Publicado em: 06/08/2018 às 09h56

Recobrimento radicular em recessões múltiplas

Fórum clínico: profissionais expõem protocolos de tratamento e as técnicas mais eficientes.

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As recessões radiculares causam sensibilidade e afetam a rotina dos pacientes. (Imagem: Shutterstock)

 

Além do prejuízo estético, as recessões radiculares causam sensibilidade dentinária e afetam hábitos rotineiros dos pacientes. Mas, antes de iniciar o tratamento, é importante identificar o fator desencadeante do problema. Em casos mais agravados, com recessões múltiplas, existem técnicas cirúrgicas para o recobrimento radicular que oferecem resultados positivos peridontalmente e atingem o nível de satisfação do paciente.

A seguir, convidamos alguns profissionais para debater essa temática e expor os protocolos de tratamento e as técnicas mais eficientes que costumam adotar no dia a dia clínico.

 

Ingrid Fernandes Mathias

Mestra e doutoranda em
Odontologia Restauradora –
ICT/Unesp, São José dos Campos.

Mauro Pedrine Santamaria

Especialista em Periodontia, mestre e doutor em Clínica Odontológica – FOP/Unicamp; Professor doutor da disciplina de Periodontia – ICT/Unesp, São José dos Campos.

Dentre as condições odontológicas mais comuns que requerem intervenção e tratamento estão as recessões gengivais. A migração apical da margem gengival e consequente exposição da superfície radicular ao ambiente oral atinge uma grande parcela da população e pode afetar até 100% dos indivíduos acima de 50 anos de idade. Dentre os fatores etiológicos mais comuns estão a escovação praticada de forma traumática e agressiva, e a inflamação causada pelo acúmulo de biofilme. Não incomum, as recessões estão presentes em diversos dentes adjacentes, gerando a necessidade de manejo dos múltiplos defeitos de forma conjugada.

A literatura apresenta diversas técnicas cirúrgicas para o tratamento de recessões gengivais, sendo o retalho posicionado coronariamente associado ao enxerto de tecido conjuntivo a técnica padrão-ouro, com a qual pode ser alcançada mais previsibilidade de recobrimento radicular completo e é observada menor chance de recidiva1. No entanto, essas conclusões, que também foram obtidas por outras revisões sistemáticas, utilizaram dados de estudos que trataram recessões unitárias. As recessões múltiplas são ainda mais desafiadoras, pois nem sempre os elementos dentais incluídos no tratamento apresentam as mesmas condições e, pelo fato da área operada ser maior, uma grande variação anatômica do local pode influenciar no resultado do procedimento.

Como mencionado anteriormente, apesar da literatura apontar que o retalho posicionado coronariamente (CAF) associado ao enxerto de tecido conjuntivo é a técnica mais previsível, diversos desenhos de retalho podem ser classificados dentro do CAF – e não necessariamente esses desenhos de retalhos possuem desempenhos semelhantes. Dentre os desenhos de retalho mais utilizados e mais avaliados pela literatura está o retalho posicionado coronariamente modificado (MCAF)2. Este consiste na realização de um retalho para recobrimento de múltiplas recessões, sem incisões relaxantes e confecções de incisões oblíquas (inclinadas) nas bases das papilas, para criar uma papila cirúrgica que se encaixe perfeitamente no espaço da papila anatômica e, assim, gerar um resultado adequado para pacientes com alta demanda estética. Em um estudo posterior, esse tipo de retalho sem incisões relaxantes foi comparado com o retalho realizado com incisões relaxantes. Os resultados demonstraram que o desenho sem a presença das incisões relaxantes possui maior chance de recobrimento radicular completo devido à preservação da nutrição nas laterais do retalho3.

Outros desenhos de retalhos pouco invasivos foram utilizados para o tratamento de recessões múltiplas. Um deles é o retalho em túnel (TUN)4, que consiste no descolamento da unidade mucoperiosteal sem a confecção de incisões. Para tal, são utilizados instrumentos específicos (tunelizadores ou tunnelling knives) e o tecido é descolado da cortical óssea vestibular. Posteriormente, uma incisão na base do periósteo é realizada para dar maior mobilidade ao retalho. Estudos que utilizaram esse desenho de retalho reportaram bons resultados. No entanto, uma revisão sistemática recente mostrou que, apesar desse retalho apresentar um pós-operatório com menos dor e menos edema, tanto para defeitos de recessões isoladas quanto para múltiplas, o CAF parece ter maior previsibilidade de recobrimento5.

