Publicado em: 26/09/2018 às 15h45

Lyndon Cooper, um cientista nato

Em conversa com Paulo Rossetti, o professor norte-americano fala sobre mecanismos biológicos e sua ação na regeneração tecidual.

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Millenium Park, em Chicago. (Imagem: Shutterstock)

 

Quando o professor norte-americano Lyndon Cooper ingressou na Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York, ele pensava em seguir carreira como cirurgião-dentista. Mas, tudo mudou ao ter contato com um outro lado da profissão: a área de pesquisa. Com base nessa escolha – que, inclusive, o fez se interessar ainda mais pela Implantodontia – ele destaca a importância de aplicar na prática clínica o conhecimento biológico e mais integral do corpo humano.

Atualmente, Cooper é chefe do Depto. de Biologia Oral da Faculdade de Odontologia da Universidade de Illinois, em Chicago (Estados Unidos). Ele se tornou uma das maiores referências internacionais quando o assunto é inovação e pesquisa translacional, unindo conhecimentos clínicos e científicos para oferecer as melhores soluções aos pacientes.

Orgulhoso de todos os alunos que já mentorou, desde graduandos até doutorandos, ele conta a Paulo Henrique Orlato Rossetti, o editor-científico de Implantodontia da revista ImplantNewsPerio, sobre a estrutura oferecida pelas universidades norte-americanas para formar profissionais de Odontologia cada vez mais capacitados. Nesta entrevista, Cooper também mostra seu ponto de vista sobre a importância de conhecer os mecanismos biológicos e sua ação na regeneração tecidual.
 

Lyndon Cooper

Paulo Rossetti – O seu histórico profissional é impressionante. Como foi a sua trajetória na área de pesquisa?
Lyndon Cooper – Como muitos jovens, ingressei no curso de Odontologia pensando em ser dentista, no final da década de 1970. Ao longo do caminho, percebi que as perguntas às quais não temos respostas são mais interessantes do que os problemas para os quais eu tinha as soluções. Então, no início dos anos 1980, entrei para o Centro Médico da Universidade de Rochester, onde fiz um treinamento formal em Prótese Dentária e pós-graduação em Bioquímica. Quando pensei que estava pronto para me tornar um acadêmico ou pesquisador, encontrei a oportunidade para ingressar no Instituto Nacional de Saúde (NIH), onde, durante dois anos, abandonei completamente a prática odontológica e me concentrei somente na Ciência. Ter a oportunidade de trabalhar entre 70 e 90 horas por semana em um laboratório, sem me preocupar com paciente, foi muito importante e me deu uma base muito forte.

Depois disso, em 1993, finalmente fui para a Universidade da Carolina do Norte. Lá, defini uma meta: me tornar não só um cientista melhor, mas um cientista clínico. Nos últimos 25 anos, fomos capazes de realizar pesquisas básicas, muitas vezes relacionadas à prática odontológica. Também fizemos pesquisa clínica, nas quais observávamos problemas tipicamente relacionados aos implantes dentários.

 

Paulo Henrique 
Orlato Rossetti

Rossetti – Como foi a sua mudança da Carolina do Norte para a Universidade de Illinois, em Chicago?
Cooper – Na Carolina do Norte, eu era responsável por administrar um departamento inteiro, além de um programa de graduação, ao qual depois me dediquei exclusivamente. Administrar o programa de graduação foi o trabalho mais recompensador que já tive, principalmente por ficar com os alunos todos os dias.

Mas, as coisas mudam e oportunidades nos são apresentadas. Fui convidado para ser pesquisador na Universidade de Illinois, em Chicago. E, em vez de me concentrar em residência, clínica médica e especialização, agora a mentoria que ofereço é para estudantes mais novos, para que desenvolvam suas habilidades clínicas e se tornem jovens pesquisadores. Esse é um contato bastante envolvente em nível pessoal. Também, é muito mais responsabilidade para o orçamento de instituições de pesquisa. Ainda assim, é o mesmo comprometimento para garantir que os nossos cursos de Odontologia estejam agindo como verdadeiras escolas profissionalizantes, ou seja: gerando novos conhecimentos e os disseminando para a próxima geração de clínicos e acadêmicos.


