Publicado em: 29/01/2019 às 09h15

Compreendendo as parestesias

Eduardo Dias de Andrade e equipe respondem perguntas postadas no Grupo Perio-Implantar, do Facebook.

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“Quais têm sido as condutas em caso de parestesia? Em dez anos de Odontologia, depois de muitas cirurgias e muitos implantes, recentemente me deparei com meu primeiro insucesso após a extração de um terceiro molar”.

“Qual a conduta adotada diante da parestesia lingual proveniente de exodontia de terceiro molar mandibular?”.

“Existe algum medicamento mais evoluído que o Etna? Tenho alguns casos de parestesia que, além do Etna, faço uso da laserterapia. Mas, o resultado demora tanto que os pacientes ficam reclamando”.

Perguntas postadas no Grupo Perio-Implantar, do Facebook.

 

A parestesia é uma neuropatia diagnosticada pela perda sensorial da região inervada por um nervo lesado, cuja principal característica é a sensação de anestesia persistente. É tida como uma complicação potencial associada ao ato da anestesia local, particularmente após o bloqueio dos nervos alveolar inferior e lingual, mas também pode estar associada a outras técnicas de bloqueio regional.
 

ETIOLOGIA

Na clínica odontológica, a grande maioria dos casos de parestesia é constatada após um procedimento cirúrgico, como as exodontias (em especial a de terceiros molares mandibulares) ou a inserção de implantes dentários. No entanto, ela também pode ocorrer após bloqueios anestésicos regionais em intervenções não cirúrgicas.

O mecanismo para explicar tal intercorrência ainda não é totalmente compreendido. Várias hipóteses são sugeridas para elucidar a relação entre os anestésicos locais e a subsequente parestesia: 1) trauma direto causado pela penetração da agulha; 2) compressão do nervo causada pelo edema perineural após a injeção; 3) lesão de pequenos vasos sanguíneos, levando à hemorragia intraneural; e 4) neurotoxicidade do sal anestésico1.

A neurotoxicidade dos anestésicos locais é um tema controverso, apesar de alguns estudos sugerirem que algumas formulações são potencialmente neurotóxicas, como a prilocaína* e a articaína, na concentração de 4%2-3. Evidências que apoiam a neurotoxicidade dos anestésicos locais foram baseadas na análise da persistência da parestesia após a injeção. Quanto maior for a duração da falta de sensibilidade, mais grave é a parestesia. Em geral, a recuperação do nervo afetado ocorre espontaneamente após o período de um a dois meses. Em alguns casos, porém, ela poderá persistir por seis a 18 meses ou até mesmo tornar o nervo incapaz de se recuperar completamente4-5.

Na Odontologia, a maioria dos casos de parestesia é constatada após procedimento cirúrgico. (Imagem: Shutterstock)


 

SINAIS E SINTOMAS

Falta de sensibilidade, dormência ou “formigamento” da região pela qual o nervo lesado é responsável. O comprometimento da função gustativa pode ser observado como consequência da lesão do nervo lingual.


PREVENÇÃO

Por ocasião do plano de tratamento, envolvendo procedimentos cirúrgicos ou não, o paciente deve ser informado sobre o risco de parestesia após a anestesia local por meio de bloqueios regionais. A transparência é essencial. A prevenção da parestesia, especialmente a do nervo alveolar inferior, requer conhecimento anatômico do nervo alveolar inferior, da posição do canal mandibular e sua relação com as raízes dos terceiros molares6. O planejamento e a técnica cirúrgica apurada são outros requisitos fundamentais para evitar este tipo de complicação pós-operatória. Outros cuidados preventivos podem ser considerados:

• Evitar o uso da articaína 4% em bloqueios regionais. Dar preferência às soluções de lidocaína 2% ou mepivacaína 2%, reservando a articaína para a complementação da anestesia por meio de técnica infiltrativa submucosa, subperióstica ou intraligamentar;

• Usar agulhas de ótima qualidade. Não esquecer da máxima: “o barato muitas vezes sai caro”;

• No bloqueio dos nervos alveolar inferior e lingual, procure fazer uma única punção, evitando movimentar a agulha durante a injeção do anestésico, retirando-a cuidadosamente;

• Considere a “exodontia ortodôntica”, quando se faz a extrusão ortodôntica prévia à exodontia de dentes próximos ao canal mandibular7.


TRATAMENTO

Como dito anteriormente, grande parte das parestesias possui resolução espontânea. Isto deve ser esclarecido aos pacientes, que ficam muito ansiosos para que a complicação logo se resolva. Portanto, toda atenção com eles é de suma importância, seja por meio de simples telefonemas ou consultas de retorno, para acompanhar a evolução do quadro.

O melhor remédio é a paciência. Não há nenhum tratamento disponível para a parestesia bucal que seja baseado em sólidas evidências científicas. O que parece ser consensual é que quanto mais rápido for iniciada a terapia, mais favorável se torna o prognóstico em relação à recuperação funcional do nervo.

Dentre as formas de tratamento propostas atualmente, a terapêutica medicamentosa, fisioterapia local, estimulação elétrica, laserterapia de baixa potência e acupuntura são as mais empregadas, de forma isolada ou em conjunto. O prognóstico de recuperação varia consideravelmente, de acordo com o tipo e nível de dano ao nervo1. Os casos crônicos mais complexos podem exigir a microcirurgia de reparação nervosa.


