Publicado em: 06/08/2018 às 10h45

Precisamos falar sobre biomateriais

Em sua primeira coluna, Sérgio Luís Scombatti destaca os aspectos biológicos, clínicos, de manufatura e mercadológicos dos biomateriais.

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Sérgio Luís Scombatti estreia um espaço dedicado à discussão sobre a aplicabilidade clínica dos biomateriais.


Biomaterial pode ser definido como “qualquer substância, excluindo os fármacos, ou combinação de substâncias, sintética ou natural quanto à origem, que pode ser usada por qualquer período de tempo como tratamento, total ou parcial, aumento ou reposição de qualquer tecido, órgão ou função do corpo”1. Seu desenvolvimento e produção envolvem diversos campos da Ciência, tais como Medicina, Odontologia, Biologia, Física, Química e Engenharia de Materiais e de Tecidos. Os avanços na manufatura de biomateriais odontológicos têm sido particularmente intensos nas últimas duas décadas, com o lançamento de novos produtos e aperfeiçoamento de outros já existentes.

Assim, em nossas áreas de atuação na Odontologia – Periodontia e Implantodontia –, o uso crescente de biomateriais tem contribuído para grandes avanços nas técnicas e nos tratamentos, com a vantagem de agregá-los em procedimentos menos invasivos para os pacientes, já que muitas vezes substituem material biológico autógeno. Um grande exemplo é o próprio implante odontológico, cuja biocompatibilidade permite uma alta porcentagem de sucesso clínico. Como extensão do conceito, preservações e reconstruções de tecidos duros e moles da cavidade oral empregando biomateriais são realizadas com maior previsibilidade.

Nesse contexto, membranas biológicas de diversas composições (PTFEe, colágenas e sintéticas), utilizadas como barreiras mecânicas, têm permitido a seletividade tecidual essencial para o sucesso de técnicas de regeneração tecidual ou óssea guiada (Figuras 1 a 4). Substitutos ósseos naturais ou sintéticos possibilitam a preservação de alvéolos pós-extração, bem como a reconstrução de rebordos reabsorvidos, permitindo a instalação de implantes na posição tridimensional ideal para uma reabilitação protética que proporcione função e estética ideais. Malhas de titânio e blocos ósseos xenógenos têm sido cada vez mais utilizados em casos extremos, nos quais até há pouco tempo o enxerto autógeno era a única solução possível (muitas vezes com o uso de fontes extraorais e necessidade de tratamento hospitalar), diminuindo expressivamente a morbidade e a aceitação do tratamento por parte do paciente. Novos substitutos mucosos de origem animal são desenvolvidos para suprir as necessidades de reposição, aumento e melhoria qualitativa dos tecidos moles da cavidade oral (Figuras 5 a 8), permitindo modular um dos aspectos mais importantes de qualquer tratamento odontológico: o biotipo periodontal ou peri-implantar.

Figura 1 – Vista vestibular da exodontia atraumática. Há uma fissura na tábua óssea vestibular.

 

Figura 2 – Preenchimento do alvéolo com hidroxiapatita sintética nanocristalina na forma de pasta.

 

Figura 3 – Adaptação e fixação de membrana colágena absorvível para técnica de regeneração óssea guiada (ROG).

 

Figura 4 – Corte tomográfico seis meses após a ROG, mostrando a neoformação óssea obtida.

 

Figura 5 – Aspecto pré-operatório mostrando a falta de mucosa queratinizada na face vestibular dos implantes.

 

Figura 6 – Leito preparado para enxerto xenógeno.

 

Figura 7 – Substituto mucoso de origem suína suturado.

 

Figura 8 – Aspecto pós-operatório 45 dias após a cirurgia, mostrando formação de tecido queratinizado.

 

Então, atualmente, os biomateriais já são os substitutos perfeitos para os diferentes tecidos autógenos? Infelizmente não. Ainda existem diversas limitações biológicas a serem superadas. Alguns exemplos: as membranas deveriam ser muito mais amigáveis aos tecidos moles e ter maior capacidade antibacteriana, minimizando o risco de exposição e de contaminação, caso expostas; os substitutos ósseos de custo acessível deveriam ir além da osteocondução (a quase totalidade dos materiais disponíveis é osteocondutor, ou seja, serve apenas como arcabouço para o reparo ósseo, não atuando para induzir a maior neoformação óssea); os substitutos mucosos deveriam proporcionar maior aumento volumétrico, quando necessário, e ter manuseio mais próximo dos enxertos autógenos, não limitando sua utilização em determinadas técnicas cirúrgicas. São desafios que aos poucos serão vencidos por uma indústria cada vez mais capacitada, no exterior e no Brasil. 

E por falar em indústria, devemos entendê-la como grande parceira dos profissionais nessa busca pela excelência de resultados. Entretanto, parceria não pressupõe cumplicidade, principalmente no meio científico. A academia tem um importante papel nesse processo, avaliando criticamente os produtos e processos por meio de estudos independentes, apontando falhas, corrigindo percursos e mostrando bons resultados. A interação entre empresa e universidade, quando realizada dentro de princípios éticos, é extremamente saudável para ambas as partes, resultando em novas fontes de financiamento de pesquisas e no desenvolvimento de produtos de qualidade para o mercado.

Enfim, o momento atual é bastante promissor para o emprego de biomateriais em Periodontia e Implantodontia, e esta coluna chega para abordar seus aspectos biológicos, clínicos, de manufatura, mercadológicos, dentre outros que interessem ao leitor. Para tal, disponibilizamos o e-mail redacao@vmcom.com.br para que você mande suas dúvidas, sugestões de temas e compartilhem experiências clínicas. Tenho a convicção de que precisamos cada vez mais entender e falar sobre os biomateriais.


REFERÊNCIA
1. Clinical applications of biomaterials. NIH Consensus Statement 1982;4(5):1-19.

 

Sérgio Luís Scombatti

Doutor em Periodontia pela FOB/USP; Livre-docente em Periodontia e coordenador dos cursos de aperfeiçoamento em implantes e reconstrução tecidual, e da especialização, mestrado e doutorado em Periodontia da Forp/USP.

 
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