Publicado em: 29/01/2019 às 09h01

Biologia da restauração dentoalveolar imediata

Saiba mais sobre este procedimento cirúrgico-protético desenvolvido para o tratamento do alvéolo dentário pós-exodontia.

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A restauração dentoalveolar imediata (RDI) é um procedimento cirúrgico-protético desenvolvido para o tratamento do alvéolo dentário pós-exodontia1. A RDI consiste em:

1. Realização de exodontia minimamente traumática;

2. Instalação imediata de implante – com aproximação para a parede óssea palatina e estabilidade mecânica igual ou superior a 30 Ncm;

3. Realização de enxertos ósseos autógenos removidos da tuberosidade maxilar. Nesta etapa, exames de imagem e sondagem do defeito ósseo no transcirúrgico são utilizados para mapear o defeito ósseo vestibular, quando presente, e nortear a realização de enxerto ósseo autógeno.

• Em casos de parede óssea vestibular comprometida ou ausente, é feito enxerto ósseo autógeno (córtico-medular) em bloco para reconstruir a parede óssea vestibular (Figuras 1A-C).

Esse enxerto é estabilizado por compressão entre as paredes do defeito ósseo vestibular, sem incisão e retalho no leito receptor. Além do enxerto ósseo autógeno córtico-medular em bloco, é realizado um enxerto ósseo córtico-medular particulado para preencher o eventual espaço (gap) entre o enxerto em bloco e o implante previamente instalado, e para preencher o espaço entre as paredes mesial e distal e o implante (Figura 1D).

• Em casos de parede óssea vestibular íntegra, é feito apenas um enxerto ósseo autógeno córtico-medular particulado;

4. Confecção de coroa provisória com perfil de emergência côncavo nas porções vestibular e proximais;

5. Provisionalização imediata, isto é, instalação da coroa provisória imediatamente após a instalação do implante e da realização do enxerto ósseo. A coroa provisória permanece em infraoclusão, não fazendo contato com a coroa do dente antagonista, fornecendo ao implante um estímulo parcial com o bolo alimentar, língua e musculatura labial.

 

Figuras 1 – Adaptado da obra Restauração dentoalveolar imediata: implantes com carga imediata em alvéolos comprometidos1, com autorização da Santos Editora.

 

Considerando essas cinco etapas para a realização da RDI, a seguir serão discutidas as justificativas biológicas para cada uma delas.
 

BIOLOGIA DE:

1. Exodontia minimamente traumática e sem retalho vestibular

Permite melhor manutenção das paredes ósseas alveolares e da vascularização e organização do coágulo dentro do alvéolo.

2. Instalação imediata do implante

Durante a instalação, o direcionamento do implante para a parede palatina favorece a estabilidade primária, sendo necessária uma estabilidade primária igual ou superior a 30 N para realizar a provisionalização imediata.

3. Enxerto ósseo autógeno removido da tuberosidade maxilar

O enxerto ósseo autógeno – removido da tuberosidade maxilar com cinzéis específicos – permite a remoção de uma lâmina óssea (bloco) de aproximadamente 3 mm de espessura, sendo aproximadamente 1 mm da espessura do bloco constituída de osso cortical e o restante de osso medular. A constituição córtico-medular do enxerto em bloco (lâmina) mimetiza a estrutura da cortical óssea vestibular perdida (Figuras 1). Parte do enxerto ósseo removido da tuberosidade maxilar é particulado com o auxílio de um alveolótomo, para permitir a obtenção de partículas ósseas com diâmetro superior a 1 mm ou 2 mm. O maior diâmetro da partícula do enxerto ósseo influencia positivamente na manutenção do volume do enxerto, se comparado com partículas de dimensões reduzidas ou chips2.

O posicionamento do enxerto ósseo particulado mimetiza o osso medular que se encontra normalmente abaixo do osso cortical (Figura 1D).

