Publicado em: 18/04/2019 às 15h31

Embriologia óssea: uma visão crítica para a clínica

A origem embrionária interfere no prognóstico do enxerto ósseo autógeno? Luis Antonio Violin Pereira e equipe respondem.

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Os ossos da face têm origem embrionária diferente dos ossos do restante do organismo? Essa pergunta tem alguma implicação para o diagnóstico ou terapêutica clínica e/ou cirúrgica? A origem embrionária dos ossos refere-se ao folheto ou estrutura embrionária que originou os osteoblastos e, portanto, os ossos de uma determinada topologia do organismo. A origem embrionária não deve ser confundida com o tipo de formação óssea e nem mesmo com a estrutura do tecido ósseo (Tabela 1).

TABELA 1 – CLASSIFICAÇÃO DO TECIDO ÓSSEO

As diferentes classificações do tecido ósseo são independentes uma da outra, de tal forma que o tecido ósseo originado da crista neural pode ser formado por ossificação intramembranosa e/ou endocondral. Seja qual for o tipo de ossificação, forma-se tanto tecido ósseo primário como secundário. Independentemente da organização da matriz óssea (primária ou secundária), o tecido ósseo pode ser ainda classificado como cortical ou medular. Assim, tem-se que células e matriz óssea – qualquer que seja a origem, formação, organização e estrutura – respondem aos estímulos mecânicos continuamente, permitindo a remodelação óssea. Em relação à origem embrionária, o tecido ósseo se desenvolve a partir do mesoderma paraxial (área do esclerótomo), do mesoderma lateral (camada parietal) e das cristas neurais1-3.
 

MESODERMA

É um dos três folhetos embrionários dos quais todas as células e tecidos do organismo são derivados. O mesoderma é dividido em axial (notocorda), paraxial (dermátomo, esclerótomo e miótomo), intermediário e lateral (camadas parietal e visceral). As células do mesoderma são precursoras de tecido epitelial (do aparelho genito-urinário), tecido conjuntivo (inclusive ósseo) e tecido muscular.
 

CRISTAS NEURAIS

São estruturas derivadas do ectoderma, mais especificamente do neuroectoderma. Durante o processo de formação do tubo neural – precursor do sistema nervoso central –, algumas células das pregas neurais (neuroectoderma) perdem a adesão entre si e com a membrana basal, formando duas massas celulares dispostas longitudinalmente e dorsalmente à esquerda e à direita do tubo neural. Essas massas são denominadas cristas neurais e suas células migram para todas as regiões do corpo do embrião em construção, originando diversas estruturas, como o sistema nervoso periférico, algumas estruturas endócrinas, algumas estruturas do sistema imunológico, o septo aórtico-pulmonar, melanócitos, tecido conjuntivo propriamente dito e ossos da face (incluindo palato), cartilagens da laringe, alguns ossos do crânio e o osso hioide.
 

MESÊNQUIMA

É o nome dado ao tecido conjuntivo embrionário. As células que compõem o mesênquima são as mesenquimais, as quais são originadas do mesoderma propriamente dito, assim como as células das cristas neurais. As células mesenquimais irão se diferenciar em diversos tipos celulares, incluindo os osteoblastos (Figura 1).

Figura 1 – Resumo da origem embrionária do tecido ósseo.


 

CONCLUSÃO

A embriologia do tecido ósseo contribui para explicar por que um paciente com malformação óssea congênita na face, em decorrência de distúrbios de diferenciação das células das cristas neurais craniais, não necessariamente terá malformação óssea em outra área do organismo, visto que os ossos da face são derivados das cristas neurais craniais enquanto a maioria dos outros ossos do corpo é derivada do mesoderma. Por outro lado, esse mesmo paciente tem uma chance significativamente maior que a população geral de apresentar malformação cardíaca, visto que as células das cristas neurais participam na formação de estruturas cardíacas.

Diferentes áreas doadoras de enxerto ósseo autógeno são incorporadas no leito receptor pelo mecanismo de remodelação óssea, independentemente se as áreas – doadora e receptora – têm igual ou diferente origem embrionária. Até o presente momento, não há relato de que que ossos de origens embrionárias distintas possuam diferente composição química ou estrutura.

Quando se utiliza o osso parietal (origem mesoderma) como área doadora de enxerto ósseo autógeno e a maxila (origem crista neural) como área receptora, não se está obedecendo a mesma origem embrionária entre as áreas doadoras e receptoras (Figura 2). No entanto, do ponto de vista clínico e de muitas publicações científicas, esse tipo de enxerto tem sido utilizado com resultados bastante positivos4. Portanto, a origem embrionária parece não interferir no prognóstico do enxerto ósseo autógeno (Figura 2).

Figura 2 – Origem embrionária dos ossos do crânio e da face.

 

REFERÊNCIAS
1. Pereira LAV, Justino ML, Moraes SG. Embriologia humana integrada: animações e casos clínicos [On-line]. Disponível em <www.embriologiahumana.com. br>. Acesso em 3-3-2019.
2. Sadler TW. Langman – Embriologia Médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan Editora, 2016.
3. Berendsen AD, Olsen BR. Bone development. Bone 2015;80:14-8.
​4. Quiles JC, Souza FA, Bassi AP, Garcia Jr. IR, França MT, Carvalho PS. Survival rate of osseointegrated implants in atrophic maxillae grafted with calvarial bone: a retrospective study. Int J Oral Maxillofac Surg 2015;44(2):239-44.

 


 

Luis Antonio Violin Pereira

Professor titular do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia (Unicamp-IB).

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Carolina Frandsen Pereira da Costa

Ilustradora; Doutoranda no programa de pós-graduação em Biologia Celular e Estrutural do Instituto de Biologia (Unicamp-IB).








 

Sílvio Roberto Consonni

Professor doutor do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia.

 

 

 

 

 

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