Publicado em: 06/08/2018 às 10h55

Entrevista internacional: José Valdívia e a multiplicação das lições de Brånemark

Em conversa com Guaracilei Maciel Vidigal Júnior, o chileno falou sobre o desenvolvimento de programas sociais em seu país e revelou uma lamentação do pai da Osseointegração.

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Parque Bicentenário, em Santiago do Chile. (Imagem: Shutterstock)


José Valdívia Osório fez parte da equipe que abriu as portas do Chile para a Implantodontia. Sem medo de enfrentar os incrédulos, disseminou a Osseointegração em seu país, tratou milhares de pacientes, buscou incessantemente os melhores recursos e as melhores terapias para pacientes de baixa renda e se tornou amigo do Brånemark. Depois de 30 anos dedicados à Implantodontia, chegou a hora de retribuir à população chilena tudo o que conquistou. Seguindo os passos do mestre sueco, há cinco anos ele desenvolve projetos de abrangência nacional para a reabilitação oral de pacientes com recursos econômicos escassos. “Aquele aperto de mão, aquele abraço e um ‘obrigado, doutor’ pagam todo o esforço”, afirma.

Ao longo dessas três décadas de atuação na Odontologia, Osório se dividiu entre a vida acadêmica, o atendimento clínico e o engajamento em projetos sociais. Graduado pela Universidade do Chile, foi professor titular de Implantodontia e Reabilitação Oral na Universidade Autônoma do Chile, e possui os títulos de especialista e mestre em Implantodontia Bucomaxilofacial e Reabilitação Oral. Também teve uma passagem pelo Brasil, quando fez o doutorado em Odontologia, área de concentração Implantodontia, pela Universidade São Leopoldo Mandic.

A pedido da ImplantNewsPerio, o brasileiro Guaracilei Maciel Vidigal Júnior, pós-doutor em Periodontia e professor adjunto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), conduziu uma entrevista com o chileno, na qual Osório falou sobre o desenvolvimento de programas sociais e sobre a estrutura do sistema educacional do Chile em relação à formação e ao controle de qualidade dos profissionais de Odontologia.


Guaracilei Maciel Vidigal Júnior – O senhor já acumula 30 anos de carreira. Como o tratamento protético era feito no início da sua trajetória e como foi o seu começo nessa área?
José Valdívia Osório
– Eu e alguns colegas fomos à Gotemburgo, na Suécia, em 1987 para buscar base – afinal, foi lá onde tudo nasceu. Aprendemos sobre o tratamento de mandíbulas edêntulas diretamente com os autores da técnica e fomos pioneiros no Chile. Tivemos muito trabalho para convencer toda a comunidade odontológica de que aquilo era uma revolução na Odontologia e que tinha chegado para ficar, pois, ao contrário de outras técnicas que apareceram e desapareceram, a Osseointegração tornou-se conhecida quando já estava madura, com evidências científicas esmagadoras e incontestáveis.

Dois anos depois, conheci pessoalmente o Prof. Brånemark, com quem estabeleci uma grande amizade. Fui convidado em inúmeras oportunidades para ir ao seu hospital na Suécia. Além disso, tive a honra de recebê-lo no meu país em eventos científicos e simpósios sobre Osseointegração. Minha atividade na universidade me levou a implementar essa especialidade e, junto com outros colegas, fundamos a Sociedade de Implantologia Oral do Chile. Começamos os primeiros programas de treinamento universitário para profissionais que entraram nessa disciplina. Foi um período de muito aprendizado, no qual viajamos para diferentes lugares do mundo para adquirir conhecimento.


Vidigal Jr. – Atualmente, como você enxerga o desenvolvimento dessa área no seu país?
Osório – Hoje, a Implantodontia no Chile é altamente consolidada. Os programas de especialização são ministrados em várias universidades estaduais e privadas, sendo uma das áreas da Odontologia que teve grande desenvolvimento. Sobre o tratamento de maxilas edêntulas em específico, passamos a aplicação em todos os tipos de rebordos dentários parciais e unitários. Começaram a aparecer também as grandes demandas estéticas e, por isso, tivemos que experimentar algumas soluções em problemas de reabsorções extremas e, depois, requisitos de alta estética, como de contornos e de perfis de emergência. Acredito que agora a Implantodontia goza de uma boa saúde e temos elevado a prática clínica para um nível de excelência que o mundo inteiro e toda a nossa profissão têm valorizado.


Vidigal Jr. – O seu trabalho também tem um cunho social. O que você pode nos contar sobre isso?
Osório
– Sinto-me afortunado por ter conhecido o Prof. Brånemark e estive com ele 30 dias antes do seu falecimento. Ele me disse: “Parto com uma dor na alma. Minha descoberta da Osseointegração tem servido a muitas pessoas no mundo, porém, não vejo meu sonho se tornar realidade, de que ela chegue aos pacientes mais carentes”. Brånemark foi um grande promotor de projetos sociais, como o Instituto Brånemark, em Bauru (SP), e isso sempre me comoveu. Hoje, com mais de 60 anos de idade e 30 anos de experiência em Implantodontia, tenho toda a minha vida dedicada a projetos sociais.

