Publicado em: 06/08/2018 às 10h30

Um olho nas urnas e o outro nas contas

A indecisão política impacta diretamente no recuo de investimentos por parte dos clientes e dos dentistas na criação e ampliação de negócios.

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O resultado das eleições pode influenciar nas finanças dos consultórios​ odontológicos. (Imagem: Shutterstock)

 

Por Andressa Trindade


A crise política brasileira tem gerado incerteza e insegurança em todos os setores da economia, inclusive na área da Saúde. Não é para menos, pois a lista de fatores negativos não para de crescer: impeachment, esquemas de corrupção, desemprego, greves que afetam o funcionamento do País, violência crescente, prisão de um ex-presidente da república etc. Em um cenário como esse, é natural ter receio de ousar, arriscar e empreender ou mesmo ver as agendas do consultório cada vez mais vazias.

Convidamos dois especialistas em Economia para entender como o resultado das eleições pode influenciar nas finanças dos consultórios. Será que a mudança no comando do Brasil vai melhorar ou agravar a situação?
 

O QUE ESPERAR DOS PRÓXIMOS MESES

Para Flavio Alves Ribeiro, que além de consultor financeiro e coach da PenseFar é cirurgião-dentista e protesista, a indecisão política impacta diretamente no recuo de investimentos por parte dos clientes e dos dentistas na criação e ampliação de negócios. “Porém, o momento político atual tem um grande ponto positivo: estimulará dentistas a desenvolver seu lado gestor não somente nos negócios, mas na carreira como um todo”, afirma.

Segundo explica João Francisco de Aguiar, especialista em mercado financeiro do Mackenzie Alphaville, a explosão do déficit orçamentário – situação que perdura até hoje – é uma herança político-econômica negativa que precisa ser administrada. “É preciso, no mínimo, fazer com que os números voltem aos níveis de 2014, quando o superávit primário era cerca de 1% do PIB [produto interno bruto]”, diz. Outros pontos que o especialista cita como prioridade são a continuação da redução de gastos operacionais, as privatizações e as concessões, visando recuperar a capacidade de investimentos do setor público e a eficiência da economia. “O novo governo deve persistir na reforma da previdência, já que os gastos nessa área têm sido altos e resultam na expansão do déficit primário, além de comprometer a capacidade de investimento do setor público e a taxa de crescimento da economia. Essas medidas vão impactar no desenvolvimento econômico e, pelo menos em 2019, vão manter o alto desemprego”, detalha Aguiar.

Caso um governo com visão populista assuma, o especialista do Mackenzie aponta para a possibilidade de prorrogação das medidas de ajuste. “A crise será ainda pior, dado o crescimento sem controle da dívida pública, que pode superar os 90% do PIB nos próximos quatro ou cinco anos e, assim, chegar a uma situação dramática de dificuldade de rolagem da dívida interna”, explica, ressaltando que o mais provável é que algo seja feito, mas é difícil saber o quanto estará na direção correta. Para ele, nada de muito positivo vai ocorrer de hoje até as eleições. “Creio que os candidatos vão se esforçar para não se comprometerem com pontos que possam levar à perda de votos”.
 

OTIMISTA, PESSIMISTA OU APENAS REALISTA?

Existe um tímido clima positivo que toma parte da economia atualmente, mas ele é frágil. “Entendo que esse relativo otimismo foi obra do cenário político, azeitado pelos bons humores da Copa do Mundo”, opina Aguiar. Já Ribeiro, olhando com os olhos de um profissional da Odontologia, acredita que os dentistas devam se preocupar em conquistar o cliente, que terá que escolher muito bem com quem investirá seu dinheiro em saúde bucal.

Em termos práticos, isso significa que o profissional de Odontologia deve assumir a posição de gestor do negócio e não apenas de executor dos serviços bucais. Vale ter atenção redobrada com a qualidade do atendimento e a percepção do serviço “dentro e fora da boca” – ou seja, tudo o que o cliente observa e experimenta desde o primeiro contato com o dentista até o momento em que conclui seu plano de tratamento.

Mas, acima de tudo, é preciso ser realista e lidar com o presente. O consultor da PenseFar sugere o mindset de tirar o “S” da palavra crise e transformá-la em crie. “Refiro-me a criar mecanismos de ampliação de carteiras de clientes, ter uma precificação adequada dos serviços oferecidos e evitar ao máximo perder vendas. Por isso, destaco a importância do poderoso momento chamado negociação”, aconselha. É preciso ser flexível para que um tratamento não seja perdido somente por uma questão de condições de pagamento.

Aguiar lembra que a melhor alternativa é manter os pés no chão. “Não vejo razão para muito otimismo em 2018, mas é possível ter um clima positivo contido, afinal o PIB deve  crescer cerca de 1,5% depois de uma queda de quase 8% no triênio 2015-2017”, completa. Para ele, o cenário dos próximos dois anos não é muito favorável, pois medidas duras serão necessárias para a correção da rota, em razão dos desvios provocados pelos programas do governo anterior. “Com base na minha experiência, um cenário conservador seria mais provável, tendo como principais características o baixo crescimento, a pouca recuperação da economia, dos empregos e salários, e o dólar relativamente mais valorizado”, justifica.
 

IMAGINA O DÓLAR

Historicamente, o Brasil sempre foi dependente da economia internacional – o que, segundo Aguiar, é provado pelo fato de que na maioria dos anos nossas contas externas apresentaram déficit em conta corrente, variando em torno de -1% a -4% do PIB (R$ 6,6 trilhões, aproximadamente). “Esse déficit mostra que o País tem recebido poupanças de fora, algo típico de uma nação emergente. Qualquer crise mais forte no exterior leva à fuga de capitais e à queda do real, em consequência o dólar sobe. Isso vem ocorrendo em 2018, principalmente, em função da política dos Estados Unidos”, explica. A previsão do especialista e professor do Mackenzie é que o real vai continuar mais desvalorizado neste ano, o dólar segue em elevação e o Banco Central vai resistir à elevação mais forte de juros, devendo continuar sua política em busca de redução das excessivas flutuações do real em torno do dólar.

Nos consultórios, o impacto é sentido na compra de insumos e recursos tecnológicos, cujos preços variam em função do dólar. “No entanto, mais importante do que essas eventuais oscilações especulativas do dólar, acredito que existe um grande desafio para o cirurgião-dentista: desenhar seu modelo de negócio com base em gestão de custos, planejamento anual e avaliações amparadas em impacto percentual. A maioria dos profissionais de Odontologia ainda tem um pensamento financeiro mensal, o que é arriscado para a condução de qualquer negócio”, finaliza.

 

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