Fica claro que um retalho conservador é importante, porém, diversos fatores podem ter influência sobre o resultado dos procedimentos para recobrimento de recessões múltiplas – um deles é a espessura do tecido gengival. É reportado na literatura que tecidos mais finos do que 0,8 mm na base não atingem 100% de recobrimento radicular6. Dessa forma, técnicas de enxertia utilizando diversos biomateriais têm sido avaliadas na literatura como alternativa ao enxerto de tecido conjuntivo. Introduzida há não muito tempo no mercado, a matriz xenógena 3D de colágeno tem sido avaliada. Em um estudo bastante recente, 485 recessões múltiplas foram tratadas com o retalho posicionado coronariamente e enxerto de tecido conjuntivo ou com o mesmo retalho e matriz de colágeno xenógeno. Nesse estudo, duas hipóteses foram analisadas: a primeira de não inferioridade em relação ao recobrimento, e outra de superioridade em relação ao conforto do paciente. Os autores avaliaram um recobrimento mínimo que o biomaterial deveria apresentar em relação ao enxerto de tecido conjuntivo e com maior conforto (dor pós-operatória). Os resultados mostraram que o enxerto de tecido conjuntivo teve recobrimento radicular estatisticamente superior e que a utilização do biomaterial não teve um comportamento não inferior ao enxerto autógeno. Apesar do melhor conforto reportado pelos pacientes, esse biomaterial produziu resultados inferiores7. Desta forma, outros estudos ainda são necessários para definir o melhor protocolo de tratamento para recessões gengivais múltiplas, no entanto, até o presente momento, o retalho posicionado coronariamente modificado associado ao enxerto de tecido conjuntivo autógeno parece ser o mais indicado.

Outro fator limitante em cerca de 50% dos defeitos de recessão gengival é a presença concomitante de defeitos na superfície dental originados por lesões cervicais não cariosas. O diagnóstico do estado da superfície radicular (presença ou ausência de defeito) e a classificação desse defeito (configuração tridimensional) são fundamentais para o tratamento adequado dos defeitos de recessões unitárias e múltiplas. Em um estudo recente avaliando o tratamento de recessões múltiplas, 40% dos dentes incluídos nos estudos tiveram a junção cemento-esmalte reconstruída com resina composta devido à presença de lesões cervicais concomitantes7. Para tal, o protocolo de restauração parcial parece ser o mais indicado8.

O melhor protocolo terapêutico para as recessões gengivais múltiplas ainda não está definido. Atualmente, o MCAF associado ao enxerto de tecido conjuntivo autógeno parece ser a melhor opção terapêutica.
 

REFERÊNCIAS
1. Chambrone L, Tatakis DN. Periodontal soft tissue root coverage procedures:a systematic review fr om the AAP Regeneration Workshop. J Periodontol 2015;86(2 suppl.):S8-51.
2. Zucchelli G, De Sanctis M. Treatment of multiple recession-type defects in patients with esthetic demands. J Periodontol 2000;71(9):1506-14.
3. Zucchelli G, Mele M, Mazzotti C, Marzadori M, Montebugnoli L, De Sanctis M. Coronally advanced flap with and without vertical releasing incisions for the treatment of multiple gingival recessions: a comparative controlled randomized clinical trial. J Periodontol 2009;80(7):1083-94.
4. Zuhr O, Fickl S, Wachtel H, Bolz W, Hürzeler MB. Covering of gingival recessions with a modified microsurgical tunnel technique: case report. Int J Periodontics Restorative Dent 2007;27(5):457-63.
5. Tavelli L, Barootchi S, Nguyen TVN, Tattan M, Ravidà A, Wang HL. Efficacy of tunnel technique in the treatment of localized and multiple gingival recessions:a systematic review and a meta-analysis. J Periodontol. 2018 May 14. doi: 10.1002/JPER.18-0066.
6. Baldi C, Pini-Prato G, Pagliaro U, Nieri M, Saletta D, Muzzi L et al. Coronally advanced flap procedure for root coverage. Is flap thickness a relevant predictor to achieve root coverage? A 19-case series. J Periodontol 1999;70(9):1077-84.
7. Tonetti MS, Cortellini P, Pellegrini G, Nieri M, Bonaccini D, Allegri M et al. Xenogenic collagen matrix or autologous connective tissue graft as adjunct to coronally advanced flaps for coverage of multiple adjacent gingival recession: randomized trial assessing non-inferiority in root coverage and superiority in oral health-related quality of life. J Clin Periodontol 2018;45(1):78-88.
8. Santamaria MP, Silveira CA, Mathias IF, Neves FLDS, Dos Santos LM, Jardini MAN et al. Treatment of single maxillary gingival recession associated with non-carious cervical lesion: randomized clinical trial comparing connective tissue graft alone to graft plus partial restoration. J Clin Periodontol 2018, Apr 22.

