Publicado em: 26/09/2018 às 14h36

Cinco perguntas para Celestino Nóbrega

Professor da Universidade Case Western, em Cleveland (EUA), o ortodontista é um dos brasileiros em destaque no cenário odontológico mundial.

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O ortodontista Celestino Nóbrega é um dos brasileiros em destaque no cenário odontológico mundial. 


Por João de Andrade Neto

 

Dividindo suas atividades entre Brasil e Estados Unidos, o ortodontista Celestino Nóbrega é um dos brasileiros em destaque no cenário odontológico mundial. Enquanto coordena os cursos de especialização em Ortodontia da Ortogeo, que fica na bela cidade de São José dos Campos, no interior paulista, ele também é professor da Universidade Case Western (em Cleveland, Estados Unidos) e program leader do Programa Internacional de Ortodontia da Universidade de Nova York – no qual direciona cirurgiões-dentistas do mundo todo que buscam aprimoramento profissional.

Apaixonado por tecnologia, Nóbrega desenvolveu diversos sistemas de braquetes autoligados e recursos para aceleração do movimento dentário, inclusive foi pioneiro ao lançar um livro sobre o assunto.
 

1. Como os alinhadores vêm mudando a Ortodontia? Qual o papel da Ortodontia Digital no trabalho do ortodontista?
A Ortodontia passou por interessantes saltos tecnológicos desde a sua concepção, há mais de um século. Estes saltos foram viabilizados por novos processos de fabricação, tal como a sinterização. A utilização dos alinhadores estéticos como uma alternativa terapêutica alcançou uma dimensão sem precedentes, parte disto por conta de dois fatores: a inegável praticidade e a repulsa da maior parte dos pacientes ao tratamento ortodôntico com braquetes e fios ortodônticos, que são desconfortáveis e pouco práticos.

A nova geração de softwares dedicados ao planejamento de alinhadores estéticos já apresenta ferramentas que completarão lacunas, como o envelopamento das imagens adquiridas por escaneamento com as tomografias em 3D, ou mesmo com as fotografias da face do paciente também em 3D. A introdução dos alinhadores estéticos como recurso terapêutico representa uma porta de entrada ao “mundo ortodôntico digital”, no qual o profissional é apresentado à tecnologia de impressão em 3D, que transformará a dinâmica do consultório.


2. O que há de mais recente nas pesquisas sobre aceleração do movimento dentário?
Com a intenção de acelerar a movimentação dentária, tanto estímulos físicos como farmacológicos são aplicados e estudados por diversos autores. Entretanto, ambos podem oferecer efeitos colaterais, como dor e reabsorção radicular severa.

Algumas modalidades de terapia têm sido reportadas como potencialmente capazes de acelerar ou facilitar a movimentação ortodôntica – e elas podem ser classificadas de acordo com o estímulo que primariamente causará o efeito: físico ou químico. Mas, para desencanto geral, as pesquisas suportadas por metodologias consistentes apontam para a ineficácia de quaisquer métodos propostos. A afirmação de que o ortodontista pode acelerar o movimento ortodôntico ainda não passa de uma mera suposição. Obviamente, a especialidade necessita de pesquisas mais aprofundadas para que sejam criados protocolos confiáveis baseados em pesquisas clínicas consistentes, do ponto de vista metodológico.

Eu tenho me envolvido com este tópico há mais de dez anos. A boa notícia é que pode haver uma luz no final do túnel. Porém, serão necessários mais três ou quatro anos para expor as conclusões. Se quisermos suportar nossas futuras decisões sobre o real rigor científico, devemos nos preparar para ambos os desfechos, positivo ou negativo.


3. Como você vê o uso atual dos braquetes autoligados?
Por volta de 2004, uma confusão foi instaurada por conta do agressivo marketing que acompanhou a introdução dos acessórios autoligantes. Embora hoje todos saibam que há dois tipos distintos de sistemas autoligantes (passivo e interativo), e que há vantagens e desvantagens em cada um deles, na época isto não era claro.

A deficiência da aplicação dos torques, que compromete a condução e a conclusão do tratamento ortodôntico, hoje é associada aos sistemas passivos. Graças a elucidativas publicações, diversos autores concluíram que os sistemas interativos são muito mais eficientes para que a expressão dos torques ocorra. É importante salientar que, até mesmo os acessórios convencionais, considerando-se esta finalidade, são mais eficientes do que os autoligantes passivos.

A partir do desenvolvimento do sistema autoligante interativo, foi possível combinar vantagens do ativo e do passivo. Os acessórios interativos devem apresentar a habilidade de agir ativamente com fios mais calibrosos e passivamente com fios de calibres mais finos.

Recentemente, foi lançado no mercado um sistema denominado Complete Clinical Orthodontics (CCO), composto por acessórios interativos que contam com uma prescrição específi ca e inerente a esta tecnologia, não utilizando exatamente as prescrições antigas elaboradas para sistemas de braquetes convencionais.


4. Vemos que a Ortodontia no Brasil sofre um processo de barateamento. Isso acontece no mundo todo?
Não necessariamente, pois os mercados são diferentes. A verdade é que todos os produtos e equipamentos despejados no mercado ortodôntico têm como alvo os norte-americanos. Ortodontistas de todos os outros países precisam se adaptar aos produtos. Nos Estados Unidos, a margem de lucro dos ortodontistas tem declinado nos últimos dez anos. Há duas soluções para isso: o incremento no preço final ao consumidor ou a diminuição dos custos. A nova geração de ortodontistas norte-americanos prefere aceitar ofertas de emprego de grandes empresas que gerenciam redes de clínicas ortodônticas, em vez de se aventurar no estabelecimento de um novo e arriscado negócio próprio. Afinal, o ortodontista ingressa no mercado carregando uma dívida que pode variar entre US$ 500 e 700 mil, além de ter que investir mais algumas centenas de milhares de dólares no próprio consultório.


5. Os ortodontistas e os implantodontistas já conseguiram se integrar da forma adequada para a realização de trabalhos multidisciplinares?
Não com a abrangência que ambas as especialidades merecem. Poucos profissionais passam por um processo de formação, onde pontos importantes são expostos e esclarecidos. O planejamento reverso, onde inicialmente é programado o posicionamento de eventuais implantes para, posteriormente, determinar os objetivos de tratamento ortodôntico, é parte fundamental da formação de ambos os especialistas. Ainda não há a abrangência necessária oferecida pelo acesso às ferramentas digitais, como tomografia computorizada de feixe cônico, escaneamento digital e impressão de guias para posicionamento de implantes.

 

 

 

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