Publicado em: 06/08/2018 às 10h10

Uso de materiais xenógenos para enxertos de tecido mole

Elcio Marcantonio Junior aponta que resultados promissores também têm sido apresentados com os materiais xenógenos.

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A estética dos tecidos periodontais, seja sobre dentes ou sobre implantes, é de grande importância. Muitas vezes, é necessário realizar enxertos de tecido mole para recobrimentos radiculares, aumento de volume ou mudança de fenótipos gengivais1. O principal objetivo dos procedimentos mucogengivais é a manutenção ou criação de uma faixa de gengiva queratinizada, que promoverá a saúde do periodonto e prevenirá futuras perdas ósseas e de tecidos moles, ou restaurar tecidos perdidos, ou ainda melhorar a estética do paciente2.

São observadas diferentes opiniões a respeito da necessidade da presença de tecido queratinizado para a manutenção da saúde periodontal. Há autores que afirmam sua necesssidade3 e outros que alegam que a presença de tecido queratinizado não é imprescindível para a saúde periodontal4.

O procedimento de enxerto de tecido conjuntivo é amplamente conhecido e com grandes índices de sucesso. Entretanto, causa desconforto ao paciente e morbidade, pela necessidade de um segundo sítio operatório. Frente a esta situação, diferentes materiais podem ser utilizados para substituir o tecido conjuntivo, como as matrizes de colágeno tipo I e III com origem da derme suína (Mucograft e Mucoderm), que apresentam lenta degradação de até 12 semanas2.

Em um estudo pré-clínico em cães6, avaliou-se o ganho volumétrico e a estabilidade dos tecidos periodontais em dentes que receberam enxerto de tecido conjuntivo ou Mucoderm (Biora, Straumann – Basel, Suíça). Após dez meses, observou-se que, em termos de estabilidade e ganho de espessura, o material xenógeno não foi estatisticamente inferior ao enxerto conjuntivo. Em um estudo clínico randomizado que avaliou o enxerto de tecido conjuntivo e o enxerto xenógeno por meio de ultrassom, em pacientes que tiveram implantes instalados em áreas estéticas em diferentes momentos (três meses antes de instalar o implante ou três meses após a instalação do implante)8, foram observados ganhos em espessura nos dois tipos de enxerto, entretanto, os melhores resultados foram obtidos em pacientes que receberam enxerto de tecido conjuntivo em um ano de acompanhamento.

Também foi realizado um estudo comparando as técnicas de regeneração após exodontias de dentes anteriores com instalação de implantes e provisórios imediatos em alvéolos comprometidos7. Foram avaliados a espessura gengival e o índice de recessão gengival em pacientes que não receberam enxerto de tecidos moles e pacientes que receberam enxerto com tecido conjuntivo autógeno ou materiais xenógenos (Mucograft , Geistlich Pharma AG – Wolhusen, Suíça). Os autores concluíram que a utilização de tecido conjuntivo preveniu a migração da margem peri-implantar e promoveu melhor contorno e maior espessura dos tecidos moles na região vestibular dos implantes.

Apesar destes materiais apresentarem taxas de reabsorção a longo prazo, eles são uma opção nos casos em que o paciente não quer ou não pode se submeter à cirurgia de enxerto autógeno, ou ainda se a área para receber o enxerto é muito extensa e há dificuldade de obter um enxerto autógeno tão extenso. Em um estudo em pacientes desdentados totais que receberam implantes8, foram avaliados a estabilidade e o ganho de tecido mole com enxerto gengival livre e enxerto xenógeno. Foram observados bons resultados com o material xenógeno que, apesar de apresentar maior retração que o enxerto livre, manteve estabilidade suficiente para a manutenção de uma adequada zona queratinizada ao redor dos implantes em um acompanhamento de cinco anos, além de apresentar menor morbidade e tempo de cirurgia.

O enxerto de tecido conjuntivo autógeno continua sendo o padrão-ouro para as regenerações teciduais, entretanto, resultados promissores têm sido apresentados com os materiais xenógenos.
 

REFERÊNCIAS
1. Greenwell H, Fiorellini J, Giannobile W, Off enbacher S, Salkin L, Townsend C et al. Oral reconstructive and corrective considerations in periodontal therapy. J Periodontol 2005;76(9):1588-60.
2. Fu JH, Su CY, Wang HL. Esthetic soft tissue management for teeth and implants. J Evid Base Dent Pract 2012;12(3):129-42.
3. Lang NP, Loe H. Th e relationship between the width of keratinized gingiva and gingival health. J Periodontol 1972;43(10):623-7.
4. Kennedy JE, Bird WC, Palcanis KG, Dorfman HS. A longitudinal evaluation of varying widths of att ached gingiva. J Clin Periodontol 1985;12(8):667-75.
5. Rothamel D, Benner M, Fienitz T, Happe A, Kreppel M, Nickenig H-J et al. Biodegradation patt ern and tissue integration of native and cross-linked porcine collagen soft tissue augmentation matrices – an experimental study in the rat. Head Face Med 2014;27(10):10.
6. Schmitt CM, Matt a RE, Moest T, Humann J, Gammel L, Neukam FW et al. Soft tissue volume alterations aft er connective tissue graft ing at teeth: the subepithelial autologous connective tissue graft versus a porcine collagen matrix – a pre-clinical volumetric analysis. J Clin Periodontol 2016;43(7):609-17.
7. Frizzera F, Freitas RM, Muñoz-Chaves OF, Cabral G, Shibli JA, Marcantonio Jr. E. Impact of soft tissue graft s to reduce periimplant alterations aft er immediate implant placement and provisionalization in compromised sockets. Int J Periodontics Restorative Dent 2018;20.
8. Puzio M, Blaszczyszyna A, Hadzik J, Dominiak M. Ultrasound assessment of soft tissue augmentation around implants in the aesthetic zone using a connective tissue graft and xenogeneic collagen matrix – 1 year randomized follow up. Ann Anat 2018;217:128-41.
9. Schmitt CM, Moest T, Lutz R, Wehrhan F, Neukam FW, Schlegel KA. Long-term outcomes aft er vestibuloplasty with a porcine collagen matrix (Mucograft ) versus the free gingival graft: a comparative prospective clinical trial. Clin Oral Implants Res 2016;27(11):125-33.

 

Elcio Marcantonio Junior

Professor titular das disciplinas de Periodontia e Implantodontia, e coordenador do curso de especialização em Implantodontia – FOAr/Unesp; Professor colaborador do Ilapeo.

 

 

 

 

 


Colaboração:

Mariana Schaffer Brackmann

Graduada em Odontologia e especialista em CTBMF – Universidade Federal do Paraná; Mestre em Odontologia, área de concentração Implantodontia – Ilapeo; Doutoranda em Odontologia, área de concentração em Implantodontia – FOAr/Unesp.

 

 

 

 

 

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