Publicado em: 18/04/2019 às 15h36

Preservação alveolar com uso de membrana de PTFE-denso

Jamil Shibli e Ronaldo Gomes Fabiano ressaltam que esta é uma rotina clínica cada vez mais indispensável ao cirurgião-dentista.

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O uso das membranas para regenerações ósseas se tornou um procedimento comum, pois possibilita preservar o tecido ósseo e os tecidos moles, além de ser uma técnica segura, simples e reprodutível. As membranas de politetrafluoretileno (PTFE) podem ser divididas em dois tipos: expandido e denso. As do tipo expandido são indicadas para regenerações ósseas guiadas (ROG) verticais e horizontais, criando a forma e o espaço desejados, muitas vezes valendo-se de reforços de titânio. Devido à elevada rugosidade superficial e microporosidade, as membranas PTFE-e são suscetíveis à penetração bacteriana, portanto não podem ficar expostas ao meio bucal e precisam ser removidas por serem não reabsorvíveis. Já as membranas de PTFE-d (denso) são indicadas para recobrir enxertos em alvéolo ou para preservação alveolar, quando o fechamento primário não é possível ou desejável.

As membranas de PTFE-d possuem poros de 0,2 μm que resistem à penetração bacteriana, apresentando, portanto, baixo risco de infecção mesmo quando expostas intencionalmente ao meio bucal. A principal vantagem do PTFE-d é a capacidade de permanecer exposto ao meio bucal por um período de até 30 dias e, ao mesmo tempo, possibilitar uma excelente manutenção do coágulo, prevenção de alveolites, proteção e estabilidade de enxertos ósseos e uma previsibilidade em reabilitações com implantes, podendo até associar técnicas utilizando enxertos e implantes imediatos.

A membrana Cytoplast PTFE-d (Osteogenics – Texas, EUA) pode ser customizada com tesoura para se estender de 3 mm a 5 mm além das margens do alvéolo e/ou defeito ósseo. Em seguida, ela deve ser inserida subperiostealmente sob o retalho vestibular e lingual. Antes da sutura, deve-se garantir que não há dobras ou rugas na membrana e que ela esteja passivamente recobrindo todo o alvéolo. Em tempo, esta membrana em específico possui duas superfícies diferentes, uma de cada lado: uma lisa, que é recomendada ficar voltada para dentro do alvéolo ou defeito; e a outra de superfície texturizada (Regentex), que possui sulcos hexagonais onde, após a colocação, o PTFE-d é imediatamente revestido com proteínas do plasma, o que facilita a adesão celular à essa superfície, texturizada e biocompatível. A remoção da membrana PTFE-d quase sempre é indolor e simplificada, devido à falta de adesão e crescimento interno de tecido na estrutura da superfície.

No relato de caso a seguir, a paciente apresentava uma fratura em região de furca do elemento 46 com indicação de exodontia (Figura 1). Indicou-se a preservação alveolar, para posterior reabilitação com restauração implantossuportada. Após a exodontia (Figura 2), foi avaliado que as paredes de todo o processo alveolar estavam íntegras e com boa irrigação sanguínea, provendo a formação de um coágulo volumoso e eliminando a necessidade de substituto ósseo para reparação de algum defeito. Verificou-se também a presença de septo, característica que facilita a ancoragem para inserção de implante imediato, reduzindo o tempo de tratamento em pelo menos 60 dias.

Figura 1 – Indicação para exodontia.

 

Figura 2 – Aspecto clínico do alvéolo.

 

A membrana foi colocada subperiostealmente e estabilizada através dos tecidos suturados com fio de PTFE, com um ponto simples central e um em forma de “x”, para que permaneça pelo período de 21 dias (Figura 3). Aos sete dias de pós-operatório, observou-se um tecido eritematoso, com leve edema e pequeno acúmulo de biofilme dental sobre a superfície intencionalmente exposta da membrana. Após 14 dias, houve afrouxamento do fio de PTFE e maior área de acúmulo de placa. Aos 21 dias (Figuras 4 e 5) foi removida a sutura, e a membrana foi retirada com uma pinça, de forma simples e indolor, observando a delimitação do biofilme bacteriano apenas na porção texturizada exposta, mostrando que não houve infiltração para “dentro” do alvéolo. Já na porção lisa, não foi possível detectar visualmente a formação de biofilme (Figuras 6 e 7).

 

Figura 3 – Membrana de PTFE denso exposta intencionalmente ao meio bucal e sutura com fio de PTFE.

 

Figura 4 – Aspecto visual da membrana de PTFE denso após 21 dias.

 

Figura 5 – Membrana sendo removida. Note que a porção da membrana que estava interna ao retalho não está recoberta por biofilme dental.

 

Figura 6 – Tecido cicatricial em formação.

 

Figura 7 – Membrana removida. Note o halo de biofilme bacteriano circunscrito à luz do alvéolo.

 

O tecido neoformado sobre o rebordo apresenta um aspecto de tecido ainda em formação/acomodação (Figura 6). Aos 42 dias, o tecido já denota um aspecto queratinizado (Figura 8). Em 63 dias, os tecidos estavam prontos para receberem um implante de 4,5 mm de diâmetro e 9 mm de comprimento, de conexão cônica, inserido 2 mm abaixo do nível ósseo e com um vedante de 2 mm de altura (Figura 9). Nas fresas, conseguimos observar o osso novo e nutrido coletado, comprovando a neoformação do tecido ósseo nesse período de 63 dias.

 

Figura 8 – Aspecto clínico 42 dias após exodontia.

 

Figura 9 – Implante inserido com vedante em tecido ósseo muito bem formado.

 

Após quatro meses da instalação do implante, a paciente retornou para reabilitação protética e, na reabertura, observou-se a formação de osso sobre o ombro do implante e parcialmente sobre o vedante, onde foi executada uma pequena osteotomia para removê-lo. Nesta fase, foi colocado um cicatrizador para remodelação do tecido gengival. Após 15 dias, foi selecionado um componente intermediário de 4,5 mm de altura e 1,5 mm de cinta, e posterior provisionalização para condicionamento do tecido gengival e formação de um perfil de emergência adequado (Figura 10).

 

Figura 10 – Provisionalização da região regenerada. Note o volume de mucosa ceratinizada obtido pela manutenção alveolar e membrana de PTFE denso.

 

Por que não utilizar esta técnica na próxima oportunidade? É sempre bom ter mais de uma opção para oferecer. Pense nisso e até a próxima.

 

 

 

Jamil A. Shibli

Professor titular do Programa de pós-graduação em Odontologia, áreas de Implantodontia e Periodontia – Universidade Guarulhos (UnG); Livre-docente do Depto. de Cirurgia e Traumatologia BMF e Periodontia – Forp/USP; Doutor, mestre e especialista em Periodontia – FOAr-Unesp.

 

 

Colaboração:

Ronaldo Gomes Fabiano

Especialista e mestrando em Implantodontia – Universidade Guarulhos (UnG).

 

 

 

 

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