 

João Batista César Neto

Especialista, mestre e doutor em Periodontia – FOP/Unicamp; Especialização em Implantodontia – CFO; Prof. de Periodontia – Fousp.

Marcelo Sirolli Ferreira

Especialista em Periodontia – Cetao; Mestre e doutorando em Periodontia – Fousp.

Ricardo Takiy Sekiguchi

Mestre e doutor em Periodontia – Fousp; Coordenador do curso Cirurgia Plástica Periodontal e Peri-implantar –  SLMandic/SP.


Os desafios que envolvem as cirurgias para recobrimento de recessões gengivais se traduzem principalmente na dificuldade de antever o resultado, ou seja, seu prognóstico e sua previsibilidade. Alguns estudos descreveram importantes fatores limitantes que devem ser observados para conseguir avaliar o potencial máximo de recobrimento de cada caso clínico, diminuindo os riscos de resultados inesperados.

A primeira consideração é que as recessões gengivais múltiplas costumam ser mais desafiadoras do que os defeitos unitários, por apresentarem um campo cirúrgico mais extenso, com variações anatômicas maiores (vestíbulo raso, raízes vestibularizadas, pouca quantidade de tecido queratinizado) e, muitas vezes, a necessidade de uma quantidade maior de tecido a ser enxertado1 (Figura 1).

Figura 1 – Imagem ilustrando recessões gengivais múltiplas.

 

Além disso, é necessário observar fatores relacionados ao paciente. Estudos clínicos controlados demonstraram que o consumo de cigarro pode ser um importante fator limitador em cirurgias para recobrimento radicular8-11. Apesar de não ser uma contraindicação absoluta, os indivíduos fumantes apresentam menor benefício relacionado ao recobrimento radicular em cirurgias de retalho deslocado coronariamente, associado ou não ao enxerto de tecido conjuntivo gengival, quando comparados aos indivíduos não fumantes.

Fatores relacionados à anatomia dentogengival também devem ser levados em consideração. Miller publicou um estudo clássico que definiu que a maior limitação para o tratamento das recessões gengivais é a perda óssea interproximal2. Segundo o autor, a chance de  recobrimento completo só seria possível em casos de ausência de perda óssea interproximal. A espessura dos tecidos também tem chamado a atenção como um fator relacionado ao prognóstico, e um estudo3 sugere que a espessura do retalho menor que 0,8 mm pode resultar em menor recobrimento radicular comparado aos retalhos mais espessos na cirurgia de retalho deslocado coronariamente. Por outro lado, os enxertos de tecido conjuntivo parecem influenciar positivamente, mesmo em retalhos delgados4. O posicionamento dentário também exerce grande influência na previsibilidade de recobrimento radicular. Quanto mais extruída, girovertida ou vestibularizada estiver a raiz, menor a chance de alcançar um recobrimento completo1 (Figuras 2).

Figuras 2 – A. Dente 31 com a raiz vestibularizada. B. Dente 33 girovertido. Ambos demonstrando uma recessão da margem gengival mais severa nestas regiões.