Rossetti – Para efeito de comparação, qual é a verba disponível atualmente em sua universidade?
Cooper – Em Chicago, o nosso orçamento está em torno de US$ 50 milhões por ano, mas alguns cursos de Odontologia possuem orçamentos de mais de US$ 100 milhões anuais. Um dos desafios com o qual vamos continuar a lidar é ter fundos o suficiente para pesquisas. Precisamos ser os cientistas mais talentosos, inovadores, agressivos e vanguardistas, e um dos meus desafios é garantir um ambiente favorável para que isso aconteça. Além disso, é preciso encorajar a participação de cientistas talentosos e jovens, e dar a eles os recursos necessários para que façam seus trabalhos.


Rossetti – Qual é a melhor maneira para incentivar a pesquisa acadêmica entre os jovens?
Cooper – Há uma pequena porcentagem de alunos em cursos de Odontologia que estão realmente interessados em pesquisa. No meu caso, ingressei na faculdade com a intenção de ser cirurgião-dentista e as coisas mudaram dramaticamente quando aprendi o que era a Odontologia. Mas, já vimos pessoas excepcionalmente talentosas chegarem especificamente para serem pesquisadoras.

Quero aproveitar para mostrar meu orgulho, quase presunçoso, em relação ao programa de Chicago, que treina estudantes simultaneamente para a área odontológica e para o PhD – o que chamamos de Most (Programa Multidisciplinar de Treinamento em Ciências Orais). Esse programa recruta estudantes de todo o país, e nosso desafio é escolher um ou dois todos os anos. Recentemente, tivemos entre sete e dez pessoas sendo treinadas do primeiro ao quarto ano no curso de Odontologia, bem como entre o primeiro e o quarto ano no PhD – e eles estão indo incrivelmente bem. Acho que representam a próxima geração de professores.

Para nós, o desafio é fazê-los ter uma graduação bem-sucedida, tanto com o diploma de Odontologia quanto de PhD, e passar mais tempo reforçando suas habilidades de pesquisa, para serem investigadores independentes e bem-sucedidos em faculdades de Odontologia. Acredito que isso seja algo que a nossa instituição, em Chicago, faz tão bem ou talvez melhor do que qualquer faculdade nos Estados Unidos. Talvez tenhamos estabelecido algo único no mundo. Também oferecemos oportunidades incríveis internacionalmente. O reitor da universidade, Clark Stanford, passou a viajar pelo mundo e a estabelecer relações formais com outras instituições. Aliás, em meu laboratório, esperamos que estudantes brasileiros apareçam novamente para nosso treinamento, porque há pessoas notáveis do Brasil.

Rossetti – Qual é a importância de entender o mecanismo da célula óssea para resultados clínicos?

Cooper – Quando faço uma incisão, não vejo o sangue no bisturi, vejo as células falando umas com as outras, ou seja, penso sobre isso de forma bem diferente. Quando fecho um retalho, não necessariamente vejo a sutura, mas sim os tecidos se juntando e logo penso sobre o que acontecerá no próximo dia: formação de coágulo sanguíneo e sobreposição deste coágulo com as primeiras células inflamatórias. Penso sobre como essas células respondem em relação ao que eu fiz na cirurgia. É nesse momento que me vem à cabeça questões como: quem é o paciente, como é a sua biologia sistêmica, quais são as comorbidades e como elas influenciam o comportamento das células naquele espaço que acabei de criar na sutura. Não sei se isso faz de mim um cirurgião ou protesista melhor, ou um cirurgião ou protesista pior. Mas, certamente, é uma forma única de observar um problema. Tudo o que fazemos na Odontologia é interferir na parte biológica, seja escovando os dentes, extraindo um elemento ou colocando um implante. Toda vez que interferimos na biologia, temos que fazer algumas perguntas fundamentais. Então, para mim, uma delas é: “o que essas células estão fazendo agora?”.


Rossetti – Houve maior interesse por próteses quando começamos a ver diferentes superfícies de implantes? Você acha que esse foi o divisor de águas?
Cooper – Em 1994, quando eu era um jovem pesquisador, tive a oportunidade de falar no meio internacional sobre superfícies de implante. Só havia uma empresa vendendo implante de superfície rugosa nos Estados Unidos, e fiquei muito interessado nisso. Chamou bastante atenção o fato dos implantes não se darem bem com ossos de baixa densidade – e eles não deram certo longitudinalmente com alguns pacientes.

Hoje, vemos que quase todas as superfícies de implante são modificadas, chamadas de moderadamente rugosas. Não acho que a comunidade entende o quanto essa tecnologia foi importante, apesar de vermos que funcionam bem.

