Publicado em: 26/09/2018 às 14h30

Metas de ouro: um profissional bem formado faz a diferença

Você já pensou de que forma o ensino de pós-graduação em Odontologia vem sendo monitorado e melhorado?

  • Imprimir
  • Indique a um amigo
A Capes é a responsável pelo acompanhamento, incentivo e avaliação dos cursos. (Imagem: Shutterstock)


Por Andressa Trindade

 

Para que um curso, seja ele qual for, consiga chegar aos objetivos traçados de ensino, é preciso avaliar e acompanhar de perto todos os aspectos relacionados ao seu sucesso. Não é diferente no universo da pós-graduação odontológica brasileira, tanto das universidades públicas quanto privadas. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – fundação vinculada ao Ministério da Educação do Brasil (MEC) – é a responsável por esse acompanhamento, incentivo e avaliação, atuando na expansão e consolidação da pós-graduação stricto sensu em todos os estados do País.

Atualmente, a avaliação é quadrienal (a mais recente foi divulgada em meados de 2017 e engloba o período de 2013–2016) e baseada em cinco quesitos: proposta do programa, corpo docente, corpo discente, produção intelectual e inserção social. As notas vão de 1 a 7 e, nessa escala, a nota máxima representa o status de excelência de nível internacional, enquanto as notas 1 e 2 indicam que os cursos em questão serão descredenciados. Ou seja, quem já está inscrito obtém o diploma ao final do curso, porém, caso a instituição receba novos alunos, estes não terão direito ao diploma com validade nacional. O que se observa é que as universidades já providenciam o fechamento dos cursos com nota baixa mesmo antes da decisão da Capes ser publicada no Diário Oficial, o que pode ocorrer até um ano após o julgamento.

O sistema avaliativo é realizado em dois momentos distintos por uma comissão formada por 31 professores consultores, o coordenador de área e dois coordenadores adjuntos. A relatoria para análise de programa é feita em dupla por consultores, porém, todos os dados são amplamente discutidos com relatores e sem a presença de representantes da instituição avaliada. Ao final da discussão, existe uma votação e todas as notas são emitidas.

Com a proposta de falar sobre os investimentos nos cursos de pós-graduação para alcançar notas altas na avaliação da Capes, a ImplantNewsPerio entrou em contato com a coordenadoria de pós-graduação de faculdades públicas e privadas de Odontologia, que obtiveram conceito de 4 a 7 na última avaliação. Todas as instituições públicas aceitaram participar da reportagem. Entre as particulares, apenas a equipe da PUCRS aceitou participar da discussão.

Distribuição das notas atribuídas aos programas de pós-graduação acadêmicos da área de Odontologia nos triênios 2007–2009 e 2010–2012, e no quadriênio 2013–2016. (Fonte: Capes)

 

FOCO NA EXCELÊNCIA

Segundo José Roberto Cortelli, coordenador geral do doutorado em Odontologia da Universidade de Taubaté (Unitau), as últimas avaliações da Capes mostram que, em linhas gerais, os programas de pós-graduação na área odontológica apresentam uma curva ascendente nos quesitos nota de avaliação. “Todavia, há uma indicação clara da Capes de que os programas que já apresentam maturidade acadêmica devem agora buscar uma internacionalização maior, enviando docentes e discentes para os centros de excelência acadêmica e de pesquisa no exterior e promovendo a recepção de talentos internacionais em suas instituições de ensino”, observa, acrescentando que cada entidade de ensino deve estabelecer diretrizes para que o conhecimento gerado se torne acessível à comunidade.

Para Elcio Marcantonio Jr., coordenador do curso de especialização de Implantodontia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, e membro da comissão avaliadora da Capes, os cursos de pós-graduação em Odontologia já apresentam notas muito boas em relação ao sistema brasileiro como um todo. “Cursos que ainda não possuem uma avaliação satisfatória devem investir na integração aluno-professor, melhorando seus indicadores de produção científica e técnica”, afirma.

