. E terceiro, durante a cirurgia, é não correr: ou seja, fazer no seu tempo, porque a grande maioria dos erros ocorre pelo rompimento da membrana, simplesmente porque você está correndo muito. Muitas vezes, a membrana é bastante fina, então é preciso identificar alguns obstáculos anatômicos, como os septos ou outros detalhes que podem interferir no procedimento.

Chiapasco traz muita inspiração vinda da Itália. (Imagem: Shutterstock)


InPerio – Para qual situação, e o que você prefere: blocos de osso ou blocos sintéticos?
MC – Com certeza, blocos autógenos, se eu estiver tratando de um defeito com bloco. Se eu estiver usando osso particulado, podemos discutir os tipos de biomateriais, quando usar a mistura de osso autógeno + biomateriais, quais porcentagens, entre outros aspectos.


InPerio – Sabemos que as primeiras cirurgias são muito difíceis, como fazer o retalho, remover o bloco e suturar. O que o estudante pode fazer para melhorar sua curva de aprendizado?
MC – Na minha universidade, acho minha unidade atípica. Na Itália, tínhamos universidades de Medicina e Odontologia com excelente preparação teórica, mas os estudantes eram expostos muito tarde à prática. Há cerca de dez anos, implantamos um novo programa, no qual os estudantes começam a realizar procedimentos simples no quarto ano, como anestesiar, extrair os dentes e por aí vai. Com bons instrutores, que podem ajudar, e boa progressão para afastar o estresse, tudo vai bem. Nunca diga que o estudante é incompetente, porque você “acaba” com ele dessa forma. Em vez disso, se perceber erros, seja positivo, propondo algumas modificações.


InPerio – Na sua visão, qual é o futuro da regeneração óssea?
MC – O mundo científico hoje está bem conectado em função do acesso às informações. Não somente a Cirurgia, como a Medicina, estão orientadas para os protocolos minimamente invasivos, no sentido de curar as pessoas doentes. Isso significa que na minha área – de Cirurgia Bucomaxilofacial –, a tendência é reduzir a invasividade do procedimento, mas essa substituição dos procedimentos grandes pelos pequenos ainda está em evolução e não haverá um milagre em curto prazo. Todos os esforços devem estar voltados para menos cirurgia e menos enxertos. Porém, não estou falando de cirurgias realizadas por robôs, mas talvez por endoscopia. É sempre bom lembrar que o paciente é um ser humano, e não um caso novo para ser documentado. Por isso, é muito importante ser eficiente e o menos agressivo possível. 
 

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