Publicado em: 18/04/2019 às 15h45

Tratamento odontológico de usuário de cocaína

Eduardo Dias de Andrade e equipe respondem perguntas postadas no Grupo Perio-Implantar, do Facebook.

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Os pacientes usuários de cocaína necessitam de cuidados especiais. (Imagem: Shutterstock)

 

“Tenho um paciente usuário de cocaína que apresenta doença periodontal avançada e estou com certa dificuldade de achar literatura sobre o assunto. Sei que o problema maior é acerca dos anestésicos. Qual seria a melhor opção?”.

Pergunta postada no Grupo Perio-Implantar, do Facebook.


Tratamos desse tema na coluna sobre interações farmacológicas1, mas nunca é demais reforçar os cuidados e recomendações para o atendimento odontológico de usuários dessa droga.

A cocaína é um agente simpatomimético que estimula a liberação de noradrenalina e inibe sua recaptação nas terminações nervosas adrenérgicas. Isto implica dizer que os usuários dessa substância ilícita são pacientes de risco para toda e qualquer complicação cardiovascular1. Ela provoca taquicardia e alterações da pressão arterial, fazendo com que aumente a demanda de oxigênio por parte do miocárdio. Dependendo da dose, a cocaína pode diminuir a perfusão das artérias coronárias e acarretar uma isquemia significativa,  arritmia ventricular, dor no peito (angina pectoris) e até mesmo infarto agudo do miocárdio2-6.

O uso da cocaína por via intravenosa não depende do processo de absorção, daí seu efeito ser rápido e de curta duração. Ao contrário, quando essa droga é empregada por via intranasal, o que é mais comum (80% dos usuários), seus efeitos são prolongados por um período de quatro a seis horas. Portanto, pacientes odontológicos que estejam sob os efeitos da cocaína no mesmo dia em que forem submetidos ao tratamento são verdadeiras bombas-relógio ambulantes7.

O risco de complicações cardiovasculares para os usuários de cocaína é maior se a solução anestésica local com epinefrina, norepinefrina, corbadrina ou fenilefrina for empregada em grandes volumes (número de tubetes) ou inadvertidamente injetada no interior dos vasos sanguíneos, enquanto perdurarem os efeitos da droga8.

Em virtude do desafio e risco potencial que isto representa para o cirurgião-dentista, são recomendados os seguintes cuidados no atendimento de pacientes usuários de cocaína:

 1. Na consulta inicial, no roteiro de anamnese, inclua a seguinte pergunta: “Você faz uso de cocaína ou outra droga ilícita?”, pois na maioria dos casos os usuários não relatam ou não assumem esta condição. Alguns sinais físicos característicos podem auxiliar na identificação deste grupo de pacientes, como: euforia, agitação, tremores, dilatação das pupilas e alteração no ritmo cardíaco, assim como lesões de pele na região ventral do antebraço ou da mucosa nasal.

2. Justifique o teor da pergunta, explicando o possível risco de complicações cardiovasculares provocadas pela interação da cocaína com substâncias contidas na solução anestésica. Documente no prontuário clínico que o paciente foi suficientemente esclarecido sobre isto.

3. Se o procedimento for eletivo (pré-agendado, paciente assintomático), adie a consulta se constatar que ele se encontra sob os efeitos da droga.

4. Avalie os sinais vitais antes de iniciar o tratamento (pressão arterial, pulso e respiração).

5. Evite empregar soluções anestésicas locais que contenham epinefrina ou similares, ou fios de retração gengival impregnados com epinefrina, a não ser que o paciente declare que não usou a droga nas últimas 24 horas (informação que também deve ser documentada no prontuário clínico).

6. Pacientes sob os efeitos da cocaína só devem ser atendidos em caso de urgência (dor, infecção aguda). Nesta situação, utilize uma solução anestésica à base de prilocaína 3% com felipressina 0,03 UI/ml (ex.: Prilonest), respeitando o volume máximo de 3,6 ml, equivalente ao contido em dois tubetes anestésicos. A pressão arterial e o pulso devem ser monitorados pelo risco aumentado de um evento hipertensivo.

7. Casos mais complexos de intervenções implantodônticas ou periodontais, ou ainda drenagem de abscessos volumosos exigem melhor avaliação do risco/benefício de atendê-los no consultório ou em ambiente hospitalar.

 

REFERÊNCIAS
1. Andrade ED, Groppo FC, Volpato MC. Interações farmacológicas. INPerio 2016;1(8):1640-5.
2. Pasternack PF, Colvin SB, Baumann FG. Cocaine-induced angina pectoris and acute myocardial infarction in patients younger than 40 years. Am J Cardiol 1985;55(6):847.
3. Howard RE, Hueter DC, Davis GJ. Acute myocardial infarction following cocaine abuse in young man with normal coronary arteries. J Am Med Assoc 1985;254(1):95-6.
4. Cerdeña LI et al. Acute myocardial infarct in a cocaine-addicted young man. 1990;43(3):198-200.
5. Tsoukalas N, Johnson CD, Engelmeier RL, Delattre VF. The dental management of a patient with a cocaine-induced maxillofacial defect: a case report. Spec Care Dentist 2000;20(4):139-42.
6. Rezkalla SH, Kloner RA. Cocaine-induced acute myocardial infarction. Clin Med Res 2007;5(3):172-6.
7. Van Dike D, Barash PG, Jatlow P, Byck R. Cocaine: plasma concentrations after intranasal application in man. Science 1976;191(4229):859-61.
​8. Goulet JP, Pérusse R, Turcotte JY. Contraindications to vasoconstritors in dentistry: part III – Pharmacologic interactions. Oral Surg Oral Med Oral Pathol 1992;74(5):692-7.

 
 

Eduardo Dias de Andrade

Graduado, mestre, doutor, livre-docente, professor titular e responsável pela área de Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica – FOP-Unicamp. Autor dos livros "Terapêutica Medicamentosa em Odontologia" e "Emergências Médicas em Odontologia".


 

 

Colaboração:

Francisco Carlos Groppo

Graduado, mestre, doutor, livre-docente e professor titular de Farmacologia – FOP-Unicamp; Pós-doutor em Periodontia – Harvard University e The Forsyth Institute (EUA).

 


 

Maria Cristina Volpato

Graduada, mestra, doutora, livre-docente e professora titular de Farmacologia e Terapêutica Medicamentosa – FOP-Unicamp.

 

José Ranali

Graduado em Odontologia, mestre e doutor – Universidade de Campinas (Unicamp).

 
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