Publicado em: 26/09/2018 às 15h06

Interferência estética da erupção passiva e das alterações esqueléticas

Nos últimos anos, tem sido reportada a incidência de perda do ponto de contato interproximal entre as restaurações sobre implantes e os dentes.

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As reabilitações implantossuportadas têm sido empregadas rotineiramente na clínica odontológica, principalmente para substituir elementos dentais perdidos ou ausentes em área estética. Entretanto, como em qualquer procedimento terapêutico, também apresentam complicações mecânicas e biológicas.

As doenças peri-implantares e os problemas com as restaurações protéticas são frequentemente relatados na literatura, mas, nos últimos anos, também têm sido reportadas a incidência de perda do ponto de contato interproximal entre as restaurações sobre implantes e os dentes, assim como a erupção dos elementos dentais adjacentes à restauração implantossuportada, resultando na posição infraoclusal destas restaurações2,4.

A perda do ponto de contato entre a prótese sobre implante e os elementos adjacentes foi reportada em até 43% dos casos e tem relação com o envelhecimento do indivíduo. Além de aspectos estéticos, a ausência do ponto de contato pode ser deletéria para as estruturas periodontais e peri-implantares, principalmente pela impactação alimentar. Complementarmente, a erupção passiva dos elementos dentais influencia as modificações horizontais (diastemas) e verticais (ápico-coronária) em dentes adjacentes e implantes unitários, sobretudo na região anterior de maxila.

Indivíduos com perfil facial longo e o gênero (masculino ou feminino) também afetam sua direção e velocidade. Os crescimentos facial e dentoalveolar não cessam, continuando fisiologicamente através dos anos1, e isso vai de encontro a dados observados em adultos jovens que apresentam alto grau de erupção dentária dos elementos adjacentes e implantes unitários. Por essa razão, até recomendavam – erroneamente – postergar a instalação de implantes na região estética para a segunda década da vida do paciente. Embora lento e reduzido, o crescimento se torna relevante frente à referência fixa como o implante que, por não apresentar ligamento periodontal, não acompanha a migração e/ou erupção dental. Observa-se ainda que a atuação do crescimento e o desenvolvimento facial evidenciam a infraoclusão da restauração implantossuportada e os diastemas entre o dente natural adjacente e a restauração (Figuras 1 e 2).
 

Figuras 1 – A. Aspecto clínico de uma paciente do gênero feminino com 22 anos de idade, respectivamente, inicial e 18 meses após enxerto em bloco autógeno, além das subsequentes radiografias periapicais aos seis, 12 e 120 meses de acompanhamento. B. Visão frontal aos 60 meses e aos 120 meses, evidenciando diastema entre o implante e os elementos 11 e 22.

 

Figuras 2 – Aspecto clínico de reabilitação unitária, respectivamente, após dois anos e 15 anos de controle, depois do posicionamento infraoclusal da restauração implantossuportada do elemento 11.

 

Nem todos apresentam a mesma taxa de alterações na posição espacial do implante em relação aos dentes adjacentes. Além disso, o potencial de crescimento pode ser influenciado por diversos hormônios, como o do crescimento e os paratormônios, que continuam sendo liberados por toda a vida, mesmo sendo observada uma curva de liberação descendente. As mulheres apresentam variações hormonais relacionadas à idade, início da menarca, número de gestações e início da menopausa. Todas estas alterações afetam o desenvolvimento e as modificações faciais e corporais, e não são vistas com a mesma intensidade nos homens3. Clinicamente, os resultados dessas modificações, se não corrigidos, podem provocar desconforto estético e alterações biológicas por impacção alimentar e ineficiência mastigatória dos implantes.

Finalmente, a inserção precoce de implantes pode agir como foco de má-oclusão. Embora modificações estéticas sejam mais notadas pelos profissionais, a perda do contato proximal também incomoda o paciente devido à retenção de resíduos alimentares. A correção depende do grau de alteração e localização da prótese. Entende-se que próteses parafusadas facilitam ajustes ou até mesmo a troca da coroa5.

 

REFERÊNCIAS
1. Aarts BE, Convens J, Bronkhorst EM, Kuijpers-Jagtman AM, Fudalej PS. Cessation of facial growth in subjects with short, average, and long facial types – Implications for the timing of implant placement. J Craniomaxillofac Surg 2015;43(10):2106-11.
2. Andersson B, Bergenblock S, Fürst B, Jemt T. Long-term function of single-implant restorations: a 17 to 19-year follow-up study on implant infr apposition related to the shape of the face and patients' satisfaction. Clin Implant Dent Relat Res 2013;15(4):471-80.
3. Jemt T, Ahlberg G, Henriksson K, Bondevik O. Tooth movements adjacent to single-implant restorations after more than 15 years of follow-up. Int J Prosthodont 2007;20(6):626-32.
4. Ott oni JMP, d’Avila S, Castro GC, Frizzera F, Dayube U, Shibli JA. Acompanhamento longitudinal de implantes: o que devemos esperar com o passar dos anos. In: Frizerra F, Shibli JA, Marcantonio Jr. E. Estética Integrada em Periodontia e Implantodontia. p.386-417. Nova Odessa: Editora Napoleão Quintessence Brasil.
5. Zitzmann NU, Arnold D, Ball J, Brusco D, Triaca A, Verna C. Treatment strategies for infraoccluded dental implants. J Prosthet Dent 2015;113(3):169-74.

 

Jamil A. Shibli

Professor titular do Programa de pós-graduação em Odontologia, áreas de Implantodontia e Periodontia – Universidade Guarulhos (UnG); Livre-docente do Depto. de Cirurgia e Traumatologia BMF e Periodontia – Forp/USP; Doutor, mestre e especialista em Periodontia – FOAr-Unesp.

 

 

Colaboração:

Eduardo Groisman

Graduação em Odontologia – Universidade da Grande Rio (Unigranrio); Mestrando em Periodontia – Universidade Guarulhos (UnG).

 

 

Ulisses Dayube

Doutorando em Implantodontia – Universidade Guarulhos (UnG); Mestre em Implantodontia – SLMandic; Especialista em Implantodontia – ABO; Especialista em Prótese Dentária – Universidade da Grande Rio (Unigranrio); Coordenador das especializações em Implantodontia – Gapo/Funorte, Contagem (MG).

 
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