 

Dentre as técnicas cirúrgicas que possibilitam o recobrimento de recessões múltiplas, a que foi descrita por Zucchelli et al6 é bastante utilizada em casos onde a recessão maior está centralizada ou as recessões são da mesma altura. Sua técnica se baseia em um retalho deslocado coronariamente sem a utilização de incisões relaxantes, podendo ser associada ou não a um enxerto de tecido conjuntivo subepitelial (Figuras 3).

 

Figuras 3 – A. Foto inicial das recessões múltiplas. B. Incisões oblíquas de acordo com a técnica descrita por Zucchelli et al. C. Enxerto de tecido conjuntivo estabilizado na região do 23 e 24. D. Pós-operatório imediato. E. Pós-operatório de 30 dias. F. Pós-operatório de 12 meses. Notar a estabilidade dos resultados aos 12 meses.


Um estudo5 comparou a utilização da técnica descrita por Zucchelli et al6, associando enxerto de tecido conjuntivo em um grupo e sem sua associação em outro grupo. Os pacientes que receberam apenas o retalho deslocado coronariamente apresentavam tendência a ter recidiva da recessão com o passar do tempo. Três meses após a cirurgia, 89% dos sítios apresentavam recobrimento radicular completo, porém, aos seis meses este número caiu para 47% dos sítios. Os sítios tratados com deslocamento coronário associado ao enxerto de tecido conjuntivo apresentavam valores de recobrimento completo estáveis aos três e seis meses.

Outra técnica cirúrgica bastante comum para recessões múltiplas é a de túnel, na qual incisões intrassulculares e um retalho de espessura parcial, além da linha mucogengival, garantem um deslocamento coronário sem realizar qualquer incisão em áreas de papila interdental. Esta técnica também pode ser associada a um enxerto de tecido conjuntivo ou outro biomaterial. Por não ter incisões relaxantes, apresenta a limitação de dificultar o preparo da raiz a ser recoberta e também está associada a possíveis hematomas durante o período inicial de cicatrização, por serem realizadas incisões internas mais extensas para conseguir a mobilidade necessária para o deslocamento do retalho (Figuras 4).

Figuras 4 – A. Aspecto inicial do caso mostrando retrações múltiplas amplas no 11 e 21, e menores com aspecto em “V” no 12 e 22. B. Retalho envolvendo a região cirúrgica, estendendo-se também para o 13 e 23. Notar que a fenda na margem gengival torna-se bastante evidente no 12 e 22. C. Matriz colágena (Mucograft , Geistlich – Suíça) utilizada para ganho de espessura e correção dos defeitos em “V”. D. Matriz posicionada no túnel e estabilizada nas extremidades. E. Pós-operatório imediato. F. Pós-operatório de um ano.


O recobrimento radicular de recessões múltiplas após o período de cinco anos tende a ser mais estável em sítios que foram tratados com retalho deslocado coronariamente associado ao enxerto de tecido conjuntivo7. Os sítios tratados apenas com retalho deslocado coronariamente tendem a apresentar recidiva parcial da recessão após os primeiros seis meses.

Diversas técnicas cirúrgicas podem apresentar bons resultados e, em algumas situações, podem ainda ser combinadas e adaptadas à anatomia da região (Figuras 5). O importante é que um bom diagnóstico seja realizado e que os fatores limitadores sejam identificados. Se possível, esses fatores devem ser controlados ou modificados. Além disso, no momento da execução da cirurgia, os princípios fundamentais devem ser respeitados, ou seja, realização da cirurgia com mínimo trauma, elevação cuidadosa do retalho, remoção precisa da tensão muscular, suturas adequadas que adaptem bem os tecidos e que não exerçam compressão excessiva. Se necessário, a combinação de fios de diversas espessuras sobre magnificação deve ser adotada. Assim, o maior potencial de cobertura radicular pode ser atingido. Em relação à manutenção dos resultados em longo prazo, o fator etiológico primário (o mais comum nesse tipo de caso é o trauma mecânico) deve ser identificado e controlado antes do procedimento cirúrgico. Caso contrário, a chance de se obter resultados estáveis torna-se baixíssima, independentemente da técnica cirúrgica adotada.