Para Tatiana Pereira Cenci, coordenadora geral da pós-graduação em Odontologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), e Cinthia Pereira Machado Tabchoury, coordenadora geral do programa de pós-graduação da Faculdade de Odontologia da Universidade de Campinas (FOP/Unicamp), o planejamento estratégico é um ponto importante e que merece atenção em toda a dinâmica da Capes.

“Em minha visão, falta um bom planejamento estratégico, tanto do programa de pós-graduação quanto da instituição de ensino a qual está vinculado, englobando aspectos que vão desde a prospecção de como melhorar suas atividades de ensino, pesquisa, inserção social, internacionalização, até o estabelecimento de metas concretas e objetivas para cumprir os critérios determinados pela Capes para atingir os conceitos de excelência”, opina Tatiana.

Além dessa organização prévia, Cinthia considera relevante também as ações de apoio e suporte, tanto financeiro quanto administrativo, e de reconhecimento das atuações e conquistas dos programas. “Em acréscimo, é fundamental ter um líder no grupo de docentes permanente do programa, que pode ser o coordenador ou não. Inclusive, esse docente líder e o coordenador podem e devem ter perfis distintos de liderança”, conclui. Tatiana destaca ainda o fator humano envolvido na avaliação. De acordo com ela, é necessário desenvolver políticas para captar discentes de alto nível e para formar recursos humanos capazes de trabalhar em pesquisa e desenvolvimento de forma altamente profissional e contextualizada com as necessidades brasileiras e globais.

 

Notas de programas acadêmicos da área de Odontologia no quadriênio 2013–2016. (Fonte: Capes)

 

APRIMORAMENTO CONSTANTE

Quando questionados sobre a efetividade da classificação da Capes, os coordenadores entrevistados dividem as opiniões. Cassiano Kuchenbecker Rösing, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, tem uma visão otimista. “Acredito no sistema de avaliação e tenho certeza de que ele tem sido capaz de destacar as qualidades dos programas de pós-graduação em Odontologia do País”, comenta. Para José Cortelli, da Unitau, o processo de avaliação adota uma sistemática clara e bem definida na pós-graduação da área odontológica, mas o que de fato chama a atenção do profissional é o fator evolução. “Esse processo de avaliação se mostra dinâmico e foi se moldando às demandas internacionais ao longo do tempo”, expõe. Marcantonio Jr. ressalta que a avaliação é considerada um modelo fora do Brasil. “O comitê de Odontologia tem sido elogiado pela Capes por sua seriedade e competência. Os quesitos da avaliação são amplamente discutidos em várias reuniões de coordenadores e demais membros da comunidade, principalmente na SBPqO (Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica)”, destaca, ao observar que, embora não seja o intuito da avaliação ranquear cursos, ela dá uma boa noção dos programas que estão atingindo os objetivos propostos pela área.

Já Tatiana ressalta que o sistema de avaliação começa cada vez mais a olhar para indicadores de impacto e qualitativos, e menos para a quantidade de material produzido – o que, segundo ela, também parece ser uma tendência internacional. “Entretanto, como todo sistema, existem falhas. No Brasil, sempre há um viés avaliativo de acordo com os interesses e entendimentos dos participantes no conselho acadêmico da área. Idealmente, o sistema deveria ser menos suscetível a qualquer tipo de viés”, esclarece.

No que se refere diretamente à Implantodontia, segundo Cortelli, por ser considerada uma especialidade ainda “jovem” em termos de pós-graduação strictu sensu, esta área tem buscado conciliar os avanços tecnológicos, principalmente nos biomateriais, com o ensino e a pesquisa. “O aprimoramento desta prática pode elevar o ensino da especialidade em relação à pós-graduação brasileira. Um fato a ser relembrado é que em muitos programas a Implantodontia não representa uma subárea isolada, por isso acompanha o avanço e as adequações do programa como um todo”, observa. Rösing, da UFRGS, enxerga que a Implantodontia é uma área que ainda carece do reconhecimento da importância de produzir e divulgar conhecimento de qualidade. “Assim, a publicação de artigos é fundamental para atingir cada vez mais o reconhecimento internacional. A Odontologia brasileira tem sido muito bem-sucedida em divulgar trabalhos de qualidade, mas essa é uma tarefa contínua”, alerta.