Um exemplo: desenvolvemos uma nova superfície na indústria que funciona com nanotecnologia. Talvez a intenção não tenha sido criar uma superfície com nanotecnologia ou modificações em escala nanométricas, no entanto, foi revelado o mecanismo pelo qual a superfície poderia funcionar. Ao olhar para o que fizemos na Odontologia, esse pode ser o primeiro exemplo em que um clínico utiliza a nanotecnologia para mudar o comportamento da célula humana. Não há muitas superfícies desse tipo na área – essa é terceira geração. Acredito que, quando usamos nanotecnologia em uma superfície de implante de terceira geração, na verdade, estamos informando às células para fazerem algo diferente. Sabemos, a partir da nossa pesquisa em humanos, que essas superfícies informam as células para criar mais tecido ósseo de maneira mais rápida. Para muitos pacientes, isso poderia ser a diferença entre o sucesso e a falha de um implante. Hoje, nossos laboratórios vão além do tecido ósseo e de investigar a mucosa. Estamos muito interessados em como a tecnologia da superfície dos pilares poderia modificar o comportamento do epitélio. Temos uma publicação que diz: ao modificar a superfície de um pilar, pode-se modificar o desempenho do epitélio aderido ao pilar de um implante. Então, para mim, a estratégia de usar a tecnologia para alterar a forma como o corpo funciona em uma área determinada continua muito interessante.


Rossetti – Eu penso que não há o porquê de dizer “meu sistema promove mais contato osso-implante do que o seu”. Afinal, qual é o sentido disso?
Cooper – É interessante. Quando pessoas como Schroeder e P-I Brånemark vislumbraram a osseointegração, havia a noção de que deveria haver contato direto de osso-implante, mas nenhum dos dois disse que esse contato seria de 100%.

De fato, essa é outra questão que talvez devêssemos abordar. No fim das contas, a pergunta é: “O quanto de contato osso-implante é necessário?”. Nós não sabemos.

Alguns estudos feitos em meados da década de 1990 informam o quanto de contato seria suficiente. Também há estudos comparando implantes usinados a superfícies moderadamente rugosas, e um deles é do Carl-Johan Ivanoff , que comparou a superfície TiOBlast às usinadas. O teste foi feito na maxila e mandíbula posteriores, basicamente, um osso tipo IV.

O mais interessante é que nas superfícies usinadas só havia de 9% a 10% de contato osso-implante, após seis meses de cicatrização. Mas, em superfícies TiOBlast moderadamente rugosas o contato foi de 30% a 40%.

Um estudo idêntico foi organizado por Richard Lazzara, que utilizou o Osseotite (Zimmer Biomet 3i) em comparação a superfícies usinadas. Eles tiveram, essencialmente, os mesmos resultados. Apesar de terem analisado o sucesso desses implantes, demonstraram que uma superfície usinada em um tecido ósseo tipo IV possui aproximadamente 10% de contato, enquanto uma superfície moderadamente rugosa pode gerar um contato osso-implante muito maior. O que sabíamos na época era que tínhamos uma taxa de falhas muito grande em tecidos ósseos tipo IV.

Seguindo adiante, entre meados da década de 1990 até o início dos anos 2000, pessoas como Torsten Jemt, da clínica Brånemark, começaram a observar o resultado de implantes na maxila. Ao analisarem pacientes tratados com os antigos implantes Brånemark usinados tipo 1, 2, 3, em comparação com o implante rugoso moderno da Nobel Biocare, eles descobriram que havia aumento na taxa de sucesso ou redução na falha quando utilizavam implantes moderadamente rugosos modernos em osso tipo IV. Com base nessa informação, alguém pode argumentar que, para desencargo de consciência, um implante com 30% a 40% de contato já é uma boa ideia.

Eu acredito que, ao longo da vida do indivíduo, os pontos de contato do implante com o tecido ósseo mudam. O osso que se forma em seis meses não é o mesmo que vai se formar daqui a 20 anos. Certa vez, Tomas Albrektsson escreveu um artigo afirmando que o paciente continua a ganhar tecido ósseo nas áreas dos implantes bem-sucedidos. Então, pode ser importante pensar sobre como é o desempenho do implante ao longo da vida. Mas, também precisamos nos lembrar que estudos de curto prazo em cães não refletem a realidade de um ser humano. Então, o contato osso-implante em um paciente saudável com 25 anos pode não ser o mesmo quando ele tiver 60 anos, momento em que ele possivelmente estará tomando muitos medicamentos e tendo muitas doenças.

Não sabemos como isso se altera longitudinalmente.

 

 

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