Figuras 5 – A. Aspecto inicial do caso mostrando retrações múltiplas superiores com maior severidade nos caninos. B. Retalho envolvendo uma das regiões tratadas. Notar proeminência vestibular do 23, que ocorria de maneira semelhante no 13. C. Proeminência vestibular do 13. D. Correção da vestibularização do 13 pela realização de odontoplastia na face vestibular. E. Enxerto de tecido conjuntivo estabilizado com suturas simples. F. Pós-operatório imediato. G. Pós-operatório de dois anos.


REFERÊNCIAS
1. Zucchelli G, Testori T, De Sanctis M. Clinical and anatomical factors limiting treatment outcomes of gingival recession: a new method to predetermine the line of root coverage. J Periodontol 2006;77(4):714-21.
2. Miller Jr. PD. A classification of marginal tissue recession. Int J Periodontics Restorative Dent 1985;5(2):8-13.
3. Hwang D, Wang HL. Flap thickness as a predictor of root coverage: a systematic review. J Periodontol 2006;77(10):1625-34.
4. Garces-McIntyre T, Carbonell JM, Vallcorba L, Santos A, Valles C, Nart J. Coronal advanced flap in combination with a connective tissue graft. Is the thickness of the flap a predictor for root coverage? A prospective clinical study. J Clin Periodontol 2017;44(9):933-40.
5. Cairo F, Cortellini P, Pilloni A, Nieri M, Cincinelli S, Amunni F et al. Clinical efficacy of coronally advanced flap with or without connective tissue graft for the treatment of multiple adjacent gingival recessions in the aesthetic area. A randomized controlled clinical trial. J Clin Periodontol 2016;43:849-56.
6. Zucchelli G, De Sanctis M. Treatment of multiple recession type defects in patients with esthetic demands. J Periodontol 2000;71:1506-14.
7. Pini-Prato G, Franceschi D, Cairo F, Nieri M, Rotundo R. Classification of dental surface defects in areas of gingival recession. J Periodontol 2010;81:885-90.
8. Silva CO, Sallum AW, de Lima AF, Tatakis DN. Coronally positioned flap for root coverage: poorer outcomes in smokers. J Periodontol 2006;77(1):81-7.
9. Martins AG, Andia DC, Sallum AW, Sallum EA, Casati MZ, Nociti Júnior FH. Smoking may affect root coverage outcome: a prospective clinical study in humans. J Periodontol 2004;75(4):586-91.
10. Silva CO, de Lima AF, Sallum AW, Tatakis DN. Coronally positioned flap for root coverage in smokers and non-smokers: stability of outcomes between 6 months and 2 years. J Periodontol 2007;78(9):1702-7.
11. Andia DC, Martins AG, Casati MZ, Sallum EA, Nociti FH. Root coverage outcome may be affected by heavy smoking: a 2-year follow-up study. J Periodontol 2008;79(4):647-53.

 

Sandro Bittencourt

Especialista em Periodontia – ABO/BA; Mestre e doutor em Clínica Odontológica – FOP/Unicamp; Professor adjunto do curso de Odontologia, professor do aperfeiçoamento em Periodontia e professor do mestrado em Implantodontia e Periodontia – Bahiana; Professor da especialização em Periodontia – ABO/BA.

O recobrimento radicular consiste no tratamento cirúrgico das recessões gengivais, que são caracterizadas por um posicionamento apical da margem gengival em relação à junção cemento-esmalte, decorrente da perda de fibras conjuntivas de proteção e sustentação acompanhada de reabsorção da crista óssea alveolar e necrose de tecido cementário. O recobrimento radicular através de técnicas previsíveis e bom resultado estético é um dos objetivos atuais da cirurgia plástica periodontal.

Os fatores etiológicos mais conhecidos são o trauma causado pela escovação e a inflamação gengival decorrente do acúmulo do biofilme dental. As recessões gengivais resultantes de técnica de escovação inadequada (traumática) estão geralmente presentes em pacientes com bom controle do biofilme dental e gengiva clinicamente saudável. Normalmente, apenas a face vestibular é acometida. Já as recessões gengivais com a presença da doença periodontal inflamatória são encontradas em todas as faces do dente.

Embora o recobrimento radicular tenha se tornado mais previsível, a aparência estética de áreas tratadas cirurgicamente ainda é frequentemente contrastante com o tecido adjacente. Assim, é importante observar o perfil psicossocial do paciente que será submetido a tais procedimentos.