Em 2012, fui convocado pelo Ministério da Saúde do Chile para colaborar em um projeto que incorpora a Implantodontia nos serviços públicos e em hospitais de alta complexidade em diferentes regiões do país. O projeto, que está sendo desenvolvido e aplicado, foi realizado em conjunto com outros quatro especialistas, representantes das universidades do setor público, hospitais, iniciativa privada e da Sociedade Científica da Implantologia. Mas, não concordei totalmente com a solução que demos naquele momento. Os governos dos nossos países não são ricos e, por isso, foi aprovado um projeto que inclui dois implantes mandibulares para dar retenção a uma overdenture. Estava claro que era uma solução parcial, pois não resolve de forma integral o problema do desdentado total mandibular. Todo cirurgião-dentista que se preze sabe como fazer uma boa prótese com estabilidade e retenção no maxilar superior. Porém, o mesmo não ocorre na mandíbula, especialmente naqueles pacientes de longa data, dos quais todo o processo alveolar desapareceu e temos apenas um osso basal plano. Foi para esses pacientes que o Prof. Brånemark desenvolveu, juntamente com um grupo de excelentes profissionais brasileiros, o protocolo de Bauru.


Vidigal Jr. – Qual protocolo você adota atualmente para o paciente social?
Osório
– Hoje, no caso de pacientes com recursos muito escassos, optamos pela reabilitação com protocolos de 24 horas. Procuramos no mundo inteiro materiais e soluções viáveis e eficientes, que resultassem em um tratamento de qualidade e de alto desempenho para dignificar o desdentado total mandibular. Paramos de utilizar estruturas metálicas coladas e fundidas, pois o procedimento laboratorial representa 50% do custo de uma reabilitação protética tipo protocolo. 

Há um ano usamos arcos mandibulares pré-fabricados com resina epóxi. As vantagens são: preço baixo, rapidez para colocar os dentes imediatamente após a cirurgia e um ajuste passivo de 100%. Como os cilindros de titânio são cimentados nessas estruturas e se conformam à configuração final da estrutura em vez de ser polida e colada em metal, eu mesmo a moldo.

Esse tem sido meu maior propósito nos últimos cinco anos. Toda essa documentação está sendo observada e reúne resultados de acompanhamento radiográfico, clínico e de eficiência de mastigação em todos os aspectos, especialmente para demonstrar a viabilidade ao longo do tempo. A mudança para fibra de resina resultou na diminuição do custo e nos permite finalizar o procedimento em oito horas. Estou muito animado com esse projeto porque não há maior retribuição para um profissional do que a gratidão, especialmente das pessoas com recursos limitados. Aquele aperto de mão, aquele abraço e um “obrigado, doutor” pagam todo o esforço.


Vidigal Jr. – No Chile, como funciona o acesso da população ao sistema de saúde odontológico?
Osório
– No Chile, 85% da população é atendida em serviços públicos e só 15% tem acesso a clínicas particulares. Então, estamos falando das grandes diferenças que existem na acessibilidade. O meu programa foi escolhido pelo Ministério da Saúde para dar bolsas a alunos e profissionais contratados pelo serviço público para se especializarem comigo, assim, eles reproduzem essas mesmas técnicas em seus próprios serviços. Em 2019, começa a valer plenamente no Chile a lei das especialidades médicas e odontológicas. O objetivo é defender os direitos dos pacientes a ter acesso a bons cuidados odontológicos. Então, o profissional que coloca implantes terá que ser credenciado e, na medida do possível, ter um diploma universitário de um programa universitário credenciado, e não emitido por qualquer instituição. No Chile, há uma única comissão nacional de credenciamento para melhorar o padrão de qualidade do ensino superior e, principalmente, do quarto nível (o de especializações).


Vidigal Jr. – Após receber essa certificação, o especialista passa por algum tipo de controle periódico ou de atualização?
Osório
– Sim, há o credenciamento perante os organismos estatais da especialidade. Muitos se formam como especialistas, se inscrevem e se registram como prestadores nas suas especialidades, o que tem validade de sete anos. Depois desse período, o credenciamento vence e deve-se refazer todos os processos de renovação. A verificação é feita a partir da quantidade de horas de cursos de treinamento realizados na área de atualização, dedicação à atividade de ensino universitário ou o profissional será submetido a uma prova realizada por especialistas para verificar se ainda possui o domínio dos conceitos atualizados. Aliás, todas as profissões estão se preparando para isso e todos os programas de pós-graduação tiveram que se registrar ou alterar seus decretos, resoluções e conteúdos para fazer da educação superior não algo comercial, mas uma realidade totalmente acadêmica. No Chile, serão exigidas duas mil horas de programa, sendo assim, todos os programas de meio período ou modulares desaparecerão. Está determinado que eles devem ser contínuos, isto é, ter no mínimo 22 horas por semana.
 

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