USO DE MEDICAMENTOS

Dexacitoneurin: associação de dexametasona 0,5 mg + vitaminas do complexo B (B1, B6 e B12). A dexametasona é muito eficaz no controle do edema inflamatório. As vitaminas do complexo B, por sua vez, possuem ação neurorregeneradora. Posologia: a dose inicial diária em casos agudos é de quatro a seis comprimidos, tomados de uma só vez, no início do período da manhã, para acompanhar o ritmo circadiano de produção endógena dos corticosteroides. A duração do tratamento é de cinco dias ou menos, se os sintomas desaparecerem.

Etna: composto de dois ribonucleotídeos, o fosfato dissódico de citidina (2,5 mg) e o trifosfato dissódico de uridina (1,5 mg), associados à vitamina B12 (1 mg). Os ribonucleotídeos pirimidínicos são elementos essenciais para a síntese de DNA e RNA, que interferem nas vias metabólicas fornecedoras de energia e agem na biossíntese de fosfolipídeos e glicolipídeos, encontrados em altas concentrações nos nervos periféricos. A vitamina B12 é essencial para a síntese de nucleoproteínas e mielina, e, consequentemente, para o processo de regeneração nervosa8. Posologia: aplicação de uma ampola por via intramuscular uma vez ao dia, durante três dias, seguida de uma cápsula de 8/8 horas durante 30 dias8.

Magnen B6: associação de glicinato de magnésio com vitamina B6. A vitamina B6 atua como coenzima na síntese de esfingosina, substância que ocupa uma posição-chave no metabolismo dos esfingolipídios, componentes essenciais das membranas celulares das bainhas de mielina.

Estes esfingolipídios possuem uma renovação metabólica muito rápida. A preservação da integridade estrutural e funcional do sistema nervoso requer síntese constante de esfingosina, o que depende, portanto, do aporte de vitamina B6. Posologia: um comprimido a cada 12 horas durante 30 dias. Não foram encontrados artigos a respeito do seu uso no tratamento de parestesias bucais.


LASERTERAPIA DE BAIXA POTÊNCIA

As ondas emitidas pelo aparelho possuem propriedades anti-inflamatórias e bioestimulantes, com o objetivo de auxiliar na regeneração nervosa periférica, proporcionando a recuperação sensitiva da região que sofre da dormência. E tudos têm mostrado que a laserterapia influencia no metabolismo celular, de maneira a exercer uma ação positiva em níveis moleculares, diminuindo o dano nervoso e acelerando os processos de reparação tecidual neural8.


ACUPUNTURA

Os melhores resultados parecem ser obtidos em casos de parestesia crônica, que não respondem adequadamente a outras terapias.
 

*Nota: no Brasil, a prilocaína é comercializada apenas na concentração de 3%.

 

REFERÊNCIAS
1. Piccinni C, Gissi DB, Gabusi A, Montebugnoli L, Poluzzi E. Paraesthesia after local anaesthetics: an analysis of reports to the FDA adverse event reporting system. Basic Clin Pharmacol Toxicol 2015;117:52-6.
2. Haas DA, Lennon D. A 21 year retrospective study of reports of paresthesia following local anesthetic administration. J Can Dent Assoc 1995;61:319-20.
3. Garisto GA, Gaffen AS, Lawrence HP, Tenenbaum HC, Haas DA. Occurrence of paresthesia after dental local anesthetic administration in the United States. J Am Dent Assoc 2010;141:836-44.
4. Meechan JG. Re: prolonged paraesthesia following inferior alveolar nerve block using articaine. Br J Oral Maxillofac Surg 2003;41:201.
5. Pogrel MA, Thamby S. Permanent nerve involvement resulting from inferior alveolar nerve blocks. J Am Dent Assoc 2000;131:901-7.
6. Flores JA, Flores FW, Unfer MK, Ferrari R. Relação entre os terceiros molares inferiores com o nervo alveolar inferior. Int J Dent 2009;8(4):210-4.
7. Flores JA, Flores FW, Agostini RN, Cazarolli R. Parestesia do nervo alveolar inferior após exodontia de terceiros molares inferiores inclusos. Int J Dent 2011;10(4):268-73.
8. Miranda ECLS, Cavalcante EP, Brito JALS, Bessa-Nogueira RV. Uso do LLLT e nucleotídeos no manejo de parestesia do nervo mentual. Rev. Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-Fac. 2017;17(4):18-25.

 

Eduardo Dias de Andrade

Graduado, mestre, doutor, livre-docente, professor titular e responsável pela área de Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica – FOP-Unicamp. Autor dos livros "Terapêutica Medicamentosa em Odontologia" e "Emergências Médicas em Odontologia".


 

 

Colaboração:

Francisco Carlos Groppo

Graduado, mestre, doutor, livre-docente e professor titular de Farmacologia – FOP-Unicamp; Pós-doutor em Periodontia – Harvard University e The Forsyth Institute (EUA).

 


 

Maria Cristina Volpato

Graduada, mestra, doutora, livre-docente e professora titular de Farmacologia e Terapêutica Medicamentosa – FOP-Unicamp.

 

José Ranali

Graduado em Odontologia, mestre e doutor – Universidade de Campinas (Unicamp).

 

 

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