O paciente não colaborador deve ter seus hábitos de higiene oral modificados, melhorando seu controle de biofilme e evitando a escovação traumatogênica. A recessão gengival pode ser um sinal visível de desordens psicológicas, e pacientes que apresentam autoinjúrias devem ser monitorados.

Pacientes permanentemente insatisfeitos devem ser adequadamente avaliados, especialmente se a área de recessão está situada em zona estética. Um fator a considerar é que demandas estéticas em recessões de classe I rasas, mesmo com alta previsibilidade, são mais difíceis de satisfazer o anseio do paciente.

Quando a queixa for estética, o completo recobrimento é o objetivo. Além disso, mesmo quando o recobrimento é completamente obtido, o resultado pode não ser satisfatório no caso de excessiva espessura ou pobre mimetismo com a área. Assim, uma questão que deve ser levada em conta é a avaliação própria do paciente, que deve julgar o sucesso dos resultados dos procedimentos de recobrimento. Seria importante aplicar uma escala para avaliar a satisfação frente aos resultados dos procedimentos de recobrimento radicular3.

As principais indicações são por motivo estético e/ou para tratamento da hipersensibilidade dentinária. É necessário que, antes da intervenção para tratamento das recessões, as condições que as causam sejam removidas. O tratamento das recessões gengivais visa não só restabelecer a normalidade da posição gengival, mas também evitar o aparecimento de hipersensibilidade dentinária cervical, riscos de cáries radiculares, lesões de abrasão e erosão, e alteração da topografia marginal, favorecendo o acúmulo de placa bacteriana, dificultando a higienização e provocando um efeito antiestético para o paciente.

Existem diversas técnicas cirúrgicas periodontais que promovem o recobrimento de raízes desnudas. Os principais objetivos destas técnicas são: reduzir a sensibilidade radicular, melhorar a estética, corrigir defeitos pós-remoção de cárie e/ou abrasões e corrigir defeitos mucogengivais que impossibilitem o adequado controle de placa. As principais e mais conhecidas são o retalho semilunar posicionado coronalmente e o retalho reposicionado coronalmente, associados ou não a enxertos de tecido conjuntivo subepitelial.

Todas as técnicas, quando bem indicadas e executadas, apresentam boa previsibilidade e margem de sucesso. Entretanto, de acordo com os resultados obtidos na literatura, a técnica do enxerto conjuntivo subepitelial tem se mostrado bastante confiável e com altos índices de sucesso em relação ao retalho reposicionado, sendo considerada o padrão-ouro devido à alta previsibilidade para cobertura de raiz e aumento da faixa de tecido queratinizado, sem falar da estabilidade a longo prazo, quando o enxerto conjuntivo é comparado com outros procedimentos. Outra vantagem é proporcionar homogeneidade de cor entre a área enxertada e os tecidos adjacentes.

Incisões verticais relaxantes são frequentemente usadas para favorecer o alongamento coronal do retalho, diminuindo sua tensão, que pode interferir com a estabilidade inicial da margem gengival e prejudicar o potencial de recobrimento. No entanto, esse tipo de incisão está associado à ocorrência de cicatrizes fibrosas e prejudica a nutrição do retalho/enxerto pela ruptura dos vasos sanguíneos adjacentes ao retalho, além de produzir mais edema pós-operatório. Por isso, sempre que possível, as incisões verticais devem ser evitadas. Quando essas incisões forem necessárias, sugerimos que sejam semicirculares e biseladas, o que diminui o risco do aparecimento das cicatrizes.

