Publicado em: 18/04/2019 às 15h21

Correlação entre o tratamento de superfície dos implantes e a peri-implantite

A influência das características da superfície é um tema ainda bastante discutido na literatura, com muitas controvérsias entre pesquisadores.

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A fim de aprimorar os resultados de osseointegração, com o passar dos anos, vimos uma ampla evolução e modificações da microtopografia e nanotopografia dos implantes dentários de muitas marcas comerciais. Porém, consequentemente, também se obteve ao longo desses anos um maior número de casos de contaminação bacteriana e inflamação ao redor dos implantes osseointegrados, podendo levar à peri-implantite. A influência das características da superfície é um tema ainda bastante discutido na literatura, com muitas controvérsias entre pesquisadores1.

De acordo com a nova classificação proposta no ano passado, resultado da reunião dos pesquisadores da Academia Americana de Periodontia e da Federação Europeia de Periodontia, a peri-implantite tem como definição ser uma complicação biológica com resposta tecidual evidenciando a presença de inflamação conjunta com perda óssea ao redor do implante dentário, associado também com sangramento a sondagem, nível ósseo peri-implantar > 3 mm e profundidade a sondagem > 6 mm, podendo levar à perda do implante e, assim, ao fracasso do tratamento2.

Inicialmente, os implantes apresentavam superfície lisa, porém, com a evolução do conhecimento em relação à capacidade de superfícies rugosas favorecer a osseointegração, houve um aumento na comercialização de implantes com tratamento de superfície, obtidos por meio de diferentes métodos nanométricos. O acúmulo bacteriano nessas superfícies de implantes comercialmente tratadas/texturizadas (rugosas) evidencia tecnicamente uma maior e acelerada colonização bacteriana nas roscas, eventualmente expostas na cavidade oral, quando comparadas com os implantes de superfícies usinadas/lisas (não tratadas)3. A colonização bacteriana torna-se influenciada não apenas pela rugosidade da superfície dos implantes, mas também pela complexa interação da composição química, das propriedades hidrofóbicas e da carga elétrica da superfície dos implantes4. Considerando ainda que a topografia da superfície e as propriedades físico-químicas podem promover uma influência não só na facilidade de adesão bacteriana4-5, como também na migração osteoblástica celular, o tratamento de superfície estará relacionado com a reosseointegração após o tratamento da peri-implantite, que é outro desafio clínico difícil de obter6.

Um estudo experimental mostrou que o sucesso da terapia de controle da peri-implantite está relacionado aos diferentes tratamentos de superfície dos implantes (por exemplo, torneada, com partículas de TiO2, jateada com areia e tratada com ácido SLA e TiUnite), evidenciando melhores resultados de tratamento da inflamação ao redor dos implantes para superfícies torneadas e aquelas revestidas com partículas de TiO2. Já o revestimento com SLA mostrou inflamação remanescente após a descontaminação. Por fim, o TiUnite não evidenciou cessação alguma de inflamação após o tratamento da peri-implantite7. Por mais que os estudos em animais e in vitro mostrem que há uma ampla interferência do tratamento de superfície dos implantes na evolução da peri-implantite, estudos em humanos ainda não possuem essa conclusão8.

O tratamento da peri-implantite é um desafio clínico e de grande preocupação, porém cabe ao profissional ter conhecimento dessa breve correlação entre tratamento de superfície e sua interação com a peri-implantite, pois, mesmo com diversas opções de terapias não cirúrgicas e cirúrgicas, as superfícies rugosas dos implantes apresentam maior dificuldade para descontaminação bacteriana3.

 

REFERÊNCIAS
1. Buser D, Sennerby L, De Bruyn H. Modern implant dentistry based on osseointegration: 50 years of progress, current trends and open questions. Periodontol 2000 2017;73:7-21.
2. Schwarz F, Derks J, Monje A, Wang HL. Peri-implantitis. J Clin Periodontol 2018;45(suppl.20):S246-S66.
3. Teughels W, Van Assche N, Sliepen I, Quirynen M. Effect of material characteristics and/or surface topography on biofilm development. Clin. Oral Imp. Res 2006;17(suppl.2):68-81.
4. Hauslich LB, Sela MN, Steinberg D et al. The adhesion of oral bacteria to modified titanium surfaces: role of plasma proteins and electrostatic forces. Clin Oral Implants Res 2013;24:49-56.
5. Al-Ahmad A, Wiedmann-Al-Ahmad M, Fackler A et al. In vivo study of the initial bacterial adhesion on different implant materials. Arch Oral Biol 2013;58:1139-47.
6. Anselme K, Davidson P, Popa AM et al. The interaction of cells and bacteria with surfaces at the nanometre scale. Acta Biomater 2010;6:3824-46.
7. Albouy J-P, Abrahamsson I, Persson LG, Berglundh T. Implant surface characteristics influence the outcome of treatment of peri-implantitis: an experimental study in dogs. J Clin Periodontol 2011;38:58-64.
​8. Marcantonio C, Nicoli LG, Marcantonio Jr. E, Zandim-Barcelos DL. Prevalence and possible risk factors of peri-implantitis: a concept review. J Contemp Dent Pract 2015;16(9):750-7.

 

 

Elcio Marcantonio Junior

Professor titular das disciplinas de Periodontia e Implantodontia, e coordenador do curso de especialização em Implantodontia – FOAr/Unesp; Professor colaborador do Ilapeo.

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Ísis de Fátima Balderrama

Especialista em Periodontia e mestra em Reabilitação Oral – FOB/USP; Estágio no Depto. de Periodontia – Universidade de Malmö, na Suécia; Especializanda em Implantodontia – FOAr/Unesp.

 

 

 

 

 

 

 

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