A melhor previsibilidade de manutenção de tecidos duros e moles peri-implantares tem sido obtida quando a espessura total do enxerto ósseo (em bloco e particulado) é de 3 mm3. Como vantagem da utilização do enxerto ósseo autógeno, em relação a enxertos ósseos xenógenos e alógenos, destaca-se a presença de osteogênese e osteoindução.

4. Coroa provisória com perfil de emergência côncavo

A coroa provisória – confeccionada com perfil de emergência côncavo – tem como objetivo reservar um microespaço (gap de tecido mole) para permitir o crescimento de tecido mole no espaço contido entre o perfil de emergência protético (constituído pela cinta do pilar provisório seguida pela porção côncava da prótese provisória) e a face interna vestibular de tecido mole. Sem esse espaço, o ganho de tecido mole pode ficar comprometido.

5. Provisionalização imediata

O estímulo imediato do implante com micromovimentos de até 100 μm aumenta a velocidade de remodelação óssea4 e, consequentemente, a incorporação do enxerto e do processo de osseointegração. Obviamente, do ponto de vista clínico, não é possível medir o micromovimento do implante dentro do alvéolo cirúrgico, mas se com a RDI, de acordo com as publicações, o enxerto ósseo incorpora e o implante osseointegra, é porque a micromovimentação do implante dentro do alvéolo cirúrgico permanece inferior a 100 μm.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a utilização da RDI, publicações científicas têm demonstrado a estabilidade de tecidos mole5 e duro3 peri-implantares por um período de, no mínimo, 56 e 36 meses, respectivamente. A literatura mais recente demonstra uma tendência de utilização de enxerto ósseo autógeno para os procedimentos alveolares pós-exodontia6.

 

REFERÊNCIAS
1. Rosa JCM, Rosa A. Restauração dentoalveolar imediata: implantes com carga imediata em alvéolos comprometidos. São Paulo: Santos Editora, 2010.
2. Kon K, Shiota M, Ozeki M, Kasugai S. The effect of graft bone particle size on bone augmentation in a rabbit cranial vertical augmentation model: a microcomputed tomography study. Int J Oral Maxillofac Implants 2014;29(2):402-6.
3. Rosa ACPO, da Rosa JCM, Pereira D, Violin LA, Francischone CE, Sotto-Maior BS. Guidelines for selecting the implant diameter during immediate implant placement of a fresh extraction socket: a case series. Int J Periodontics Restorative Dent 2016;36(3):401-7.
4. Vandamme K, Naert I, Geris L, Sloten JV, Puers R, Duyck J. Histodynamics of bone tissue formation around immediately loaded cylindrical implants in the rabbit. Clin Oral Implants Res 2007;18(4):471-80.
5. Rosa JC, Rosa AC, Francischone CE, Sotto-Maior BS. Esthetic outcomes and tissue stability of implant placement in compromised sockets following immediate dentoalveolar restoration: results of a prospective case series at 58 months follow-up. Int J Periodontics Restorative Dent 2014;34(2):199-208.
6. Noelken R, Moergel M, Kunkel M, Wagner W. Immediate and flapless implant insertion and provisionalization using autogenous bone grafts in the esthetic zone: 5 year results. Clin Oral Implants Res 2018;29(3):320-7.


 

Luis Antonio Violin Pereira

Professor titular do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia (Unicamp-IB).

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Carolina Frandsen Pereira da Costa

Ilustradora; Doutoranda no programa de pós-graduação em Biologia Celular e Estrutural do Instituto de Biologia (Unicamp-IB).








 

José Carlos Martins da Rosa

Especialista em Periodontia pela APCD/Bauru; Especialista e mestre em Prótese Dentária, e doutor em Implantodontia pela Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic, Campinas.

 

 

 

 


 

Marcos Alexandre Fadanelli

Especialista e mestre em Dentística pela Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic, Campinas; Doutorando em Materiais Dentários pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Professor de Dentística I e II do Centro Universitário da Serra Gaúcha/FSG, Caxias do Sul.

 

 

 

 

 

 

 

 

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