Para obter sucesso nos procedimentos de recobrimento radicular, o enxerto deve ter de 1,5 mm a 2 mm de espessura8. Entretanto, em um estudo comparativo controlado9, observou-se que o enxerto de espessura de 1 mm melhora o prognóstico da cicatrização. Uma espessura maior aumenta o risco da deiscência do retalho e, consequentemente, de exposição do enxerto. Quando isso acontece, rapidamente o enxerto é recoberto por tecido epitelial e sua cor se aproxima a do palato do paciente, produzindo uma discromia que altera a harmonia estética do tecido mucogengival9. Nesse estudo, os autores observaram a insatisfação estética dos pacientes envolvidos, na medida em que aumentava a espessura do enxerto utilizado. Autores2 corroboraram a informação sobre a espessura ideal do enxerto. Todos os pacientes receberam enxertos com espessura padronizada de 1 mm e relataram  satisfação com o resultado estético durante todo o período experimental (seis meses). Em uma revisão sistemática7, observou-se que existe associação entre a espessura do tecido e o índice de recobrimento radicular, no entanto, o número de estudos é limitado para definir qual seria a espessura mais adequada. Assim, o uso de uma espessura adequada do enxerto pode melhorar os resultados estéticos, minimizando o aumento na espessura gengival na área tratada.

Recentemente, os procedimentos minimamente invasivos foram incorporados aos procedimentos clínicos periodontais, favorecendo diferentes abordagens terapêuticas. Essa filosofia cirúrgica inclui a possibilidade da manipulação delicada dos tecidos, a redução do trauma cirúrgico e a diminuição do desconforto trans e pós-operatório.

Embora o enxerto de conjuntivo alcance alto êxito e previsibilidade, este procedimento requer um segundo local cirúrgico para obter tecido da área doadora. A complicação mais comum associada à obtenção do enxerto conjuntivo do palato é o desconforto pós-operatório. Estudos têm comprovado que a manutenção do periósteo sobre o tecido ósseo do palato é uma importante medida para reduzir a morbidade pós-operatória. A técnica de obtenção do enxerto conjuntivo com o cabo de bisturi de lâminas paralelas permite obter um enxerto conjuntivo uniforme com a preservação do periósteo.

Outra complicação que pode ocorrer é a hemorragia no palato, que pode ser evitada com o conhecimento da anatomia do palato e aplicação de boas técnicas de sutura. Além dessas complicações relacionadas ao sítio doador do enxerto conjuntivo, existe a possibilidade do paciente não apresentar área doadora suficiente.

 

REFERÊNCIAS
1. Bittencourt S, Del Peloso Ribeiro E, Sallum EA, Nociti Jr. FH, Casati MZ. Surgical microscope may enhance root coverage with subepithelial connective tissue graft: a randomized-controlled clinical trial. J Periodontol 2012;83(6):721-30.
2. Bittencourt S, Del Peloso Ribeiro E, Sallum EA, Sallum AW, Nociti Jr. FH, Casati MZ. Comparative 6-mounth clinical study of a semilunar coronally positioned flap and subepithelial connective tissue graft for the treatment of gingival recession. J Periodontol 2006;77(2):174-81.
3. Bouchard P, Malet J, Borghetti A. Decision-making in aesthetics: root coverage revisited. Periodontol 2000 2001;27:97-120.
4. Campos GV, Bittencourt S, Sallum AW, Nociti Jr. FH, Sallum EA, Casati MZ. Achieving primary closure and enhancing aesthetic with periodontal microsurgery. Pract Proced Aesthet Dent 2006;18(7):449-54.
5. Campos GV, Tumenas I. Microcirurgia plástica periodontal: uma alternativa biológica e estética no recobrimento de raízes. Rev Assoc Paul Cir Dent 1998;52(4):319-23.
6. Chambrone L, Chambrone D, Pustiglioni FE, Chambrone LA, Lima LA. Can subepithelial connective tissue grafts be considered the gold standard procedure in the treatment of Miller Class I and II recession-type defects? J Dent 2008 Sep;36(9):659-71.
7. Hwang D, Wang HL. Flap thickness as a predictor of root coverage: a systematic review. J Periodontol 2006;77(10):1625-34.
8. Nelson SW. Th e subpedicle connective tissue graft: a bilaminar reconstructive procedure for the coverage of denuded root surfaces. J Periodontol 1987;58(2):95-102.
9. Zucchelli G, Amore C, Sforza NM, Montebugnoli L, De Sanctis M. Bilaminar techniques for the treatment of recession-type defects. A comparative clinical study. J Clin Periodontol 2003;30:862-70.
10. Zucchelli G, De Sanctis M. Treatment of multiple recession-type defects in patients with esthetic demands. J Periodontol 2000;71(9):1506-14.

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