Na Unesp/Araraquara, a dinâmica tem sido focada no incentivo aos projetos que deem mais visibilidade e contribuam para a área. “Entendo que o maior objetivo da pós-graduação seja a formação do aluno. Desta maneira, temos incentivado o intercâmbio no exterior, a participação em eventos científicos, a execução de projetos mais ambiciosos e a produção técnica e científica. Também temos trabalhado no estímulo à parte prática, pois entendemos que o professor deva ser completo”, explica Marcantonio Jr.

Para Tatiana, antes de falar sobre Implantodontia, é preciso pensar na pós-graduação stricto sensu como um todo. “Pensar só em especialidades não é muito lógico, uma vez que as habilidades a serem desenvolvidas são as mesmas, independentemente da especialidade odontológica. Isto é, os egressos devem saber avaliar criticamente situações e textos; ser capazes de delinear, conduzir e interpretar os resultados de diferentes tipos de estudos; saber trabalhar e orientar sua prática com base em sólida evidência científica; ser capazes de se comunicar com eficiência, tanto na forma escrita como na forma falada; e, sobretudo, ser capazes de produzir, translacionar e transmitir conhecimento de forma a causar impacto na sociedade”, destaca.

Já na opinião de Maria Martha Campos, coordenadora do programa de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a visão do todo deve levar em conta o olhar científico. “Como para todas as áreas da Odontologia, o ensino será melhor na medida em que a pesquisa for melhor. Só podemos alcançar o sucesso desejado empregando a Odontologia baseada em evidências. É isso que fazemos”, expõe.
 

Variação das notas atribuídas aos programas de pós-graduação acadêmicos da área de Odontologia no quadriênio 2013–2016. (Fonte: Capes)

 

INCENTIVO É O PONTO-CHAVE

Em qualquer âmbito educacional, sabemos o quanto é preciso investir para colher os frutos de uma boa formação. Mas, no caso das universidades públicas, como driblar a crescente carência de recursos? “Dando estímulos e reconhecendo o bom trabalho feito pelos professores. Muitas vezes, esse retorno não é apenas financeiro. Ele pode surgir sob forma de apoio e com uma boa estrutura institucional que mostre a valorização do docente. A universidade pública tem vários atrativos para os bons professores, mas precisa explorá-los melhor”, pontua Cinthia.

A capacidade intelectual também é um ponto levantado por Rösing. “As universidades públicas sempre foram a referência na produção do conhecimento no Brasil. Apesar da falta de investimento, não tenho dúvida de que a produção mais qualificada do País sempre foi feita no sistema público. Esperamos que os governos futuros se lembrem disso e reparem todo o mal realizado até hoje pelo corte de investimentos em pesquisa”, expõe. Já para Marcantonio Jr., a principal estratégia é definir o perfil do professor que o departamento precisa, estabelecer boas bancas examinadoras e dar liberdade para o trabalho – assim, os melhores sempre serão contratados.

No caso das universidades particulares, a atração de talentos é o quesito-chave para buscar o sucesso acadêmico. Para Maria Martha, da PUCRS, o foco é a promoção de condições ideais para a condução de pesquisa, ensino e extensão em nível de excelência. Porém, para Cortelli, há muitos outros pontos a serem explorados. “Destaco oportunidades como oferecer maior estabilidade empregatícia para o docente, infraestrutura adequada para a realização de atividades de ensino e pesquisa, salários compatíveis com o que o mercado oferece e definição de planos de carreira”, conclui.

 

  • Imprimir
  • Indique a um amigo